Plácido Domingo se encantou com “Dona Lúcia” um dia antes de Parreira

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Plácido Domingo se encantou com “Dona Lúcia” um dia antes de Parreira

Tenor espanhol, que torcia pelo Brasil, provou a culinária mineira na véspera da vexatória goleada por 7 a 1

Helder Júnior - São Paulo (SP) 27 de março de 2018 01:00:36
 

Carlos Alberto Parreira não se conteve quando o amigo Luiz Felipe Scolari comentou que recebeu “notas, cartas, e-mails e telegramas de muito apoio” no dia seguinte à maior humilhação do esporte brasileiro. Naquele dia 9 de julho de 2014, a comissão técnica da Seleção Brasileira estava reunida diante das câmeras de televisão para tentar explicar a vexatória derrota por 7 a 1 para a Alemanha, nas semifinais da Copa do Mundo disputada em casa. “Felipão, eu não ia comentar, mas, já que o assunto surgiu…”, interrompeu o coordenador da Seleção Brasileira.

Parreira, então, desdobrou um papel que estava sobre a mesa e iniciou a leitura de pouco mais de 200 palavras de um e-mail endereçado à comissão técnica chefiada por Felipão. “É da Dona Lúcia, uma torcedora simples que não conhecemos”, ele nomeou, dando motivo para uma série de deboches em torno da veracidade da personagem que os incentivava. Na época, perfis falsos da fã incondicional da Seleção Brasileira foram criados em redes sociais e fizeram relativo sucesso.

Muito antes de o Brasil sucumbir no Mineirão, no entanto, uma Dona Lúcia já gozava da fama em Belo Horizonte. Ela também “não conhece muito de futebol”, conforme Parreira descreveu a remetente da comissão técnica da Seleção, e ajudou igualmente a histórica goleada alemã a ser mais bem digerida – por meio de seus restaurantes de comida típica mineira.

Plácido Domingo visitou a unidade do
Confiando no Brasil, Plácido Domingo visitou unidade do “Dona Lucinha” gerida por Márcia (foto: acervo pessoal)

Nascida em uma família de quituteiras, em 1932, em Serro (MG), Dona Maria Lúcia Clementino Nunes resolveu se dedicar à vocação depois de trabalhar como professora durante três décadas. E criou a sua própria “família Scolari”. Seis dos 11 filhos continuam ligados aos restaurantes “Dona Lucinha”, que já possuía três filiais (duas em São Paulo) e um armazém à época da Copa do Mundo de 2014.

Um dia antes de o Brasil ser engolido pela Alemanha em Belo Horizonte, a unidade matriz do “Dona Lucinha” ficou lotada – o movimento mais do que dobrou durante o Mundial. A mulher que dá nome ao estabelecimento não estava presente, cuidando de sua saúde, porém a filha e sócia-proprietária Márcia Nunes corria de um lado a outro para dar a atenção a todos os clientes. “Foi um desafio pelo tamanho da demanda, completamente fora do comum. Nos dias de jogo, então… Recebemos vários colombianos, muita gente de fora. Havia até uma dificuldade por causa do inglês”, ela recordou.

O sujeito de quase 1,90m que se aproximou do balcão do restaurante naquele dia, contudo, não era colombiano nem se apresentou em inglês. Com óculos grandes, em destaque entre os cabelos e a barba brancos, e vestindo um terno cinza sem gravata, aquele espanhol criado no México queria elogiar a comida que degustou. Márcia estava tão ocupada que não teve tempo de fitar melhor o seu cliente ao agradecer. Muito menos de perceber se ele havia experimentado o feijão tropeiro, o frango com quiabo e angu e a vaca atolada – ou pedido um pão de queijo de entrada e um doce de leite de sobremesa.

Torcedor fanático do Real Madrid, o tenor se apresenta em Copas do Mundo desde 1982
Torcedor fanático do Real Madrid, o tenor se apresenta em Copas do Mundo desde 1982 (foto: divulgação)

O que a senhora acha de abrir uma filial do seu restaurante em Nova Iorque?”, perguntou o homem, conseguindo atrair a atenção de Márcia, que respondeu com um sorriso. Ele pediu para o filho mais velho, Pepe, entregar um cartão de visitas para a filha de Dona Lúcia. Foi então que ela se deu conta de quem era o seu interlocutor, ao ler: José Plácido Domingo Embil. “Era ele! E eu estava toda descabelada!”, sorriu.

Apaixonado por futebol, o tenor Plácido Domingo foi a Belo Horizonte também para, assim como a Dona Lúcia de Parreira, incentivar o time de Felipão contra a Alemanha. O músico septuagenário já havia acompanhado de perto a conquista da Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 1970, no México. Em 1982, quando a sua Espanha sediou o torneio vencido pela Itália, ele deu voz à canção-tema “El Mundial”. Mais tarde, em 1990, apresentou-se com Luciano Pavarotti e José Carreras nas Termas de Caracala, naquele que foi o primeiro espetáculo dos Três Tenores. O trio voltaria a entrar em ação nas competições de 1994, 1998 e 2002. Em 2006, na Alemanha, o espanhol cantou com Anna Netrebko e Rolando Villazón.

No Brasil, após folgar na Copa do Mundo de 2010 (a primeira vencida pela sua Espanha), Plácido Domingo só se decepcionou esportivamente. O time espanhol caiu de maneira surpreendente já na primeira fase – com direito a uma goleada por 5 a 1 aplicada pela Holanda. Os holandeses também foram os algozes do México, país adotivo do tenor, nas oitavas de final. “Estou triste. Mas o que posso fazer?”, comentou ele, naquele tempo.

