Seleção de sonhos

Leitura: 20 minutos

Seleção de sonhos

Em três décadas de história, a Seleção feminina segue em constante busca por mais apoio e visibilidade, mas já carrega uma trajetória de superação e evolução mesmo sem o mesmo prestígio e carinho que a masculina esbanja.

Cecília Eduardo* 7 de maio de 2019 07:00:09
 

País do Futebol. Um título nobre que corre pela veia de todos os brasileiros amantes do esporte. Pensando bem, entender isso é fácil. O maior campeonato futebolístico do mundo, a Copa, demorou apenas três edições para chegar ao Brasil, em 1950. A nossa Seleção? Depois disso, precisou só de mais cinco torneios para já acumular três títulos mundiais. Pelé à essa altura já era o rei do mundo e o nosso futebol era um celeiro de craques e mais craques de bola.

E mesmo com o jejum de 23 anos sem títulos, até o tetra em 94, como não falar do timaço de 82, que ficou pelo caminho naquela Copa da Espanha?

A história do futebol brasileiro corre solta e brilhante pelo século XX, mas no país do futebol, enquanto um lado da moeda era polido a todo momento, o outro, por muito tempo sequer existiu.

Sissi foi a primeira camisa 10 da Seleção (Foto: Fifa)

No mesmo país do futebol, enquanto a Seleção masculina já era tricampeã do mundo, o futebol feminino era proibido por lei, que só foi revogada no começo dos anos 80. Foi a partir daí que a modalidade finalmente foi tomando seu espaço. E mesmo a passos curtos, depois de quase quatro décadas e encabeçadas pela equipe feminina, as mulheres começam a ver uma mobilização maior para investir nelas.

Na Seleção, no entanto, os perrengues foram muitos, a dúvida de sucesso também apareceu, junto com a falta de estímulos. Mas sempre presentes, a vontade e a luta de cada jogadora, também acompanharam as evoluções fora de campo, que lado a lado, renderam os primeiros frutos, as primeiras estrelas e os sonhos que ainda precisam ser realizados.

Perto de mais uma Copa do Mundo, que começa em exatamente um mês, na França, vamos explorar o caminho da Seleção Brasileira até aqui. De tantos campeonatos, títulos, superações, apostas e decepções, e mesmo vivendo uma temporada instável, a história já se mostra consolidada e pronta para crescer ainda mais.

Saindo do papel

Seleção de 88 vestia uniforme do time masculino (Foto: Reprodução)

Depois da revogação da lei que proibia a prática de alguns esportes por mulheres no país, o futebol foi ganhando jogadoras e times femininos aos poucos. O Radar foi o primeiro deles a se destacar em 1982, e depois que a Seleção nasceu, em 1986, a primeira equipe a vestir as cores do Brasil em um torneio era formada só por atletas do time carioca, dois anos depois.

A primeira partida, em 86, foi um amistoso contra os Estados Unidos, saindo com uma derrota. Depois do primeiro passo, no entanto, logo as meninas foram conseguindo resultados positivos, como no primeiro torneio amistoso que disputou, dois anos depois, em que se sagrou campeã, conquistando a primeira taça da história. Foi também em 88 a participação da primeira Copa do Mundo, que funcionou de maneira experimental, na China.

Nesse começo, entretanto, tudo era escasso. Com as prioridades voltadas para a equipe masculina, a CBF dava condições bem abaixo das necessárias para uma Seleção principal de futebol se manter e evoluir de forma competitiva. Sem poder utilizar as instalações da Granja Comary, sem uniformes próprios, sem espaço na mídia, mas também sem desacreditar, as atletas foram se desafiando e cobrando mais atenção para a entidade e para investidores – que demorou para chegar, mas aos poucos pequenas vitórias eram conquistadas.

Explorando fronteiras

Nos Estados Unidos, Brasil foi terceiro colocado (Foto: Divulgação/Fifa)

O sucesso de público no teste para a Copa do Mundo, enfim, levou a Fifa e as confederações continentais a organizarem campeonatos oficiais. Assim, em 1991, as seleções de futebol feminino começaram a competir oficialmente.

Com a primeira Copa América sediada no Brasil, nossas jogadoras conquistaram a primeira taça oficial da história, em casa. Além disso, no mesmo ano, a China voltou a receber nossa Seleção na primeira edição real do torneio mundial. A campanha do Brasil terminou ainda na primeira fase, com uma vitória e duas derrotas, ficando em nono lugar geral.

