Funcionária da CBF que denunciou Caboclo por assédio se manifesta

São Paulo, SP

20-09-2021 01:14:33

A funcionária da CBF que denunciou por assédio sexual o presidente da entidade, Rogério Caboclo, atualmente afastado do cargo, se manifestou sobre o ocorrido neste domingo. Em entrevista ao ge, ela deu detalhes do que a motivou a realizar a acusação e das consequências que teve em sua vida após tomar essa decisão.

"O Rogério desde o primeiro momento já ultrapassou o limite comigo. Desde a primeira viagem, para Luque, no Paraguai. E ele nessa viagem fez comentários a respeito do meu corpo. Eu achei que aquilo não cabia numa relação de patrão-empregado. Nessa mesma viagem, ele passou a madrugada ligando para o meu quarto, eu não atendi. Eram comentários a respeito da minha vida pessoal, a respeito da minha vida amorosa. E aquilo foi aumentando com o passar do tempo, quando eu me tornei assessora dele, e com o aumento do consumo de bebida alcoólica também. Ele fazia comentários sobre a minha vida sexual, ele literalmente me perguntava com quem eu transava. Era uma coisa muito absurda. E foi piorando, piorando", declarou a funcionária.

A mulher afirmou que ficou ainda mais insatisfeita quando, segundo ela, Caboclo a chamou de "cadela" e a ofereceu um biscoito de cachorro. "A gente estava em São Paulo, tinha tido uma série de reuniões em São Paulo. E ele começou a fazer comentários sobre um determinado diretor da CBF. Ele falou para mim: 'Você vai contar pro fulano'. Eu falei: não vou contar para ele. 'Vai sim, você é a cadelinha do fulano'. Eu falei: não sou. No que eu comecei a falar, ele começou a latir para mim", disse.

"Eu fiquei em estado de choque, não consegui nem falar. Nisso, ele vai para a cozinha, volta com um saco de biscoito de cachorro, tira um biscoito do saco e me oferece. Eu fiquei completamente sem reação. Eu comecei a juntar minhas coisas para ir embora. Nisso, o telefone dele toca, ele sai para atender. Eu pego minhas coisas e vou embora. Arrasada, destruída, nunca tinha me sentido tão humilhada, desrespeitada, em toda a minha vida. Nunca tinha sido chamada de cadela em toda a minha vida", completou.

Rogério Caboclo foi afastado da presidência da CBF (Foto: Lucas Figueiredo/CBF)

A funcionária também explicou em que momento tomou a atitude de gravar essas ocorrências. "Não foi uma coisa pensada. Foi num momento de pânico mesmo, de defesa. O dia dessa gravação na verdade foi a segunda parte da conversa. A primeira parte ele me chama para o jardim de inverno, uma sala anexa à sala dele, um lugar escuro, já era noite, por volta de oito ou oito e meia da noite. Ele me fala para sentar no sofá, me oferece vinho, eu nego. Ele pede para tirar a máscara, eu invento que tive contato com alguém com Covid-19 e não tiro. Ele começa uma conversa esquisita. Ele fala que ele tem o contato de umas duzentas... Aí ele fala: 'duzentas, não, mas umas vinte' prostitutas no celular dele. Eu acho aquela conversa esquisita, sem cabimento, meio com segundas intenções", afirmou, antes de completar.

"Eu tento arrumar uma desculpa para voltar para minha sala, ele não deixa. No que ele vai ao banheiro, eu pego meu celular e peço ajuda a dois diretores para tentar interromper aquela reunião. Vem um diretor, interrompe, eu volto para a minha sala. Não dá dois minutos, ele pede para me chamar de volta. E aí eu entro em pânico. Eu não posso ficar sozinha com esse homem. Ele está fora de si. Eu não sei o que fazer. E aí, num momento de autodefesa mesmo, eu entro gravando", afirmou.

"Ele começa a entrar no assunto da vida sexual dele com a esposa, usando termos chulos para falar dos órgãos genitais dele e da esposa. Tenta entrar na minha vida sexual. Eu peço para deixar minha vida particular em paz. Ele continua falando e insistindo. Até que ele pergunta se eu me masturbo. Nisso me dá um pânico (começa a chorar). Gente, meu Deus, como? Como que o meu patrão me pergunta isso? O que eu faço? (Eu digo) 'Vou chamar teu motorista'. E saio correndo dali. Pego minhas coisas e saio correndo. Eu literalmente saio correndo. Esse foi o limite", acrescentou.

A funcionária também comentou que Caboclo fez uma oferta de indenização para resolver a situação, mas ela recusou o acordo por "não ter condições de trabalhar com ele".

A defesa de Caboclo negou as acusações de assédio por parte da funcionária (Foto: Leonardo Lopes/CBF)

A funcionária ainda disse que sofreu crises de pânico. "Eu tive muitas crises de pânico. Muitas. Principalmente porque eu sofri muitas ameaças do Rogério Caboclo. Ele mandou um carro na porta da minha casa, (tive a) sensação de estar sendo seguida. Ele mandou invadir meu computador, minha conta bancária", comentou.

"A sensação de pânico, de medo, de ameaça. Eu não me sentia segura em lugar nenhum, em nenhum momento do dia. Eu não conseguia dormir sem ajuda de remédio. Realmente precisei de um tratamento mais pesado. E agora estou diminuindo esse tratamento para conseguir ter uma vida mais normal", acrescentou a funcionária.

A Comissão de Ética da CBF recomendou o afastamento por 15 meses de Caboclo da presidência por "conduta inapropriada". O dirigente nega as acusações.

Confira na íntegra a nota de resposta de Rogério Caboclo à entrevista da funcionária:

O presidente da CBF, Rogério Caboclo, afirma que nunca cometeu qualquer tipo de assédio, o que foi provado perante a Comissão de Ética, inexistindo qualquer pendência perante a Justiça Criminal, estando ele quite em ambos em relação a essa acusação. Ele pediu desculpas públicas à funcionária por ter usado palavras deselegantes, ditas num contexto de amizade, que ela mantinha com ele e sua família.

Rogério Caboclo esclarece que nunca determinou a violação de sigilo do computador ou de contas da referida funcionária e nem promoveu nenhuma reunião ou a intimidou. O motorista da empresa que foi visitar a funcionária declarou em depoimento ter sido duramente repreendido pelo presidente por seu ato.

O presidente da CBF lamenta que esse episódio esteja sendo deturpado e utilizado com fins políticos. Quem quiser compreender o que ocorreu deve ouvir na íntegra todas as conversas - e não apenas parte delas, sob pena de ser enganado. Caboclo nunca demonstrou nenhum tipo de interesse que não fosse profissional em relação à funcionária. E nem ela alega isso em sua denúncia.

Sobre a negociação com a funcionária, a iniciativa não partiu de Caboclo. Já foi exposto publicamente que uma terceira pessoa procurou o presidente da CBF trazendo uma proposta financeira. Caboclo rejeitou o acordo. A denúncia contra ele foi protocolada horas após a recusa, quase três meses depois da data da gravação apresentada.

As denúncias contra Rogério Caboclo já foram julgadas e retornam à imprensa justamente às vésperas das decisões que definirão seu destino imediato dentro da CBF e também com a proximidade de negociações de contratos vultosos da entidade, outrora negociados pelos antigos gestores da CBF.

Deixe seu comentário