O adeus do ídolo

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O adeus do ídolo

Niki Lauda sobreviveu a um dos piores acidentes da história da F1, levou as marcas consigo pela carreira e, tricampeão, foi dos maiores nomes do automobilismo. Morreu aos 70 anos nesta segunda-feira

Gazeta Esportiva - São Paulo (SP) 20 de maio de 2019 23:18:58
 

Andreas Nikolaus Lauda nasceu na Áustria, em fevereiro de 1949, e foi por meio de um apelido envolvendo o seu segundo nome que ficou conhecido na Fórmula 1. Niki Lauda, que morreu nesta segunda-feira, foi um tricampeão “estranho” ao ambiente da categoria mais famosa do automobilismo mundial, arrojado ao ser vice-campeão no mesmo ano em que quase morreu, um dirigente competente e uma figura inesquecível para o esporte.

Dono de duras batalhas pela vida, como o acidente sofrido em 1976 e um transplante de pulmão realizado em agosto do ano passado, Lauda permaneceu hospitalizado por dez dias no começo deste ano devido a uma forte gripe. Depois do sofrimento, as primeiras informações apontam que ele teve falência renal. Veja um pouco do que ele enfrentou neste período.

O começo

Já em 1971, Lauda deixava a Áustria para correr na Fórmula 3 com um McNamara e alguns pequenos patrocínios. Um empréstimo em um banco austríaco para bancar o aluguel dos carros garantiu ao novato piloto uma temporada na Fórmula 2. Ainda que com uma performance tímida, seu desempenho neste ano chamaria a atenção de caçadores de talentos da F1. E, em 1972, a disputa da badalada categoria se tornaria realidade. Piloto da equipe March, Niki não conseguiu resultados expressivos naquele ano e, o pior, teve até de pagar para correr. No campeonato seguinte, pôde respirar aliviado: agora na escuderia Marlboro-BRM, receberia um salário pela primeira vez em sua carreira.

O contrato com a Ferrari seria o início de um futuro promissor. Na temporada de 1974 vieram duas vitórias, no GP da Espanha e da Holanda, e um motivador quarto lugar no Mundial. O primeiro título estava por vir…

O primeiro Mundial

Lauda em 1975, no GP de Silverstone, ano de seu primeiro título mundial (Foto: PRESS ASSOCIATION / AFP)

Foram cinco vitórias: Mônaco, Bélgica, Suécia, França e Estados Unidos. Nove pole positions e o troféu de campeão mundial. O austríaco Niki Lauda esteve impecável. Era um dos pilotos mais bem pagos da F1 e ídolo de uma legião de torcedores italianos. Mas nada disso fez com que ele se entregasse aos acessos de estrelismo, comum entre os heróis das pistas. Sua personalidade estranha ao ambiente passou a ser repentinamente consumida pelo grande público do melhor automobilismo de competição na Europa.

Descobriu-se, por exemplo, que o piloto necessitava de 12 horas de sono por dia e muitos copos de leite para manter a forma. As cenouras cruas degustadas durante os treinos, associadas aos seus dentes grandes, valeram-lhe por algum tempo o apelido de “Coelho”.

Considerado um piloto calmo e calculista, que sabia como ninguém ajustar os carros para cada pista, Niki também teve de superar um outro resistente rival, o argentino Carlos Reutemann, para chegar ao título. O brasileiro Émerson Fittipaldi, da McLaren, inaugurou o primeiro pódio da temporada, vencendo o GP da Argentina, em Buenos Aires.

Ao contrário do ano anterior, quando conquistou o título de campeão mundial, Fittipaldi teve de se contentar com o vice-campeonato. Depois vieram as vitórias de Carlos Pace, da Brabham, Jody Scheckter, da Tyrrel, e Jochen Mass, da McLaren. Apenas na quinta corrida, Niki chegaria a sua primeira vitória da temporada, no GP de Mônaco. Daí seguiram outras duas na Bélgica e Suécia. O inglês James Hunt apareceria para acabar com o entusiasmo do austríaco, interrompendo uma série de conquistas ao vencer o GP da Holanda.

Mas Lauda permaneceu imbatível, alcançando outros dois primeiros lugares. Na última corrida do ano, nos Estados Unidos, Niki brindaria o pódio com um gosto todo especial. Além de comemorar a vitória da etapa, levaria para casa o seu primeiro título do Campeonato Mundial.

