Prontos para venda

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Prontos para venda

A saída dos grandes craques rumo ao futebol europeu já é rotina há décadas, mas parece estar ficando cada vez mais antecipada, antes de os atletas se firmarem no profissional. Na primeira parte do especial sobre a saída repentina das promessas, a Gazeta Esportiva conversou com técnicos, dirigentes e atletas para entender o fenômeno.

Gabriel Ambrós* - São Paulo 7 de março de 2019 08:30:21
 

Rapidamente após o título da Copa São Paulo 2019, o São Paulo anunciou a venda do zagueiro Tuta ao Eintracht Frankfurt-ALE e o empréstimo com opção de compra do atacante, e artilheiro do torneio de juniores, Gabriel Novaes ao Barcelona B. Sem nunca terem atuado pelos profissionais do Tricolor, as jovens promessas seguiram um rumo cada vez mais comum entre atletas brasileiros – a ida repentina ao futebol europeu.

O processo não é reflexo de um só fator. Diversas variáveis intensificam o êxodo das revelações das categorias de base; seja o mundo cada vez mais globalizado, a estrutura e diferença de investimento dos clubes do outro lado do Atlântico, e até a necessidade de muitas agremiações brasileiras de fazer dinheiro com esses jovens.

Na era da internet e dos sofisticados programas de monitoramento de desempenho dos atletas, é fácil para um gigante europeu descobrir um talento brasileiro e acompanhar cada passo dado pelo jogador. O aumento no número de scouts e profissionais dos grandes clubes trabalhando no Brasil estreitou definitivamente a relação das partes, tornando a aproximação cada vez mais comum.

Nova realidade

A resposta dos clubes brasileiros ao avanço europeu não é uniforme e depende da tradição das categorias de base, das necessidades do elenco profissional e, sobretudo, da saúde financeira. Protagonista nos últimos anos da venda de inúmeros jovens promissores, o recém-campeão da Copinha faturou cerca de R$ 79,5 milhões nas últimas três temporadas com a negociação de atletas formados pelo clube antes de completaram dez jogos pelo profissional.

As vendas, porém, não se restringem ao Tricolor. Segundo dados do site especializado em transferências Transfermarkt, os 12 grandes do País faturaram 95,7 milhões de euros (cerca de R$ 404 milhões) com a negociação de 15 atletas nas mesmas condições no período.

Os números da venda de Vinícius Jr., que disputou 69 partidas no Flamengo mas teve sua venda anunciada após dois jogos, foram incluídos na conta (Arte: Gazeta Esportiva)

Em entrevista à Gazeta Esportiva, o coordenador do Centro de Formação de Atletas do São Paulo, Pedro Smania, ressaltou o dinamismo presente no esporte atualmente, mas avaliou que o trabalho realizado pelo clube sempre visa à transição dos jovens ao profissional.

“O futebol está muito dinâmico. O mercado tem sofrido uma série de mudanças, essas idas (à Europa) não se restringem ao São Paulo. Isso tem atingido o mundo todo, muitos atletas argentinos estão sendo negociados, do resto do Brasil também”, contou.

“Todo atleta de Cotia culturalmente aprende a amar o São Paulo e tem o sonho de jogar no profissional. Independentemente do que falam para eles, os atletas têm esse sonho, nós alimentamos isso aqui dentro”, disse Smania.

Smania ressaltou que trabalho feito na base visa preparar os jovens para o profissional do São Paulo (Foto: Rubens Chiri/São Paulo)

O coordenador não conseguiu avaliar se existe vantagem para o atleta sair do Brasil tão cedo. “Difícil responder porque essas vendas são casos individuais. Também depende de como está a relação do atleta com o clube, quanto tempo resta de contrato, como está o grupo profissional. Não dá para generalizar”, explicou.

Já o treinador vencedor do ouro olímpico na Rio-2016 e com passagens pela Seleção Brasileira sub-20, Atlético-MG e Paraná, Rogério Micale abordou uma diferença que observa no desenvolvimento dos atletas. “Na Europa, o jogador se insere na cultura local e lá tem que se adaptar, desempenhar as funções pré-determinadas pela comissão técnica, senão não terá a menor chance”, explicou.

“Aqui no Brasil, não, por causa da pressão de torcida, da imprensa… Se o cara demonstrar em algum momento alguma coisinha, ele já é tratado como um ser diferente”, disse. “Se você tocar nesse atleta para formá-lo de fato e ensiná-lo a marcar mais, a ter uma dinâmica maior, você acaba tendo problema com clube, com empresário e com o próprio atleta”, seguiu Micale.

“Poderíamos ter isso na nossa cultura, se tivéssemos uma maior educação, se as pessoas entendessem o processo. Mas não temos isso no Brasil, as pessoas querem tudo muito rápido”, argumentou Micale.

Campeão olímpico pela Seleção, Rogério Micale está livre no mercado após ser demitido do Paraná (Foto: Bruno Cantini / Atlético)

Outro profissional que se especializou em trabalhar com jovens, Osmar Loss ponderou: “cada clube tem uma tradição, até uma forma. A gente já viu jogadores que saíram, como o Vinícius Júnior, que já estão jogando na equipe de cima, mas também vemos casos como o Caio Rangel, que foi para um time da Itália e acabou se perdendo”, explicou o comandante, fazendo referência ao atacante que deixou o Flamengo cedo para atuar no futebol europeu, mas acabou retornando ao Brasil depois de passagens sem grande destaque no exterior.

