A Copa é feminina

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A Copa é feminina

Com embrião em 1970, o Mundial tem história de suor, superação e recordes quebrados, inclusive em relação à modalidade masculina

Marina Bufon* 14 de maio de 2019 08:00:23
 

O futebol feminino foi proibido no Brasil entre 1941 e 1979 e o mundo parece ter caminhado junto desse atraso. Isso porque a primeira Copa do Mundo feminina aconteceu apenas em 1991, na China, sendo que a primeira edição masculina do torneio havia sido 61 anos antes.

O começo

Apesar desse hiato, porém, o Mundial feminino já havia sido desenhado de outra forma em 1970, na Itália, mas como não tinha o aval da Fifa para acontecer, o torneio recebeu o nome de seu patrocinador, Martini Rosso Cup. Somente em 1988, ou seja, 18 anos depois desse primeiro passo, a entidade encabeçou um movimento para a criação de uma competição oficial, que foi acontecer, como já dito, em 1991.

Nesta primeira edição, participaram 12 seleções: Brasil, Estados Unidos, Dinamarca, Alemanha, Noruega, Itália, Suécia, Nigéria, China, Taiwan, Japão e Nova Zelândia. Foram 26 partidas no total, sendo que as norte-americanas conquistaram o caneco, com a artilheira sendo Michelle Arkers, com incríveis dez gols. As brasileiras terminaram em nono na classificação geral.

A segunda edição, em 1995, na Suécia, também contou com 12 seleções (presença de todos os países anteriores, exceto por Itália, Taiwan e Nova Zelândia, substituídos por Canadá, Inglaterra e Austrália), com vitória das norueguesas e Arrones, com seis gols, a artilheira – o Brasil terminou novamente em nono. Assim como na edição anterior, 99 gols foram marcados no total.

Um grande passo

Comemoração da zagueira Brandi Chastain, dos EUA, após a decisão dos pênaltis, chocou o mundo (Foto: Divulgação/Fifa)

A Copa feminina de 1999 foi em solo norte-americano, país onde a modalidade era e é bastante difundida. Além do comparecimento em peso da torcida, que incentivava o bicampeonato, houve também mudanças estruturais: de 12 participantes anteriormente, as seleções passaram para 16, com aumento das partidas para 32. Mia Hamm era um dos grandes nomes da seleção americana.

Participaram, então, Estados Unidos, China, Brasil, Noruega, Rússia, Suécia, Nigéria, Alemanha, Itália, Coreia do Norte, Austrália, Canadá, Gana, Japão, Dinamarca e México, sendo que as norte-americanas acabaram levantando o caneco pela segunda vez em sua história após vencer a China, enquanto o Brasil teve seu melhor lugar, até então, no terceiro posto, com Sissi como artilheira, com sete gols (ao lado da chinesa Sun Wen).

Nesta edição, alguns dados impressionam, como as 79 mil pessoas presentes na estreia do torneio entre EUA e Dinamarca, número superior ao da Copa Masculina, realizada no país quatro anos antes, no Giants Stadium. Além disso, a seleção anfitriã colocou mais de 90 mil torcedores no Standford Stadium, na Califórnia, para o jogo contra o Brasil na semifinal – era o maior público da história de qualquer evento feminino em esportes.

Para finalizar, a grande decisão entre americanas e chinesas levou o mesmo público ao Rose Bowl e o jogo terminou empatado em 0 a 0. Nos pênaltis, vitória das anfitriãs, que marcaram a competição com a comemoração da zagueira Brandi Chastain: ela tirou a camisa e deixou seu top à mostra, um ato de ousadia para a época.

Grandes detalhes que fizeram a diferença

Seleção feminina protestou por mais apoio ao ficar em segundo lugar no Mundial, em 2007 (Foto: Reprodução)

Na edição seguinte, em 2003, os EUA foram novamente o país anfitrião. A China receberia o torneio, porém, por conta de uma epidemia, a sede foi trocada. Assim como em 99, 16 seleções participaram, com destaque para a entrada de França, Coreia do Sul e Argentina (não participaram Itália, Dinamarca e México). Pela Seleção, Marta, Cristiane e Rosana disputaram um Mundial pela primeira vez, mas, ainda assim, o Brasil foi eliminado nas quartas de final pela Suécia e a grande campeã foi a Alemanha, com Birgit Prinz artilheira (sete gols) e melhor jogadora.

Em 2007, a história se repetiu e a Alemanha foi campeã novamente, porém o solo desta vez era chinês e o Brasil conquistou sua melhor colocação da história: o vice, com Marta sendo a artilheira, com sete gols marcados (ela ainda ganhou os prêmios Bola de Ouro e Chuteira de Ouro). Participaram 16 seleções (Alemanha, Japão, Inglaterra, Argentina, EUA, Nigéria, Coreia do Norte, Suécia, Noruega, Gana, Austrália, Canadá, China, Nova Zelândia, Brasil e Dinamarca) e o evento contou com outros pontos bastante importantes na história da modalidade.

