Jornalista de A Gazeta Esportiva fez Brandão compensar estudos de Tite

Helder Júnior* - São Paulo , SP
01/12/2015 09:01:49

Em: Corinthians, Futebol
Em 1977, Brandão recebeu um troféu das mãos de Olímpio da Silva e Sá, diretor de A Gazeta Esportiva (foto: acervo/Gazeta Press)
Em 1977, Brandão recebeu prêmio das mãos de Olímpio da Silva e Sá, diretor de A Gazeta Esportiva (foto: acervo/Gazeta Press)

Regina, a filha de Oswaldo Brandão, animou-se quando soube qual era o veículo de imprensa que estava interessado em escrever sobre o seu pai. “Gazeta Esportiva? Papai adorava o Seu Solange Bibas! Passavam horas e horas conversando”, contou.

Solange Bibas foi um jornalista paraense que fez história no jornal A Gazeta Esportiva. Autor do livro As Copas que ninguém viu, ele colecionou casos e curiosidades em suas coberturas internacionais. Em 1958, por exemplo, resolveu aceitar um provocativo desafio do ex-jogador iugoslavo Ivan Stevovich: “O Brasil só gosta de dar toque de calcanhar. Não tem sistema de jogo. Aposto US$ 1.000 que não passa pela França e não vai à final”. A goleada por 5 a 2 da Seleção sobre os franceses fez o repórter vencer a aposta, mas não lhe garantiu o pagamento.

Segundo Regina, muitos episódios como esse foram temas em reuniões entre Solange e Oswaldo Brandão, técnico do Corinthians nas históricas conquistas dos Campeonatos Paulistas de 1954 e 1977. “Seu Solange era muito atualizado, antenado, com raciocínio rápido, e trazia tudo o que estava acontecendo lá fora para o papai. Naquela época, não havia as facilidades de hoje, com o mundo globalizado. Então, o Seu Solange ajudava muito”, observou.

Solange Bibas virou conselheiro de muitos técnicos de sua época (foto: acervo/Gazeta Press)
Solange Bibas virou conselheiro de muitos técnicos de sua época (foto: acervo/Gazeta Press)

Foi essa ajuda que compensou uma defasagem de Brandão em relação a Tite, com quem passou a ser novamente comparado após o Corinthians conquistar o seu hexacampeonato brasileiro neste ano. Até Basílio, o autor do gol do título estadual de 1977, fez ponderações nesse sentido.

“O Tite está mostrando que o Seu Brandão baixou nele. Os dois conversam muito com os jogadores, falam com sinceridade. A diferença é que o Tite foi buscar um aprendizado lá fora para crescer, conheceu novos sistemas. Essa foi a grande vantagem do Corinthians na temporada. Mas o Seu Brandão era experiente e não fugia muito”, analisou o Pé de Anjo.

E quem fazia Brandão não fugir era também Solange Bibas. Em 2012, quando Tite foi campeão continental e mundial pelo Corinthians, o jornalista Flávio Prado recordou o antigo companheiro de redação em um texto publicado na Gazeta Esportiva. “Foi Solange Bibas que me ensinou que o futebol não se limitava ao nosso País, que grandes jogadores nasciam em qualquer lugar e que o conhecimento geral era extremamente necessário”, escreveu.

Muitos treinadores da época concordavam com essa avaliação. “No começo dos anos 1970, Bibas era capaz de comentar vastamente sobre as revelações, os melhores de cada certame da América e do mundo, além de características básicas, como pé preferencial e forma costumeira de atuação em campo. Incrível que o seu principal informante era o técnico da seleção da Iugoslávia, Miljan Miljanic, grande amigo de Oswaldo Brandão, por sua vez parceirão de Bibas. As informações vinham por cartas”, publicou Flávio Prado.

Sem fazer o estágio de Tite, Brandão chegou à Seleção Brasileira mais de uma vez (foto: acervo/Gazeta Press)
Sem os estágios de Tite, Brandão foi à Seleção mais de uma vez (foto: acervo/Gazeta Press)

No tempo dos e-mails, Tite tem às suas mãos equipamentos e informações que vão além dos conselhos coletados com algumas referências suas, como o italiano Carlo Ancelotti. “É difícil comparar porque são épocas diferentes. No tempo do meu pai, era ele a primeira pessoa a cuidar dos pés dos jogadores, a pensar no gramado. Hoje, a gente vê todas essas chuteiras maravilhosas”, sorriu Regina.

Preocupado com os calçados dos seus atletas por orientação ou não de Solange Bibas, Oswaldo Brandão também tinha as suas reservas com a imprensa, ao contrário de Tite, que gosta de se mostrar bonachão. Há quem prefira comparar o treinador corintiano de 1977 com mais um gaúcho, o rabugento Luiz Felipe Scolari, que foi parar no outro lado do mundo, na China.

Profissionalmente, o local de trabalho de Brandão mais longínquo foi a Argentina, onde treinou o Independiente no início e no final da década de 1960, conquistando o campeonato nacional de 1967. Ele ainda alcançou aquela que era a finalidade de Tite quando foi estagiar na Europa – a Seleção Brasileira, entre 1955 e 1957 e de 1975 a 1977, quando retornou ao Corinthians para entrar definitivamente na história como o campeão paulista da quebra do jejum.

*Colaboraram Bruno Ceccon e Marcos Guedes




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