Unidos pela Vila Joaniza

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Unidos pela Vila Joaniza

Legado do tricampeonato, escola na periferia de São Paulo simboliza ligação entre Brasil e México

Bruno Ceccon - São Paulo, SP 1 de julho de 2018 09:00:08
 

Há aproximadamente 2 mil “mexicanos” na Vila Joaniza, humilde bairro da zona sul paulistana. Batizada em homenagem ao tricampeonato mundial, a Escola Estadual México une os países que duelam pelas oitavas de final da Copa do Mundo da Rússia.

Fundada na década de 1960, a instituição mudou de nome para celebrar a irmandade com o povo mexicano em 1970, ano em que a Seleção liderada por Pelé encantou o mundo com partidas disputadas em Guadalajara e na Cidade do México. Em clima de Copa, a escola hoje exibe painéis com as bandeiras dos países que estão na Rússia.

“Por causa da escola, a gente até se acha mexicano”, sorriu Ilka Lippi, vice-diretora da instituição que conta com cerca de 2 mil estudantes, do ensino fundamental ao médio. “Quem é aqui do México, aluno, professor ou funcionário, tem muito carinho pelo país”, completou.

A instituição mantém laços estreitos com o país norte-americano, já que integra o programa “Escolas México”, mantido pela Agência Mexicana de Cooperação Internacional para o Desenvolvimento. O projeto contempla aproximadamente 147 escolas que levam o nome do país em 17 nações do Caribe e da América Latina.

“Curiosamente, a escola já tinha esse nome antes mesmo da criação do programa ‘Escolas México’. A relação entre México e Brasil é muito fraternal”, observou Bruno César Silva, assistente de Margarita Pérez Villaseñor, cônsul-geral do país em São Paulo.

Os estudantes da Vila Joaniza contam com apoio do Consulado-Geral na capital paulista, além da Câmara Mexicana e da associação Mexicanos em São Paulo – as entidades contribuem com recursos financeiros, materiais e logísticos. Anualmente, alguns alunos da instituição são selecionados para visitar o país norte-americano.

“Na verdade, o contato que mantemos com o México é um privilégio. Muita gente vem para a escola porque sabe que, se tiver um bom desenvolvimento, vai conseguir a oportunidade de conhecer o país”, contou Ilka Lippi, ouvida atentamente pelos alunos Joaquim Azevedo e Danielly Santos, recém-chegados da viagem.

A relação influencia no conteúdo da escola que tem a fachada enfeitada por um painel do renomado artista plástico mexicano Felipe Ehrenberg. Os alunos aprendem o hino nacional, celebram a independência e, em vez do Halloween, estudam sobre o Dia dos Mortos, traço marcante da cultura do país.

Criador de Chaves e Chapolin, mexicano Roberto Bolaños é idolatrado no Brasil (Foto: Anne-Christine/AFP)

Os mexicanos, muitos fãs do cantor Roberto Carlos, de maneira geral têm carinho pelos brasileiros, em parte pela participação da Seleção nos Mundiais de 1970 e 1986. No Brasil, os próprios mexicanos ficam surpresos com a admiração dos locais pela pintora Frida Kahlo e pelo ator Roberto Bolaños, protagonista do seriado Chaves.

“A personalidade do mexicano é muito parecida com a do brasileiro”, apontou Juliana Mizga, responsável pelas relações institucionais da Câmara Mexicana. “Os dois povos são alegres, hospitaleiros e multiculturais”, completou Bruno César Silva, representante da cônsul-geral.

Às 11 horas (de Brasília) desta segunda-feira, as afinidades entre Brasil e México serão colocadas à prova na briga por uma vaga nas quartas de final da Copa do Mundo da Rússia. Na Vila Joaniza, a vice-diretora Ilka Lippi se diverte com o duelo dos dois países.

“Ai, meu Deus… Precisava ter acontecido isso logo agora? Não podia ser na final? Não sei como vai ser, de verdade. Vou te falar o seguinte: meu coração está divididinho, metade Brasil e metade Brasil!”, contou, rindo, perto de uma imensa bandeira mexicana.

Danielly Santos e Joaquim Azevedo representaram a escola no México (Foto: Fernando Dantas/Gazeta Press)

DA ZONA SUL PARA A AMÉRICA DO NORTE

Como parte do programa “Escolas México”, criado para apoiar instituições de ensino com o nome do país, dois alunos da Vila Joaniza recentemente passaram uma semana na capital federal. Joaquim Azevedo (12 anos) e Danielly Santos (11 anos) estavam entre o grupo de 32 estudantes contemplados de diferentes nações.

Para celebrar o cinquentenário dos Jogos de 1968, o concurso de desenho criado com a finalidade de selecionar os alunos para a viagem teve o tema “México Olímpico”. “Pensando em representar a união, fiz duas pessoas remando na canoagem”, contou a ganhadora Danielly, que teve ajuda da Câmara Mexicana para tirar seu primeiro passaporte.

Condecorados pela Agência Mexicana de Cooperação Internacional para o Desenvolvimento, os dois jovens brasileiros conheceram alguns dos principais pontos turísticos locais, como a zona arqueológica de Teotihuacán e o Castelo de Chapultepec.

“O que gostei mais da viagem foi o passeio pelas pirâmides”, contou Joaquim Azevedo, que ganhou a viagem pelo melhor aproveitamento escolar. “Só fui comer tacos no último dia e, sem querer, coloquei ketchup picante. Achei a Cidade do México parecida com São Paulo, até no trânsito”, completou.

Publicado em 1 de julho de 2018 09:00:08

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