À essa altura, nomes que seriam eternizados com a amarelinha já representavam o Brasil nas primeiras competições que o país disputou. Além de Roseli, a meia Sissi, primeira camisa 10 da Seleção, também chegou no time nas primeiras convocações, ainda no final dos anos 80. Já em 91, para as Copas, Meg, no gol, Tânia Maranhão, na zaga e Pretinha, no ataque, começaram a se destacar e fazer história na equipe.

Mesmo com esse primeiro passo dado, ainda se via o futebol feminino com muitas limitações no preparo da equipe, com menos recursos e atenção de patrocinadores, da própria CBF e sem campeonatos que estimulassem o crescimento da modalidade no país. Ainda assim, mais conquistas para a modalidade foram aparecendo mundialmente, como a inclusão do esporte nas Olimpíadas de Atlanta, em 1996.

A atacante Roseli em ação pelo Mundial em 99 (Foto: Reprodução/Fifa)

A década terminaria para o Brasil com mais dois títulos de Copa América. Pelo Mundial, em 99, o Brasil conseguiu sua melhor apresentação no torneio até então, ao chegar às semis, caindo para os Estados Unidos e vencer a disputa pelo bronze com a Noruega. A vitória diante das europeias foi o troco pela derrota sofrida anos antes, nos Jogos de Atlanta, quando as nórdicas levaram o bronze olímpico.

Anos 2000 e quase

Apesar da Seleção mostrar evolução, com melhores apresentações nos torneios mundiais e seguindo soberana na América Latina, os anos 2000 ainda começaram com  deficiência na estrutura oferecida para as jogadoras, mostrando que a seriedade e profissionalismo que existia para o futebol feminino não correspondia com o disposto para o masculino.

Foi no começo da década que um nome surgiu com a camisa da Seleção e despontaria como principal jogadora de futebol da história. Em 2002, Marta foi convocada pela primeira vez e dava os primeiros passos de uma história brilhante e que continua sendo trilhada até os dias atuais, com uma coleção de medalhas pelo Brasil e seis títulos de melhor jogadora do mundo na estante.

No começo de 2019, a Rainha do futebol se emocionou ao falar sobre como era a situação quando chegou à Seleção e como esses 17 anos foram de muito crescimento para o esporte no país. Em uma entrevista coletiva, Marta fez a declaração com lágrimas nos olhos.

Voltar aqui na Granja e ver como tudo mudou. Ver que realmente nossa modalidade está crescendo. Porque a Formiga, há 25 anos começou; a Pretinha, há quase 30 anos. Então, não é uma coisa que acontece de um dia para o outro. É um trabalho que a gente faz, sabendo que é difícil. Para nós que estamos voltadas para essa luta, isso é muito melhor que um título”

Pouco tempo depois de tomar a camisa 10 e a liderança técnica da Seleção para si, Marta viu a chegada de Renê Simões, técnico que fez parte de uma grande mudança no patamar da equipe, tanto na CBF, como mundialmente, em 2004.

Contratado antes dos Jogos de Atenas e com pouco tempo para preparar as meninas, Renê costuma contar que chegou em meio a um grande caos. Diante de um time que não tinha calendário para se preparar, sem estrutura para trabalhos mais específicos, logo, o técnico percebeu o quanto a Seleção principal feminina do Brasil era escanteada pela própria CBF. Foi então que fez exigências e mudanças no tratamento que a equipe recebia, correndo contra o tempo para ajustar problemas táticos, posicionais, de marcação e até mesmo de alimentação das atletas.

O trabalho que ele e as meninas fizeram naquele ano ficou marcado com uma campanha impecável nas Olimpíadas, que terminou com a medalha de prata, mas um gosto amargo na boca, graças ao jogo pegado contra os Estados Unidos, que venceram mesmo com uma certa inferioridade durante a partida, um pênalti não dado para o Brasil e um gol na prorrogação.

Mais do que a medalha, a evolução e um pequeno aumento de visibilidade ajudaram a Seleção. Ao mesmo tempo, dentro do próprio país, a modalidade pouco era estimulada e as atletas não tinham sequer um campeonato profissional organizado pela CBF. Ainda assim, as meninas fizeram um ciclo olímpico com momentos históricos, mas seguindo a sina de bater na trave na hora H.

Em 2007, o time liderado por Marta e Cristiane finalmente chegava em uma final de Copa do Mundo, depois de eliminar a temida seleção americana. Mas diante da Alemanha, a camisa 10 parou em Nadine Angerer, quando a arqueira alemã defendeu um pênalti num momento que o Brasil perdia por 1 a 0. As alemãs ainda marcaram mais um e garantiram o bicampeonato mundial.

