Musa luta por reconhecimento de pole sports e sonha com Olimpíadas

Marcela Attie, especial para a GE.net - São Paulo,SP

10-10-2015 12:15:38

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O pole dance pode ser definido como uma mistura de ginástica e dança feita em uma barra vertical e surgiu nos anos 1980, na Inglaterra. No Brasil, a prática ainda é nova – chegou em 2008 – e sofre com os estereótipos ligados à sensualidade e às boates. Porém, uma parcela de praticantes já participa de campeonatos como atletas e, há cerca de um ano, foi fundada a Liga Brasileira de Pole Sports (LBPS) para brigar pela inserção da modalidade nos Jogos Olímpicos.

Tricampeã brasileira de pole sports, a paulistana Alessandra Rancan, de 29 anos, comprova que o pole dance pode ser considerado um esporte. Simpática e bonita, a atleta recebeu a reportagem da Gazeta Esportiva na academia em que realiza seus treinamentos, no bairro Jabaquara, zona sul de São Paulo, e contou sua história e os desafios enfrentados na modalidade.

“Treinei dez anos de ginástica rítmica, aquela que usa bola, arco, fita, e uma amiga minha já treinava com a Cristina (dona da academia). Ela colocava fotos e eu não sabia o que era, não conhecia pole dance ou pole sports. Comecei a notar que se assimilava com as acrobacias da ginástica. Então, me interessei e fui fazer uma aula. No primeiro dia, em 2011, a Cristina falou que ia me transformar numa campeã. No segundo ou terceiro treino, ela já quis que eu participasse da equipe que ia para as competições”, explicou.

Cristina estava certa e, logo em 2012, Alessandra sagrou-se campeão brasileira. Nos dois anos seguintes, a história se repetiu, e a musa tornou-se tricampeã. “O pole foi acontecendo muito rápido na minha vida. Como atleta, sei que a batalha é muito grande, tenho que estar preparada para ganhar e perder. Mas não tenho nem como explicar minha felicidade. Ganhar uma vez já é difícil, duas é muito mais e três é quase impossível. Fico muito feliz, agradecida por ter esse desempenho”, comemorou a atleta.

Casada, mas sem filhos, Alessandra é formada em Administração e Biologia, mas atuou apenas na primeira área até 2013. No ano anterior, começou a dar aulas de flexibilidade na mesma academia em que treina e, então, deixou o emprego para se dedicar apenas ao pole dance. “Hoje, minha profissão é ser instrutora de pole dance e de flexibilidade”, afirmou a musa, que revelou como foi a aceitação de sua família com a mudança.


“Num primeiro momento, tive receio contar que estava fazendo pole dance. Então, contei primeiro para o meu noivo, na época. Ele me apoiou muito e sempre fala que tenho que fazer o me deixa feliz, mas, desde o começo, mostrei que era muito similar à ginástica. Depois de dois ou três meses, contei para a minha família reunida, mas expliquei que não era sensual, que misturava muitas acrobacias. Contei que estava indo para o Rio competir em três meses e pedi o apoio deles. Mostrei vídeos no Youtube e eles viram que era uma coisa linda, difícil e até arriscada. Acharam muito legal e me apoiaram. Em 2013, quando decidi trocar de profissão e me dedicar 100% a ser atleta profissional e instrutora de pole dance e flexibilidade, me apoiaram”, relatou.

“Acho até engraçado, porque muitas pessoas falam que sofrem preconceito, mas nunca passei por isso. Quando alguém estranha, mostro os vídeos e, assim que ela percebe o grau de dificuldade dos movimentos do esporte, se dá conta do quanto deve ser respeitado. Algumas amigas minhas brincam às vezes, mas não é nada demais”, disse.

A atleta ainda comentou sobre a confusão feita entre as vertentes do pole dance. “É uma coisa muito única, uma mistura de circo, ginástica artística, rítmica, fitness, dança, arte, teatro, ballet. Tem sim o lado mais sensual, o mais artístico, em que as pessoas se inspiram em personagens para fazer a coreografia e, hoje, há o lado do esporte, que é o que eu sigo, por ter sido atleta e amar o mundo do esporte, que me faz muito bem”, contou.

Com o objetivo de inserir o pole sports nas Olimpíadas, a Liga Brasileira de Pole Sports (LBPS) se filiou a Federação Internacional de Pole Sports (IPSF). “A partir dessa filiação, haverá um grande avanço. A Federação é muito séria, tem um código enorme, regras que não acabam mais. Os atletas evoluíram muito”, afirmou. “Quem quer seguir o lado do esporte está trabalhando para que, um dia, seja muito respeitado e entre nas Olimpíadas. Já visitei vários países que as pessoas conhecem muito o pole, como na Inglaterra. No Brasil, não é muito reconhecido porque chegou tarde. Ainda vai ser, mas as pessoas precisam ter paciência, porque é um processo, demora, mas é inevitável”, acrescentou.

O Campeonato Brasileiro de Pole Sports deste ano será realizado em São Carlos, nos dias 13 e 14 de novembro, e Alessandra admite a dificuldade de conquistar o tetracampeonato. “Estou treinando muito para este campeonato de agora. É um sonho ganhar de novo, mas é quase impossível, tem que ter muita reza (risos). Um grande sonho é ter um bom resultado no Mundial. Este ano, fiquei com a primeira colocação no Pan-Americano, e foi minha maior conquista até o momento, além de ter ganhado o Brasileiro três vezes seguidas”, pontuou.