Loss, que acumula passagens pelas categorias de base do Internacional e pelo sub-20 e profissional do Corinthians, atualmente é técnico do Guarani e mostra estar atento ao que se passa com as jovens promessas do País.

“A diferença da Europa para o Brasil é a possibilidade mais discreta do atleta trabalhar e ter tempo para ver as coisas melhorarem. Aqui o jogador da base tem que entrar e já dar conta do recado”, comentou Loss.

Loss destacou a falta de paciência com o jovem atleta no Brasil (Foto: Fernando Dantas/Gazeta Press)

“O caso mais próximo que eu tive de revelação que saiu muito cedo foi o Matheus Cassini”, relembra Loss. Destaque da Copinha de 2015, o meia corintiano teve passagem relâmpago pelo profissional e logo foi vendido ao Torino-ITA. “Eu tive um pouquinho mais de cuidado em falar para ele pensar bem, para ele perceber que estava indo para um ambiente novo, porém foi uma conversa mais no tom de fazê-lo pensar do que ajudá-lo a tomar a decisão, dizendo que era melhor ficar ou sair”, revelou.

Visão dos atletas

Companheiro e xará de Cassini na base do Timão, Matheus Pereira teve a mesma trajetória no Alvinegro, um ano depois. Após se destacar na Copa SP, o meia aceitou a proposta do futebol italiano, com apenas uma partida realizada com a camisa do Corinthians.

“No meu caso, quando apareceu a Juventus, não pensei duas vezes, sempre sonhei em jogar lá, sou muito fã do clube, então não teve escolha”, contou Matheus.

Apelidado de ‘Pirulão’ na base do Corinthians, Matheus não pensou duas vezes antes sair do país(Foto: Divulgação/Juventus)

Com a visão de quem saiu cedo do país, o jovem de 20 anos não se arrepende da decisão de deixar o Brasil. “Acredito que todo jogador que está começando sonha em vir jogar na Europa, claro que varia de situação a situação, muitos preferem ficar mais tempo no Brasil, mas no meu caso foi irrecusável”, comentou Matheus.

O meia foi categórico ao afirmar que a saída prematura ajudou na sua transição e desenvolvimento como atleta. “Acredito que a chegada na Itália tenha acelerado o meu desenvolvimento. Aqui o futebol é muito mais veloz, com mais preparação tática e isso exige mais do jogador”, justificou.

Destacado por Loss por sua curta passagem pelo futebol europeu, o atacante Caio Rangel, formado no Flamengo, é outro atleta que não se arrepende da saída repentina do Brasil, apesar da falta de sucesso no primeiro momento. “Tenho certeza que não me arrependo de nada, que hoje eu estou muito feliz, jogando no Paraná. A vida é assim, a gente tem que virar a página e buscar um novo começo. Ganhei muita experiência na Itália, onde eu joguei no Cagliari, fui muito feliz e também em Portugal, jogando pelo Arouca”, contou.

Craque da base do Rubro-Negro e com várias passagens pelas Seleções de base, o atacante saiu do clube carioca depois de desentendimento nas tentativas de renovação de contrato. “Muitos pensam que eu saí do Flamengo porque não queria mais ficar lá, mas ninguém sabe o real motivo de eu ter saído. Custou um pouco o impasse na renovação, onde ambos não chegaram no acordo, nem eu nem o Flamengo. Naquela época eu estava pegando Seleção direto, tinha já 22 convocações e não estava sentindo que estava sendo valorizado”, revelou o atleta.

A gente sai do Brasil achando que só a nossa técnica, o nosso futebol, é o suficiente para chegar lá, e é tudo o contrário”, afirmou Caio Rangel.

Caio Rangel foi anunciado como reforço do Paraná no fim de janeiro (Foto: Divulgação/Paraná Clube)

De volta ao futebol brasileiro, Caio contou sobre os obstáculos de adaptação à Europa. “Na Itália, tive um pouco de dificuldade, com a linguagem, para pegar a parte tática que lá é muito cobrada lá”, recordou o jogador. “Mesmo sendo atacante, eu precisava sim saber desses aspectos e essa foi a minha maior dificuldade lá”, contou.

Após passagens por Cruzeiro, Juventude e Criciúma, o atacante se prepara para a disputa da Série B do Campeonato Brasileiro, pelo Paraná Clube.

Em busca de afirmação

Nesta lógica da venda repentina, nem todos os atletas promissores nas categorias de base conseguem se destacar logo de cara; muitos acabam rodando pelo futebol europeu, ou retornando ao Brasil.

Na segunda parte da série especial, a Gazeta Esportiva irá retratar o outro lado da moeda. O crescimento no monitoramento e observação dos jovens brasileiros por parte dos clubes europeus.

*Especial para a Gazeta Esportiva

Publicado em 7 de março de 2019 08:30:21
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