O acidente

O acidente de Lauda no GP da Alemanha de 1976 foi um dos mais terríveis da história da F1 (Foto: AFP)

Uma Ferrari derrapa, sai da pista, bate no guard-rail e começa a pegar fogo. O piloto, preso pelo cinto de seis pontos, esquece-se dos princípios fundamentais de segurança e retira o capacete em meio a fumaça. As chamas, que saem do carro, avançam rapidamente sobre o rosto da vítima.

Isso não foi filme (viraria depois), nem tampouco, um jogo de computador. A história é verdadeira e ocorreu no domingo, dia 1º de agosto de 1976, no circuito de Nurburgring, Alemanha. A vítima era ninguém menos do que o austríaco Niki Lauda, que fora retirado do carro por alguns pilotos e encaminhado, já inconsciente, ao Hospital Militar de Manhein, próximo a Frankfurt.

Com pulmões e brônquios comprometidos pelo gás carbônico inalado, os médicos explicavam que a perda de um dos órgãos respiratórios significaria a perda de metade da resistência do piloto, ou seja, Niki poderia ter ali um final trágico para sua carreira.

As queimaduras deixariam marcas profundas no rosto do jovem piloto (Foto: AFP)

Ironicamente, semanas antes do acidente, o ídolo das pistas havia participado de um debate junto aos organizadores da etapa alemã sobre as questões de segurança em Nurburgring. Entretanto, mesmo contra a corrida no autódromo por considerá-lo o mais perigoso da F1, ele acabou consentindo em correr ali.

Segundo palavras da equipe médica do centro de terapia intensiva, as chances de sobrevivência do campeão mundial pareciam mínimas, levando-se em consideração o estado inicial do paciente. Mas a resistência ou, até mesmo a sorte, de Niki surpreendeu a todos. E, no dia seguinte, já consciente, conseguiria falar algumas palavras sobre o que se lembrava do incidente.

Diante de laudos médicos pouco objetivos, pilotos, organizadores e até mesmo a Ferrari já começavam a se acostumar com a idéia de não ter Niki nas pistas por aquele ano. A escuderia italiana também deixava de sonhar com o título de construtores da temporada, já que a McLaren e a Tyrrel agora tinham chances de chegar à liderança. Aliás, o que mais intrigava a equipe era não ter à disposição o carro para entender o que realmente havia acontecido.

As queimaduras deixariam marcas profundas no rosto do jovem piloto. A pele em volta dos olhos se tornou seca e enrugada. Apareceram muitas falhas no couro cabeludo e pouco restou da orelha direita. No começo, evitou as câmeras e os olhares espantados. Hoje nem se importa mais em mostrar as cicatrizes e o rosto deformado.

Mas ele resistiu e, superando todas as previsões, um mês e meio depois da catástrofe reapareceu ao volante da Ferrari no Grande Prêmio da Itália. Líder do campeonato, tinha tudo para conquistar o bi. Apenas um obstáculo se colocou em seu caminho: o inglês James Hunt, da McLaren, que com 65 pontos começava a ameaçar a liderança do austríaco.

Mas Niki já havia feito o impossível naquela temporada, ao vencer um duelo cara a cara com a morte. O instinto desafiador agora precisaria de longas férias. Na última corrida de 76, Lauda não chegaria até o final. Assustado com a forte chuva que caía durante a prova, abandonou na segunda volta o GP do Japão. Foi a glória para Hunt, que ficou com o terceiro lugar e sagrou-se campeão com um ponto à frente de Lauda.

O bicampeonato

Lauda se transferiu para a Brabham em 1978 (Foto: AFP)

“Os italianos só reconhecem a vitória dos seus carros, menosprezando os pilotos. Me deram como acabado, mas voltei para mostrar que eu sou melhor que a máquina deles”. Este foi o desabafo de Niki Lauda depois de ter conquistado o seu segundo título mundial, em 1977, durante o anúncio de seu desligamento definitivo da Ferrari.

 

Foto: AFP

Ao contrário da temporada anterior, aquela seria tranquila e com poucas surpresas e dificuldades. Niki venceu apenas três GPs: África do Sul, Alemanha e Holanda. Mas foi seis vezes segundo colocado e chegou em terceiro no GP do Brasil. O piloto Jody Scheckter, da Wolf Ford, seria o vice-campeão. Em 1978 e 1979, Lauda correu pela Brabham, atraído pelos dólares da Parmalat e de Bernie Ecolestone.