Lance da final do Mundial contra a Alemanha (Foto: Reprodução)

Um ano depois, a Seleção chegava nas Olimpíadas querendo mudar o rumo da história amarga de 2004. E mais uma vez, o roteiro ia se repetindo, com uma boa campanha do time e a chegada na final reeditando o jogo contra os Estados Unidos. Com a chance de vingar a derrota injusta em Atenas, no entanto, o Brasil esbarrou de novo na sina de não conseguir ser campeão e, na prorrogação, viu as americanas marcarem o gol da vitória.

Era o fim do ciclo mais promissor da Seleção Brasileira, com duas pratas olímpicas e um vice mundial. Feitos que desde então, não se repetiram mais, com o time conseguindo êxito apenas na Copa América, torneio em que venceu sete das oito edições, sendo a última em 2018.

Vivendo de promessas

Após quatro anos intensos e ficando no ‘quase’, o time do Brasil entrou em um momento de busca por confirmação que perdura até os dias atuais. Sem conseguirem se mostrar tão competitivas nos torneios mundiais, as meninas pararam nas oitavas de final nas duas últimas Copas, enquanto nos Jogos Olímpicos, mais uma eliminação nas oitavas, em Londres, e um quarto lugar, no Rio 2016.

Recheada de atletas com bastante identificação com a amarelinha, com grande sequência de jogos e experiência, a base do time conta com atletas como Formiga (21 anos na Seleção), Marta (17 anos), Cristiane (16 anos), seguidas por nomes mais jovens, que também já se estabeleceram na equipe, como Debinha (8 anos) e Tamires (6 anos).

Após vice no Mundial de 2007, jogadoras fizeram apelo (Foto: Reprodução)

Ainda assim, o time tem dificuldades de encontrar consistência. O trabalho de base ao longo da última década seguiu muito abaixo do ideal e a criação de competições para desenvolver atletas mais jovens só aconteceu em 2019, o que dificulta muito a lapidação de novos talentos para a Seleção. Além disso,  a equipe principal convive com escolhas questionáveis para o comando e não consegue engatar sequências positivas, a não ser quando joga a Copa América.

Desde a saída de Renê, seis nomes passaram pelo cargo técnico do time, e os últimos anos renderam algumas polêmicas, graças à saída de Emily Lima após um curto espaço de tempo e a volta de Vadão, que segue no comando mesmo com um trabalho bem negativo em 2019. Comportamento que rende um questionamento sobre a CBF por parte da imprensa, quando comparado à forma de trabalho e resultados da Seleção masculina.

Razões para acreditar

Investimentos e apoio vêm crescendo nos últimos anos (Foto: Fernando Dantas/Gazeta Press)

Diante de tantas questões e incertezas quanto ao time do Brasil, ao menos os últimos anos vem se mostrando positivos fora da Seleção. Em 2013, finalmente foi criado o Campeonato Brasileiro feminino, e desde então a competição vem crescendo e lutando por um espaço na mídia do país.

Além disso, tanto a CBF, quanto a Conmebol passaram a exigir que os clubes tenham um time profissional feminino para participar do Brasileirão e da Libertadores da América. Pequenas medidas que, a princípio, parecem pedras no sapato das administrações desses grandes clubes de times masculinos, mas na verdade vão se mostrando grandes passos para o desenvolvimento da modalidade no continente.

Aos poucos, clubes tradicionais, como Corinthians e Santos vão puxando a fila para que o investimento nas meninas seja visto como um movimento positivo, com retorno do público e de patrocinadores.

O mercado esportivo, inclusive, vem se mostrando disposto a se dedicar para atrair olhares para o lado feminino do futebol. Empresas de material esportivo, sobretudo, começam a criar projetos para desenvolvimento de base e, finalmente, lançam uniformes feitos exclusivamente para as jogadoras.

Patrocinadora da Seleção Brasileira, a Nike deu o pontapé para a participação do time na Copa do Mundo com o primeiro uniforme feito para as meninas na história. Em um evento especial no Estádio do Pacaembu, em março, a empresa reuniu nomes importantes para a modalidade do país e lançou, não só os uniformes, mas também uma série de projetos para desenvolver o futebol feminino no Brasil.

Além da nova roupagem especial, a Seleção ganha o reforço de ter os jogos da Copa transmitidos em rede nacional pela primeira vez na história. São muitos tabus e marcas para serem quebradas por um time que está acostumado a nadar contra a maré. E faltando um mês para o Mundial, sem mais jogos de preparação e com um ano recheado de resultados negativos, as mulheres do Brasil terão mais uma oportunidade de mostrarem a vontade de se superar e de buscar o improvável, na França, a partir de 7 de junho.

*Especial para Gazeta Esportiva

Publicado em 7 de maio de 2019 07:00:09
×

Mais especiais
Veja mais artigos interessantes que fizemos