"Gol hilariante" de juiz evitou derrota do Verdão contra o Peixe em 83

Juliana Arreguy* e Edoardo Ghirotto - São Paulo,SP

02-12-2015 09:00:58

A bola desviou no árbitro José de Assis Aragão (de preto) antes de entrar e empatar o jogo para o Palmeiras contra o Santos (Foto: Acervo/Gazeta Press)
A bola desviou no árbitro José de Assis Aragão (de preto) antes de entrar no gol e empatar o jogo para o Palmeiras contra o Santos (Foto: Acervo/Gazeta Press)

O primeiro jogo da final da Copa do Brasil não foi o único clássico entre Palmeiras e Santos a terminar com o árbitro no centro de uma grande confusão. Em 1983, um tabu de quase quatro anos sem vencer o Santos complicava o Palmeiras no Campeonato Paulista. Na condição de visitante, no estádio do Morumbi, o Verdão encarava outra derrota iminente: chegara aos 45 minutos do segundo tempo com o placar apontando 2 a 1 para o Peixe. A partida, válida pela primeira fase da competição, teria os rumos modificados pela atuação do juiz José de Assis Aragão, que colaborou no gol de empate alviverde a um minuto do fim da partida.

“O gol do Palmeiras, com participação direta do árbitro Assis Aragão, acabou dando ao clássico de ontem um final hilariante”, escreveu o jornal A Gazeta Esportiva em 10 de outubro de 1983, dia seguinte do clássico.

Chamado pelo periódico de ‘gol antológico’, o polêmico lance levantou comentários irritados por parte dos santistas. A bola havia sobrado para Jorginho dentro da área aos 46 minutos do segundo tempo. Após o chute do jogador do Palmeiras, os santistas Betão e Marola seguiram na direção da bola. Mas ela desviou no árbitro, posicionado na grande área, e entrou no gol.

“Aragão, figura neutra segundo as regras do jogo, teve participação física, mas não intencional”, descreveu A Gazeta Esportiva no relato da partida. “Fato idêntico aconteceu no segundo turno do Campeonato Paulista de 1949. O árbitro inglês Snape validou um gol do São Paulo marcado por Leônidas da Silva contra o Nacional. A bola, chutada por Leônidas, desviou no árbitro e enganou o goleiro”, complementou o jornal.

Ao fim do jogo, Rocha comemorou o gol de empate e minimizou as críticas santistas. “Todo mundo sabe que árbitro é uma figura neutra e o Palmeiras teve sorte. A bola bateu no árbitro e continuou em jogo. Poderia ter sido o Santos o felizardo, não é?”, disse.

Como Aragão é considerado neutro em campo, o gol foi creditado a Jorginho por ter dado o último toque na bola antes de acertar o árbitro. Rindo, o jogador contou que calculou mal a finalização, demonstrando alívio pela coincidência que veio a seguir.

“Eu quis acertar o canto esquerdo, mas bati mal na bola, e ela sairia, se a providência não fizesse o Aragão desviá-la, sem saber o que havia feito. Saiu melhor a emenda do que o soneto e acredito que o empate premiou o espírito de luta do nosso time que, em momento algum se entregou e deixou de acreditar num resultado melhor. Só lamento que o tabu de quase quatro anos permaneça”.

Já a torcida alviverde aproveitou o momento para provocar o rival da Baixada. "Vamos pedir para a Federação só escalar o Aragão nos jogos do nosso time", zombou um torcedor.

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“Parece que perdemos de goleada”

Assim que a bola passou pelo goleiro Marola, os jogadores do Santos partiram para cima de Assis Aragão, que optou por encerrar a partida logo em sequência. As reações no vestiário do Peixe, registradas pela Gazeta Esportiva, mostraram revolta e questionamentos sobre a conduta do árbitro em campo.

“No outro lado, socando os ladrilhos brancos do vestiário do Santos, o zagueiro Márcio lamentava a posição de José de Assis Aragão: ‘Não costumo criticar árbitros ou bandeirinhas... mas o árbitro Aragão tem que admitir que estava colocado de maneira errada no lance que gerou o gol do Palmeiras. Parece que perdemos de goleada... estou me sentindo abatido. Um gol assim derruba qualquer time, não é? O Palmeiras empatou a partida com um gol do senhor José de Assis Aragão... é, eu sei que ele é uma figura neutra, mas isso não justifica a sua colocação inadequada naquele momento’”, escreveu o jornal.

Lino insinuou que o movimento feito pelo árbitro teria sido proposital, reclamando da falta de “má fé” do juiz em permanecer na área durante o lance. “Em toda a minha vida eu nunca vi uma coisa dessas. Eu aceito que o juiz seja neutro e a jogada tenha validade na regra, mas de forma como ele correu para a bola, quando o Jorginho chutou, deu para perceber a má fé e a vontade de determinar o empate que o Palmeiras não conseguiria na partida. Era perfeitamente possível ao Aragão levantar a perna e deixar a bola passar, mas ele preferiu colocar a bola em nosso gol. Sorte do Palmeiras e méritos do juiz, que poderia, inclusive, comemorar o gol abraçando-se aos jogadores de camisa verde”, argumentou.

Nada de VHS

A diretoria do Santos da época teve uma atitude bem contrastante com a do atual presidente do Palmeiras, Paulo Nobre. Os dirigentes alvinegros não compartilharam da revolta dos jogadores e defenderam Aragão. “Vamos colocar panos quentes nessa fatalidade. Hoje não foi o dia do árbitro e a honestidade do Aragão é suficiente para que ele faça um exame de consciência e avalie os erros que teve”, disse Milton Teixeira, então vice-presidente do Peixe.

Após a derrota da última quarta-feira para o Peixe, Nobre atacou o árbitro Luis Flavio de Oliveira ao dizer que o Palmeiras foi "vergonhosamente prejudicado" na Vila Belmiro. Nobre prometeu até gravar o lance do pênalti não marcado em um DVD que seria encaminhado à Comissão de Arbitragem.

“Contribuição involuntária”

“Tinha que acontecer logo comigo?”, berrou José de Assis Aragão na saída de campo. “Sob forte proteção policial e acompanhado de seus auxiliares, Aragão, assim que transpôs a porta do vestiário, deu um violento murro em seu armário, num desabafo mais violento”, relatou A Gazeta Esportiva.

“Em toda a minha carreira nunca vivi esse episódio. Meu Deus do céu, que culpa tive se a bola bateu em mim e entrou? Eu já voltava para o meio do campo, depois da cobrança do escanteio, e a bola, aparentemente, já havia sido rechaçada para fora daquele setor, pela defesa do Santos, quando sobrou para o chute do Jorginho, que teve a felicidade de fazer o gol com a minha contribuição involuntária”, lamentou o árbitro.

Mais de trinta anos depois, o clássico entre Palmeiras e Santos volta a ter a arbitragem como centro das atenções em função das reclamações do jogo de ida. Mas, dessa vez, a revolta está concentrada do lado verde e branco. O árbitro Luis Flavio de Oliveira foi muito criticado no Verdão por não ter marcado um pênalti do zagueiro David Braz em cima do atacante Lucas Barrios no início do segundo tempo.

Com o placar de 1 a 0 na Vila Belmiro, o Peixe garantiu a vantagem para o duelo de volta, precisando de um empate simples para levantar o caneco. O Verdão, por sua vez, precisa de dois ou mais gols de diferença para conquistar o troféu. A partida será realizada nesta quarta-feira, às 22 horas (de Brasília), no estádio Palestra Itália.

*especial para a Gazeta Esportiva

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