Em 78, competindo com um motor Alfa Romeo, foi quarto colocado no campeonato, ganhando apenas duas corridas: Suécia e Itália. Na temporada seguinte, não conseguiu nenhuma vitória nem pole positions. Diziam que estava acabado e que agora a F1 pertencia a outro jovem: Nelson Piquet, contratado para substituí-lo.

Desiludido com o automobilismo, Niki decidiu abandonar a carreira e se dedicar a sua empresa aérea Lauda Air, que prosperava. Da F1 queria distância. Mas o afastamento durou pouco. Em 1982, recebeu um convite milionário da McLaren para voltar às pistas.

Segundo informações de outros pilotos, Lauda teria ganho 5 milhões de dólares por dois anos de contrato. Aceitou. Mesmo porque agora sua empresa não andava bem das asas. Mas voltou em grande forma, vencendo os GPs de Long Beach e da Inglaterra e terminando o campeonato com um honroso quinto lugar.

Com um jovem Alain Prost no retorno à McLaren (Foto: AFP)

O tri em 84

Foi difícil para Lauda ultrapassar todos os medos que lhe surpreendiam frequentemente após o acidente no circuito de Nurburgring, Alemanha. O motivo de seu afastamento, em 1979, durante a primeira sessão de treinos para o Grande Prêmio do Canadá, o piloto só esclareceria depois de quase dois anos, em seu retorno às competições. “Já não me divertia, por isso não fazia sentido continuar.”

Correr deveria ser um divertimento prazeroso e agradável. E foi pensando assim que Niki enfrentou as críticas e alcançou o tricampeonato mundial. Era a consagração de um mito e a entrada definitiva nas páginas da história do automobilismo como o quarto piloto a conseguir o tri. Antes dele, só Juan Manuel Fangio, Jackie Stewart e Jack Brabham.

Na última etapa da temporada de 1984, Niki deu uma lição de pilotagem e mostrou que um piloto não precisa saber apenas acelerar. Precisa saber quando acelerar. No autódromo de Estoril, em Portugal, ele largou na 11ª posição e, pacientemente, esperou o momento certo para ultrapassar, um a um, todos os que se encontravam a sua frente.

Niki Lauda ao volante de uma McLaren durante o GP de Mônaco de 1984, ano de seu último título na F1 (Foto: AFP)

Apenas o francês Alain Prost, seu companheiro de equipe da McLaren, ficou imune a sua audácia. Infelizmente, não da sua astúcia. Consciente da vantagem de meio ponto em relação a Prost, Niki decidiu não arriscar e assegurou a segunda colocação na corrida, o que lhe rendeu naquele domingo o terceiro título mundial. Na pista estavam alguns dos que viriam a ser os mais consagrados pilotos do automobilismo como Nélson Piquet, Ayrton Senna e Nigel Mansell. Todos superados por Niki naquele glorioso dia.

Depois da festa no pódio, ao lado de Prost e Senna, ele garantiria que nunca houve tanto sofrimento em uma prova. Ao mesmo tempo, Prost admitiria não existir maior decepção do que perder por meio ponto o título de um campeonato mundial.

Senna marcou presença na última vitória de Lauda, em 25/8/1985, em Zandvoort, quando ficou em 3º, atrás de Prost, companheiro de equipe do austríaco (Foto: Dominique FAGET/AFP)

Um fraco desempenho em 1985 fez Niki deixar definitivamente as competições, voltando ao comando da sua empresa aérea e mais tarde se tornando consultor da escuderia Ferrari. Depois de vários anos, Lauda retornou à F1 como presidente da Mercedes, equipe campeã dos últimos cinco Mundiais de Construtores.

Raio-X

Nome: Andreas Nikolaus Lauda
Data de nascimento: 22/02/1949
Naturalidade: Viena, Áustria
Principais Títulos: F1 (1975; 1977 e 1984)
Primeira vitória: GP da Espanha, em 1974
Primeira temporada na F1: 1972
Corridas: 171
Vitórias: 25
2º lugar: 20
3º lugar: 9
Pódios: 54
Pole positons: 24
Voltas mais rápidas: 24
Total de temporadas: 11
Pontos na carreira: 420,5*

*A pontuação à época era diferente do sistema atual da F1

Publicado em 20 de maio de 2019 23:18:58

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