Havia uma Dona Lucinha que já era famosa em Belo Horizonte: a cozinheira, mãe de Márcia
Já havia uma Dona Lúcia famosa em Belo Horizonte: a cozinheira e mãe de Márcia (foto: acervo pessoal)

Havia o que fazer – abraçar a Seleção Brasileira para deixar um pouco de lado a música clássica e aproximar-se do roqueiro Mick Jagger, ao menos em relação à fama de pé-frio em Mundiais. “Vou torcer pelo Brasil. Gostaria de ver uma final entre Brasil e Alemanha”, avisou, no início de julho, prognosticando o confronto que ocorreu na semifinal e suscitou a correspondência da Dona Lúcia de Parreira.

Apesar da tragédia no Mineirão, a alegria foi inabalada no salão do “Dona Lucinha”. Plácido Domingo deu uma nota digna de um 7 a 1 ao restaurante após se levantar de uma mesa com aproximadamente oito pessoas na véspera do jogo. “Que casa maravilhosa!”, exclamou, na lembrança de Márcia. “O que eu mais gostaria de destacar é o comportamento dele. Foi muito simpático, atencioso com todos que queriam fotografias. Quando percebi que aquele era o Plácido Domingo, fiquei… Não sei a palavra… Talvez seja perplexa!”, relatou.

Márcia foi premiada por seu ídolo com um convite para assisti-lo no Rio de Janeiro, no “Concert in Rio 2014”, realizado um dia antes da derrota por 3 a 0 da Seleção Brasileira para a Holanda, na disputa pelo terceiro lugar, e na antevéspera de a Alemanha fazer 1 a 0 sobre a Argentina na prorrogação e sagrar-se tetracampeã mundial no Maracanã. O show contou com participações da soprano porto-riquenha Ana María Martínez, do pianista chinês Lang Lang e da Orquestra Sinfônica Brasileira.

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Após servir Plácido Domingo, Márcia foi convidada ao show do tenor no Rio de Janeiro (foto: acervo pessoal)

No final da apresentação, Márcia foi ao camarim para ganhar mais um abraço de Plácido Domingo, que ainda falava com água na boca do que comeu no “Dona Lucinha” de Belo Horizonte. Àquela altura, Carlos Alberto Parreira já tinha indigestão com a receita da sua própria Dona Lúcia. O parceiro de Felipão confessou arrependimento por ter tornado a torcedora pública “em um impulso”, apesar de insistir que “a carta era verdadeira”.

AS CARTAS DE DONA LÚCIA

Quando Carlos Alberto Parreira interrompeu Luiz Felipe Scolari em suas explicações para o fracasso da Seleção Brasileira, o seguinte trecho da mensagem de “Dona Lúcia” foi pronunciado:

“Professor Felipão, acabo de ler a coletiva dada pelo senhor. Mais uma vez vi diante da câmera um homem íntegro e corajoso. Fiquei muito triste ao constatar que o ser humano muitas vezes é de uma crueldade sem limites. Tive esse sentimento ao ouvir os jornalistas lhe perguntarem sobre a dívida do senhor com a nação brasileira. E o senhor, mesmo sofrendo mais do que qualquer um ali, com toda a humildade que lhe é peculiar, deu uma resposta muito coerente. Parabéns. O senhor é um grande homem e um ser humano ímpar. É claro, professor, que eu, como os demais brasileiros, gostaríamos de estar comemorando outro resultado, porém sei que ninguém perde por vontade própria. Meu e-mail é só para agradecer pela grande felicidade que o senhor e o seu grupo proporcionaram para a nossa nação. Bom trabalho nos próximos anos. Tenho certeza de que o senhor comandará com extrema competência. Dizem que as mulheres não entendem de futebol, porém entendem de seres humanos. Portanto, envio um abraço com todo carinho para o senhor e toda a sua equipe. Fique com Deus. Lembre-se de que o sonho pode durar uma noite, mas a alegria vem ao amanhecer. Quero dizer, com essa citação, que tudo vai passar e ficará bem. Saiba que, como eu, há várias pessoas que estão acompanhando essa Seleção que tem o privilégio de ser comandada pelo senhor. Receba um abraço de uma brasileira anônima, que não conhece muito de futebol, mas que admira muito o trabalho do senhor”.

Triunfante como um tenor que acha ter cativado a sua plateia, Parreira encerrou a leitura com um agradecimento: “Obrigado, Lúcia, em nome de todas as cartas que recebemos”.

A pedido da Gazeta Esportiva, uma “Dona Lúcia” também se posicionou por ocasião do primeiro aniversário da goleada por 7 a 1 da Alemanha. Rafael Scarfone, gerente bancário que tinha 33 anos em 2015, criou um perfil falso da fã da Seleção Brasileira no Twitter a partir daquela derrota e não hesitou na hora de desincorporar o personagem para elaborar a sua própria mensagem para Dunga, o primeiro sucessor de Felipão:

A única coisa que eu escreveria para o Dunga seria a sua carta de demissão, pois ele não é merecedor dessa posição, assim como toda a cúpula da CBF. Mas agradeço a ele pela eliminação da Copa América, pois não tivemos que jogar contra a Argentina. Provavelmente, tomaríamos outra goleada.”

Dunga acabou demitido em 2016. Tite, o sucessor, terá a Alemanha pela frente nesta terça-feira, em Berlim, em jogo preparatório para uma nova Copa do Mundo. Será o primeiro encontro entre as seleções desde o 7 a 1.

Publicado em 27 de março de 2018 01:00:36
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