Beatriz Ferreira, dos golpes no fundo de uma garagem à prata em Tóquio

São Paulo, SP

08/08/21 | 05:06

Beatriz Ferreira começou a dar os primeiros golpes de boxe aos quatro anos na garagem de sua casa e desde então se empolgou com um esporte que já foi proibido para as mulheres no Brasil, país que hoje comemora sua medalha prata nos Jogos de Tóquio.

A baiana de 28 anos perdeu na final do peso leve (até 60kg) das Olimpíadas do Japão para a irlandesa Kellie Anne Harrington e conquistou a prata, o melhor resultado para uma brasileira após o bronze de Adriana Araújo em Londres-2012, na estreia olímpica boxe feminino.

O segundo lugar no pódio na capital japonesa é a consagração de uma jovem em um esporte que está em seu sangue e que foi proibido por lei para as mulheres no Brasil entre 1941 e 1979, assim como o futebol, levantamento de peso ou rúgbi, por serem supostamente "incompatíveis com as condições de sua natureza".

Seu pai, Raimundo Oliveira Ferreira, conhecido como "Sergipe", lutou como amador e profissional entre as décadas de 1990 e 2000. Ele afirma que treinava com o ex-campeão mundial Acelino 'Popó' Freitas, um ídolo do boxe brasileiro.

Na garagem da antiga casa da família, em Salvador, 'Sergipe' fundou uma academia para lutadores com poucos recursos. Um dia ele perguntou à filha se ela queria aprender a lutar. A menina de quatro anos aceitou o desafio e assim iniciou uma carreira repleta de triunfos.

"Ele me ensinou alguns golpes e desde então não parei mais", disse Bia, como é chamada, ao site Olimpíada Todo Dia em 2017.


Aproveitar a pandemia

A baiana começou a progredir em um país que dá mais atenção ao MMA do que ao boxe. E fez isso em grande estilo. Ela conquistou o ouro nos Jogos Sul-Americanos de Cochabamba-2018 e nos Jogos Pan-Americanos de Lima-2019, os primeiros do boxe feminino brasileiro naquela competição, e venceu o Mundial em 2019.

A pandemia de covid-19 adiou os Jogos Olímpicos na capital japonesa, originalmente programados para 2020, em um momento em que chegava como favorita e com seus grandes triunfos ainda quentes.

Mas ela aproveitou o tempo de reclusão para treinar sob a orientação do pai, não mais em sua Salvador natal e sim na nova casa da família, na cidade de Juiz de Fora, no estado de Minas Gerais.

“Não perdemos tempo. A Bia ficou aqui comigo na pandemia e não tivemos maus momentos. Treinamos o tempo todo e, nisso, ela leva uma grande vantagem. O pai dela é treinador e ela não tem como fugir disso", brincou Sergipe em depoimento ao site GloboEsporte.com.

Tatuada nos dois braços, Beatriz Ferreira costuma enfeitar a cabeça com uma bandana estampada com a bandeira do Brasil e comemorar seus triunfos com uma saudação militar, costume herdado de sua formação como atleta nas Forças Armadas.

No ringue em Tóquio ela não só fez história, como também transmitiu tranquilidade ao seu pai-treinador.

"Como pai e treinador você sofre muito, o sofrimento é duplo. A ansiedade para a luta chegar logo é muito alta, embora eu tenha consciência, sou forte. Estou preparado, porque é preciso fazer isso para que o coração resista", diz Sergipe.

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