Maior ídolo do San Lorenzo, “Bambi” fracassou no Corinthians do jejum

Helder Júnior e Bruno Ceccon - São Paulo,SP

03-03-2015 09:30:00

O maior ídolo da história do San Lorenzo – pelo menos de acordo com eleições realizadas durante o centenário do clube argentino, em 2008 – já defendeu o Corinthians. Carinhosamente chamado de “Bambi” em seu país, o ex-atacante Héctor “Bambino” Veira teve uma passagem fracassada pelo clube do Parque São Jorge no último dos quase 23 anos do jejum de títulos que seria encerrado no Campeonato Paulista de 1977.

O maior ídolo da história do San Lorenzo – pelo menos de acordo com eleições realizadas durante o centenário do clube argentino, em 2008 – já defendeu o Corinthians. Carinhosamente chamado de “Bambi” em seu país, o ex-meia Héctor “Bambino” Veira teve uma passagem fracassada pelo clube do Parque São Jorge no último dos quase 23 anos do jejum de títulos que seria encerrado no Campeonato Paulista de 1977.

“Guardo as melhores recordações do Corinthians, um clube sensacional, extraordinário. A torcida é espetacular. É claro que existia a pressão de um grande time, ainda mais em uma época em que estava há muito tempo sem ser campeão”, recordou o Bambino, em contato com a Gazeta Esportiva. Aos 68 anos, ele hoje trabalha como comentarista esportivo em Buenos Aires e demonstra empolgação com o iminente encontro do seu San Lorenzo com o Corinthians pela Copa Libertadores da América. “Vou desfrutar.”

Héctor Bambino Veira já desfrutou bastante da vida. Em 1976, ele chegou ao Corinthians com uma reputação de polêmicas consolidada após mais de uma década de carreira. Havia aparecido como destaque do famoso time dos “caras sujas” (formado em maioria por garotos provenientes das categorias de base) do San Lorenzo do início da década de 1960, sem se preocupar em limpar a sua imagem. Dizia que dormia e acordava tarde em quatro dos cinco dias da semana, despertado pela mãe. “Sempre gostei muito das mulheres”, justificou, certa vez, à imprensa do seu país. “Mas todos viam que eu era um bom menino. ‘O Bambi, o Bambi...’, diziam os técnicos. Eu fazia gols, e eles me perdoavam”, completou.

Hector Veira, ídolo do San Lorenzo, passou de forma discreta pelo Corinthians durante o jejum de títulos
Hector Veira, ídolo do San Lorenzo, passou de forma discreta pelo Corinthians durante o jejum de títulos - Credito: Reprodução
As mulheres também gostavam muito de Veira. Com a sua vasta cabeleira, ele chamou a atenção do público feminino por onde passou – do San Lorenzo ao Corinthians – e colecionou tantos elogios fora de campo quanto dentro. Em um programa de televisão, a atriz argentina Carmen Barbieri chegou a falar com orgulho de um romance com o Bambi: “Foi uma relação totalmente sexual. Fazíamos sexo o tempo todo. Não na cama, mas em qualquer lugar. O Bambino era simpático, gracioso, lindo e dotado como nenhum outro”.

Não foi por esses atributos, contudo, que o Corinthians decidiu investir no meia argentino quando continuava amargurado com o seu tabu de conquistas. No início de 1976, Héctor Veira veio do espanhol Sevilla ao Brasil para fazer um período de testes no Palmeiras, com o passe fixado em US$ 50 mil. Acabou aproveitado em jogos em Anápolis (GO) e Araçatuba (SP), onde se irritou com a violência de um defensor e exigiu uma rápida definição sobre o seu futuro. Folclórico presidente corintiano, Vicente Matheus estava atento à situação do argentino (chamado por ele de “Vieira”) e adiantou-se ao clube rival para contratá-lo.

Apesar de enaltecer as virtudes técnicas de Veira, a imprensa paulista da época se mostrou ressabiada em relação à fama do atleta. “Você veio para jogar futebol?”, estampou o jornal A Gazeta Esportiva, que relatava o histórico de provocador do reforço do Corinthians. “Contam também que Veira se pintava de negro para brincar o Carnaval. E há mesmo quem diga que Héctor Rodolfo Veira vive a vida na base dos 300 km/h. Ou que vivia, eis que, hoje, homem casado, com quase 30 anos de idade, deve estar começando a fixar os pés na terra, olhando as estrelas somente por olhar”, acrescentava o periódico.

Diferentemente do que ocorreria nos dias de hoje, contudo, a alcunha do meia não despertava tanta curiosidade na época – Vampeta tinha somente 2 anos de idade e estava longe de popularizar o termo “Bambi” como um apelido pejorativo ao rival São Paulo. O argentino virou “Bambino” por causa do companheiro Coco Rossi, que gostou das comparações entre Veira e Gianni Rivera (“Il Bambino de Oro” do Milan – “O Menino de Ouro”) feitas pela mídia italiana durante uma excursão do San Lorenzo.

Garoto que acusou o Bambino de estupro no final dos anos 1980 virou o travesti
Garoto que acusou o Bambino de estupro no final dos anos 1980 virou o travesti "Malena Candelmo" - Credito: Divulgação
O nome do Bambino não demorou a cair na boca das mulheres brasileiras. “Elas são realmente maravilhosas”, suspirou à Gazeta Esportiva, já sexagenário. Para a revista argentina El Gráfico, ele relacionou esse seu espírito jovial ao insucesso no Corinthians: “O Campeonato Paulista era muito duro. Sempre dizia a ao Loco Doval (atacante também revelado pelo San Lorenzo), que jogou no Flamengo e no Fluminense: ‘Meu futebol é para o Rio de Janeiro, não para São Paulo’. No Rio, treinavam às 18 horas. Em São Paulo, nem saía muito, mas viajava a cada duas semanas para ver o Doval no Rio e ficar lá alguns dias. Íamos à praia, jogávamos vôlei, saíamos para comer, para dançar... O Loco era ídolo lá”.