Esta foi a primeira edição com prêmios em dinheiro para as seleções. Além disso, a Uefa decidiu que a Copa do Mundo serviria como classificação de três de suas equipes para os Jogos Olímpicos de Verão, a serem disputados em Pequim em 2008, dando maior peso e visibilidade para a competição. Já as brasileiras, ao receberem tristemente a medalha de prata, protestaram por mais apoio ao futebol feminino com faixa pedindo ajuda no pódio. Foram das alemãs, também, a maior goleada da história das Copas femininas: 11 a 0 em cima da Argentina.

Bicampeã, a Alemanha recebeu a Copa de 2011 pretendendo levantar o caneco e ser a maior conquistadora da competição. Porém, a história se desenhou de forma diferente, visto que o Japão foi o grande vencedor, com Homare Sawa a artilheira (cinco gols) e melhor jogadora do torneio. A Seleção ficou apenas em nono lugar, apesar do melhor ataque e da melhor defesa (nenhum gol tomado) na primeira fase – vale lembrar que essa edição foi a de menor número gols da história, apenas 86, com média de 2,69 por partida.

Naquele ano, a Fifa estudou aumentar o número de seleções para 24, porém, o número se manteve, com 16, com mudanças nas equipes (participaram Alemanha, França, Noruega, Inglaterra, Suécia, Austrália, Coreia do Norte, Japão, Nova Zelândia, Canadá, México, Estados Unidos, Nigéria, Guiné, Brasil e Colômbia).

Os recordes que mostram o óbvio

Finalmente, em 2015, a Copa feminina aumentou para 24 seleções, com a estreia de oito equipes. Com sede no Canadá, os países participantes se dividiram em seis grupos de quatro e as partidas passaram de 32 para 52, no total.
Nesta edição, participaram a o anfitrião Canadá, Alemanha, Estados Unidos, Brasil, Suécia, Noruega, Inglaterra, França, Austrália, China, Coreia do Sul, Japão, Nova Zelândia, México, Nigéria e Colômbia. Já as estreantes foram as seleções de Espanha, Suíça, Países Baixos, Tailândia, Costa Rica, Camarões, Costa do Marfim e Equador.

Além disso, esta edição também contou, pela primeira vez, com a tecnologia da linha do gol, presente na Copa do Mundo de 2014, que aconteceu no Brasil, sem esquecer que, também pela primeira vez, todos os jogos foram em grama sintática, causando bastante polêmica.

O grande vencedor foram os Estados Unidos, que reeditaram a final anterior contra o Japão e levantaram o caneco, o terceiro em sua história – segundo dados divulgados pela organização do evento, nos EUA, este foi o jogo de futebol mais assistido da história do país, considerando também a modalidade masculina. Carli Lloyd, ao lado da alemã Celia Sasic, foram as artilheiras com seis gols cada. Ainda foi nesta edição uma das maiores goleadas da competição, o 10 a 0 da Alemanha em cima da Costa do Marfim.

Outro recorde foi quebrado, recorde este que mostra como o mundo vem caminhando nos últimos tempos. Em 2015, 1,3 milhão de pessoas compareceram às partidas, com média de 26 mil torcedores por jogo – ainda, sete duelos tiveram público superior aos 50 mil e a estimativa é que 750 milhões de pessoas acompanharam o torneio pela televisão.

2019: visibilidade

Ettie é a como mascote da Copa feminina de 2019 (Foto: Reprodução/Fifa)

Pela primeira vez a França receberá a Copa do Mundo feminina, entre os dias 7 de junho e 7 de julho, em sua oitava edição. Neste ano, serão 24 países participantes, como acontece desde 2015, divididos em seis grupos. Além do país anfitrião e o Brasil, estão presentes Coreia do Sul, Nigéria, Noruega, África do Sul, Alemanha, China, Espanha, Austrália, Itália, Jamaica, Argentina, Escócia, Inglaterra, Japão, Camarões, Canadá, Holanda, Nova Zelândia, Chile, Estados Unidos, Suécia e Tailândia.

Ao todo serão realizados 52 jogos, sendo que os dois melhores de cada grupo avançam para a fase de mata-mata. As cidades que receberão os duelos serão Paris, Lyon, Montpellier, Nice, Valenciennes, Reims, Le Havre, Grenoble e Rennes. A primeira partida das brasileiras será no domingo, dia 9 de junho, diante das jamaicanas, e será a última chance de ver novamente juntas Formiga, Cristiane e Marta, visto que as duas primeiras já anunciaram que farão sua última Copa nesta edição.

Melhor momento não há, então, para trazer o primeiro caneco para casa. A Seleção feminina é heptacampeã da Copa América e tem duas medalhas de prata nas Olimpíadas (2004 e 2008), mas, no Mundial, seu maior posto foi o vice em 2007. O lado negativo é que, no último ano, após a conquista da América, a seleção soma nove derrotas consecutivas.

A grande novidade deste ano é que aquele apoio pedido no pódio, em 2007, pelas jogadoras brasileiras, parece ter feito eco. Por aqui, pela primeira vez na história, uma emissora de TV aberta transmitirá os jogos da Seleção feminina ao vivo, enquanto um canal de TV fechada fará a cobertura completa da competição, sem esquecer que, sim, há álbuns de figurinhas da Copa Feminina circulando por aí.

*Especial para a Gazeta Esportiva.

Publicado em 14 de maio de 2019 08:00:23
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