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De Ademir da Guia a Zé Roberto Guimarães, ídolos reverenciam jornal A Gazeta Esportiva

Da Redação
São Paulo, SP
01/19/2026 05:56:08

A Gazeta Esportiva circulou diariamente entre 10 de outubro de 1947 e 19 de novembro de 2001. Durante suas 27.162 edições impressas, mais do que noticiar, o jornal foi protagonista no esporte brasileiro, a ponto de ser reverenciado por ídolos como Ademir da Guia, Basílio, Muller, Pepe e José Roberto Guimarães pelos 70 anos de seu primeiro número diário.

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Publicação do primeiro número diário faz 70 anos

“Quando cheguei a São Paulo, a Gazeta Esportiva noticiou: ‘Palmeiras contrata o filho do Divino’. Lembro muito bem dessa reportagem”, disse Ademir, herdeiro de Domingos da Guia. “Eu costumava ler e guardar o jornal. Até hoje, tenho algumas edições preservadas”, afirmou o principal ídolo da história do clube alviverde, entretido com o número do dia seguinte ao título paulista de 1974.

A Gazeta Esportiva, quatro anos após passar a circular diariamente, cobriu em detalhes a conquista da Copa Rio 1951, com a célebre capa dos jogadores perfilados no Maracanã e a manchete “Palmeiras campeão do mundo!”. Leitor assíduo do antigo jornal, Maurício Galiotte, presidente do clube alviverde, fala com orgulho da edição histórica.

“Temos essa capa reproduzida em vários locais da arena e do clube. O Campeonato Mundial de 1951 foi o maior título da história do Palmeiras e a Gazeta Esportiva destacou claramente aquela conquista. Então, temos um carinho bastante especial pelo jornal. Foi um veículo que muito fez pelos clubes e em prol do esporte. Eu sempre acompanhei”, contou Galiotte.

Entre os santistas que fizeram história ao lado de Pelé, A Gazeta Esportiva desfruta do mesmo prestígio. Na época, o diário costumava enviar repórteres para acompanhar o clube durante suas frequentes viagens ao exterior, entre eles Orlando Duarte e Solange Bibas. A exemplo de Ademir da Guia, Pepe mantém antigos exemplares em seu acervo pessoal.

“A Gazeta Esportiva fez parte da nossa juventude, do nosso trabalho e do Santos. Era um jornal maravilhoso, que todo jogador comprava. Quando fomos bicampeões mundiais contra o Milan, a Gazeta Esportiva manchetou: ‘Santos Futebol Clube, o dono do mundo’. Tenho alguns álbuns com recortes, já empoeirados, que trato de guardar com todo carinho”, lembrou Pepe, campeão em 1958 e 1962 pela Seleção.

Modesto Roma Júnior, filho de Modesto Roma, um dos principais responsáveis pelo crescimento do Santos durante os anos 1960, tinha o hábito de ver os feitos de Pepe e seus companheiros nas páginas do jornal A Gazeta Esportiva. Ao ouvir uma questão sobre o antigo jornal, o atual presidente do time praiano abriu um largo sorriso.

“Que saudades da Gazeta Esportiva! Lembro de acordar e correr à banca para comprar a Gazeta. Do mesmo modo que hoje as pessoas assistem programas de televisão e abrem a internet, a gente sabia das coisas pelo jornal: ‘Se a Gazeta não deu, ninguém sabe o que aconteceu’. A Gazeta talvez tenha sido um dos jornais mais marcantes na grande história dos clubes brasileiros”, afirmou Roma Júnior.

Durante os anos 1970, o tradicional periódico noticiou a entrada do meia-atacante João Roberto Basílio na história do Sport Club Corinthians Paulista. O autor do gol do título estadual de 1977 sobre a Ponte Preta, feito que encerrou o longo jejum do clube do Parque São Jorge, também tinha o costume de ler A Gazeta Esportiva.

“Quem comprava o jornal era a minha mãe, todos os dias. Quando me tornei jogador profissional, ela já vinha com o jornal logo cedo. Até para quem estava na várzea era interessante, porque a Gazeta Esportiva cobria tudo. O que tinha de time de futebol de bairro que saía na Gazeta... Cobriam outras modalidades, tudo, tudo, tudo! Era uma coisa de louco”, recordou.

Na década de 1990, César Sampaio, com passagens por Palmeiras, Santos, São Paulo e Corinthians, costumava usar A Gazeta Esportiva para se informar sobre as características de seus adversários. As edições do jornal nos dias seguintes aos jogos, com notas e comentários sobre cada atleta, eram aguardadas ansiosamente pelos jogadores, de acordo com o ex-volante.

“Na minha época, não existia ainda um departamento de análise de desempenho. Então, muitas informações sobre os rivais nós conseguíamos na Gazeta. Pegávamos os jornais de duas, três semanas anteriores para estudar e era útil para definir a estratégia. Já as notas pós-jogo funcionavam como um termômetro entre nós, jogadores. Tenho alguns exemplares em casa. Já mostrei aos filhos e vou mostrar aos netos”, contou.

Contemporâneo de César Sampaio, Muller, ídolo são-paulino, também vestiu as camisas de Palmeiras, Corinthians e Santos durante a longa carreira como atleta profissional. Após estampar as páginas de A Gazeta Esportiva, o ex-atacante, campeão mundial com a Seleção Brasileira em 1994, coincidentemente hoje atua como comentarista da TV Gazeta.

“Como todo bom paulistano, eu comprava a Gazeta Esportiva, até porque a maioria das páginas falava sobre futebol. Era um leitor assíduo do jornal. Várias e várias vezes eu saí na capa. Uma vez marcante foi depois de marcar um gol no clássico entre São Paulo e Palmeiras. Fico satisfeito por fazer parte dessa grande história”, afirmou o antigo atacante.

A Gazeta Esportiva, querida pelos ídolos de Palmeiras, Corinthians, São Paulo e Santos, também foi protagonista em outros esportes, como boxe, atletismo e ciclismo. O técnico José Roberto Guimarães, único brasileiro com três títulos olímpicos na história, comprava o tradicional periódico desde antes de iniciar a carreira como jogador de vôlei.

“Era um veículo extremamente importante. Eu, que sou um apaixonado por esportes, passava na banca todos os dias para comprar. Não vivia sem. A Gazeta Esportiva trazia tudo, sobre todas as modalidades, com notícias fundamentais para os esportistas. Foi uma fonte muito rica de informações”, afirmou o campeão olímpico em 1992, 2008 e 2012.

Os exemplares do antigo jornal A Gazeta Esportiva, atualmente disponíveis para consulta no acervo da Fundação Cásper Líbero, são tratados como verdadeiras relíquias pelos pesquisadores oficiais dos clubes. Miro Moraes, coordenador do acervo histórico da Sociedade Esportiva Palmeiras, é um fã do tradicional diário paulistano e tem um sonho.

“A Gazeta Esportiva é uma referência. Enquanto outros jornais privilegiavam só o texto, a Gazeta Esportiva, além do texto, era rica em imagens. Não dá para imaginar uma pesquisa iconográfica sobre esporte sem pensar na Gazeta. Um sonho meu e de qualquer pesquisador é que todos os exemplares sejam digitalizados. Aguardo ansioso por esse dia e não quero morrer sem que esse sonho se realize”, afirmou.