Um diagnóstico da disparidade tática entre Brasil e Europa

Bruno Pivetti aponta distintos tipos de marcação e diferentes metodologias de treino como aspectos táticos mais díspares entre o futebol brasileiro e europeu

Da Redação
São Paulo
01/24/2026 15:08:20

"Aqui na Europa as metodologias tendem a ser mais holísticas e complexas, nas quais a visão exclusivamente física é substituída por um olhar substancialmente tático", Bruno Pivetti

Após um ano de trabalho na equipe técnica do Ludogorets, Bruno Bivetti já identificou algumas diferenças entre o futebol europeu e brasileiro no que diz respeito a elementos táticos. Para ele, dentre todas as disparidades, o tipo de marcação é a característica que mais lhe chama a atenção.

"Por mais que no Brasil já tenham muitos treinadores que optam pela marcação por zona, ainda é muito comum observarmos equipes de série A no futebol brasileiro marcando de maneira individual. Aqui não estou tecendo nenhuma crítica a nenhum treinador, cada um tem a sua ideia e o futebol tem diversas maneiras de ser jogado", observou o auxiliar. "Temos que respeitar parte, mas cada um tem que ter sua convicção. Na minha cabeça, do ponto de vista lógico, não faz sentido a questão da marcação individual". 

Bruno Pivetti é o responsável pela implementação do modelo de jogo no Ludogorets (Divulgação/Ludogorets)

"Acho muito mais racional a marcação por zona, por você oferecer uma maior organização e um sentido coletivo à sua equipe, além da eficiência. Eu não vejo sentido você se locomover em campo sempre em função do que o adversário faz", apontou o brasileiro". "Não gosto de ser manipulado em minha vida pessoal, tão pouco na profissional. E quando você adota a marcação individual você acaba sendo manipulado pelo seu adversário, o que diminui substancialmente a sua eficiência defensiva".

Outro aspecto mencionado por Bruno como diferente entre o que é praticado no Brasil e na Europa é a metodologia de treino. No seu ponto de vista, o planejamento das sessões de treinamento no Velho Continente têm como objetivo integrar as mais diversas capacidades e habilidades dos jogadores, o que não acontece no Brasil.

"Por mais que você tenha cada vez mais treinadores brasileiros com uma metodologia mais integrada de treinos, ainda são feitos muitos treinamentos que isolam as dimensões de rendimento no futebol entre si. Ainda tem muito treinador que busca desenvolver o físico, o tático, o técnico separadamente", explicou o profissional. "Aqui na Europa as metodologias tendem a ser mais holísticas e complexas, nas quais a visão exclusivamente física é substituída por um olhar substancialmente tático".

Bruno é responsável pela implementação da metodologia de treinamento no clube (Foto: Divulgação/Ludogorets)

Um dos grandes diferenciais do currículo de Bruno é sua base teórica. Formado como bacharel em esporte, o assistente técnico também tem especializações em fisiologia do exercício e marketing esportivo, além de ter dois níveis o curso de treinadores da Associação de Treinadores de Futebol Argentino. Porém, ele ressalta que é primordial busque aplicabilidade para todo o conhecimento que adquiriu ao estudar.

"Foram todas experiências que me deram um background teórico muito interessante. Mas, como o professor Paulo Autuori sempre diz, conhecimento sem aplicação não é conhecimento de fato",  destacou o profissional. "De nada adianta a base teórica se você não tem a articulação prática para colocar todas essas ideias no treinamento, no campo. As habilidades em termos de gestão de pessoas, de liderança, de comunicação são ainda mais importantes do que a base teórica".

"A dimensão teórica é fundamental porque te proporciona um objetivo e todos os passos que você deve seguir para atingi-lo, porém ela não se sustenta em si mesma. Nada melhor do que a experimentação e a vivência, que a tentativa e erro, para te proporcionar esse conhecimento prático que ao longo dos anos vai se transformando em um hábito, deixando se ser um conhecimento teórico-prático e passa a ser um conhecimento tácito", finalizou.