Hoje, Veira se derrete em elogios à cidade de São Paulo. Ele já esteve até no estádio que o Corinthians construiu em Itaquera, no ano passado, para exercer a função de comentarista durante a Copa do Mundo. “É maravilhoso, uma beleza. Muito, muito lindo. São Paulo também é uma cidade bastante bonita, onde vivi bem quando estava no Corinthians. O Campeonato Paulista, sim, era realmente difícil”, comentou.

Antes de conhecer as adversidades do Estadual, Veira tentou se adaptar ao Corinthians por meio de uma série de amistosos contra equipes modestas – ocasiões em que acumulou os seus irrisórios quatro gols pelo clube. A estreia ocorreu em 28 de fevereiro, jogando como titular no empate por 1 a 1 com o Independência de Osasco, no José Liberatti. “Com uma atuação das mais discretas”, segundo A Gazeta Esportiva do dia seguinte.

Na outra semana, Veira conseguiu arrancar elogios do jornal. Ele atuou novamente como titular contra o Madrugada, em São Carlos, e marcou o primeiro gol da vitória por 2 a 0. “O gramado era melhor, e foi possível tocar a bola. Acho que me saí bem desta vez, com boa presença de área. O meu gol surgiu de uma jogada individual em que passei do pé esquerdo para o direito antes de chutar. Depois, ainda marquei outro de direita, que foi anulado. E até sofri um pênalti indiscutível, mas o árbitro não apitou”, relatou, naquele tempo.

Os últimos gols contabilizados por Veira no Corinthians ocorreram em maio, em estádios com nomes sugestivos – o Palmeirão e o Verdão. Ele substituiu Geraldão diante do Pato Branco e anotou os dois últimos no triunfo por 3 a 0. O placar foi o mesmo diante do Combinado de Cuiabá, quando ocupou a vaga de Lance e fechou o marcador. Depois disso, o meia argentino disputou apenas outros 16 jogos, sem qualquer destaque, o último deles em 30 de janeiro de 1977.

O irreverente Héctor
O irreverente Héctor "Bambino" Veira chegou até a fazer pontas como ator na América Latina - Credito: Divulgação
“O que sinto é que nunca me colocaram na minha posição correta enquanto estive no Corinthians. Ou seja, não fui utilizado onde realmente jogo bem, onde rendia nas equipes por que passei. Eles me trocavam muito de lugar. Mas são coisas do futebol, nada além disso. De resto, tudo excelente”, minimizou Veira, que ganhou status na Argentina como meia.

Após deixar o Corinthians, o Bambino ainda defendeu – também sem brilho – Universidad de Chile e Oriente Petrolero, da Bolívia, antes de se aposentar como jogador. Ele resgatou o seu prestígio ao iniciar a carreira de técnico e coroá-la com títulos do Campeonato Argentino, da Copa Libertadores da América e da Copa Intercontinental de 1986 pelo River Plate. No querido San Lorenzo, venceu a competição nacional de 1995, encerando um jejum de 21 anos – quase tão grande quanto aquele que o Corinthians havia enfrentado.

Entre o final da década de 1980 e o início dos anos 1990, no entanto, Héctor Bambino Veira também virou notícia de forma negativa fora de campo. Ele passou 11 meses preso sob a acusação de ter molestado sexualmente Sebastián Candelmo, um garoto de 13 anos. Enquanto o ex-jogador encara o assunto como um tabu e como uma “injustiça total”, a vítima virou o travesti “Malena Candelmo” e o acusa de ter arruinado a sua vida para sempre.

Nem o crime foi capaz de diminuir a admiração dos torcedores do San Lorenzo pelo Bambi – que, apesar das controvérsias, diz ser muito religioso e ler a Bíblia todas as noites. Os pecados relacionados ao futebol também receberam o perdão dos fãs. Veira era um fanático torcedor do Huracán (que defendeu entre 1970 e 1971) até a juventude. A ponto de frequentar a sede do clube rival para jogar bilhar horas depois de entrar em campo pelo time do papa Francisco.

O San Lorenzo, hoje dirigido por Edgardo Bauza (foto), contará com a torcida de Veira contra o Corinthians
O San Lorenzo, hoje dirigido por Edgardo Bauza (foto), contará com a torcida de Veira contra o Corinthians - Credito: Divulgação
Enfim na idade em que está “olhando as estrelas somente por olhar”, conforme uma vez definiu o jornal A Gazeta Esportiva, Veira já prefere reservar um espaço maior para o San Lorenzo em seu coração. O menor deles é destinado ao Corinthians, que visitará o Nuevo Gasómetro na noite desta quarta-feira, em busca da liderança isolada do grupo 2 da Libertadores.

“Vi o Corinthians jogar muito bem contra o São Paulo. É um adversário difícil. Mas o San Lorenzo também está forte, com uma estrutura consistente. Será complicado para os dois, que têm elencos realmente bons”, previu o Bambi, com a experiência de quem se tornou o maior ídolo do San Lorenzo e uma das maiores decepções da história do Corinthians.

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