Na academia onde treina, Alessandra tem a companhia de Priscila Neres e Andreya Sotanyi. Elas também trocaram suas profissões para se tornarem atletas de pole sports e, assim como a colega, enfrentam desafios na nova carreira.

Antes sedentária, Priscila, de 29 anos, é a atual vice-campeã brasileira e revelou que usa certa “intimidação” para evitar preconceito quando fala sobre sua profissão. “Digo que sou atleta de pole dance fitness, pole sports. Não rebolo. Sigo regras. Não tem nada de roupa curtinha, é tudo tampado, não mostra nada. O cabelo é preso, tudo é bem sério. Geralmente, até faço uma cara invocada, já para intimidar, porque o pessoal é abusado. Nunca sofri preconceito, porque, desde que comecei, sempre quis o fitness, então imponho respeito, falo grosso. Nunca zombaram de mim”, declarou.

Já Andreya, de 43 anos, disputará um campeonato pela primeira vez, na categoria máster. Começou a praticar a modalidade em 2013 e deixou a profissão de analista de sistemas para se tornar atleta e abrir um estúdio de pole dance. Diferentemente de Alessandra e Priscila, ela revelou que sofreu discriminação.

“Logo que comecei a fazer, comentava com minhas amigas do bairro, e elas não divulgavam. Quando publiquei a minha primeira foto no Facebook, acharam que eu tinha postado sem querer, mas falei que não. Eu estava bem vestida e expliquei que fazia pole sports. No começo, deixaram de me convidar para as festinhas de criança, foi um preconceito enorme, grave, mas eu continuei postando as fotos. As minhas amigas não cortaram relações, mas sentia que elas tinham vergonha sim. De tanto bater na tecla de que fazia pole sports e de verem minha mudança física, elas começaram a se interessar e foram se acostumando. Hoje, fico supercontente, porque, quando coloco uma foto no Face, vejo as curtidas de um monte delas. Depois de um ano, foram elas que me pediram para abrir a academia”, comentou.

“Meu marido também ficou com vergonha. Um dia depois de fazer a primeira aula, instalei uma barra em casa, ele ficou assustado, pedia para esconder quando chegavam visitas, até que ele mudou. Agora, mostra foto, admira. Ele viu que a nossa linha é a do esporte, que fez bem para mim, para o casamento. Quando estamos felizes, tudo dá certo”, concluiu, com um sorriso estampado no rosto.

DIRETORA DE ARBITRAGEM QUER DESMISTIFICAR POLE DANCE: “É ESPORTE SIM”

 

Dona da academia onde Alessandra, Priscila e Andreya treinam, Cristina Longhi é diretora de arbitragem da Liga Brasileira de Pole Sports (LBPS), fundada em 2014, e pioneira do esporte em São Paulo. Também praticante desde 2008, ela é uma das que luta para a presença do pole dance nas Olimpíadas.

“O pole fitness, que, quando vai para o campeonato vira o pole sports, é voltado para as acrobacias, não tem essa coisa da dancinha. Precisamos falar disso para desmistificar essa questão. As pessoas veem aquela coisa da boate, das bailarinas, mas não tem nada a ver, são duas coisas diferentes. Uma é voltada para a dança, a outra para acrobacia. Tem campeonatos, atletas dedicados, é tão parecido com a ginástica, por que não somos esporte? A gente é esporte sim”, explicou à Gazeta Esportiva.

“Olimpíadas é um sonho de qualquer modalidade. Hoje, existe um trabalho muito focado da Federação Internacional. Está tentando se filiar ao SportAccord, um órgão que regula as federações de vários esportes. Ele trabalha em conjunto com o Comitê Olímpico. Então, quando o pole sports for aprovado, poderá entrar com um pedido junto ao COI. Já plantamos a semente e estamos trabalhando para o público entender a diferença e alcançar as Olimpíadas”, completou.

O Campeonato Brasileiro deste ano contará com os sete jurados vindos do exterior, uma vez que, após a filiação com a Federação Internacional de Pole Sports (IPSF), os brasileiros ainda não puderam passar pelo curso de capacitação para seguirem as novas regras.

“A Federação Internacional de Pole Sports capacita jurados no mundo todo. A partir do momento que um país se filia, usa as mesmas regras, os jurados têm que se adequar. É feito um curso. A Federação manda para o país uma pessoa que já tem grau elevado. Você faz o curso e uma prova. Se for aprovado, pode ser jurado nacional ou internacional, dependendo da língua”, esclareceu.

Preocupada com a questão do preconceito, Cristina contou que realiza uma confraternização com as alunas e suas famílias no fim do ano, com o objetivo de enfatizar o lado esportivo da prática. “Desde 2011, faço um evento (outras academias também fazem esse festival) no final do ano exatamente por isso. Quero que a família vá lá e veja que as esposas, namoradas, filhas, estão praticando uma atividade física. É uma confraternização com o objetivo de desmistificar”, justificou, orgulhosa de suas pupilas.

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