Na esperança de avistar alguns de seus ídolos, os jogadores do Teresópolis Futebol Clube têm percorrido a pé o trajeto entre a sede da humilde agremiação e a sofisticada Granja Comary, mas a distância que separa as duas realidades não poderia ser maior. Aos 103 anos, com inspiração no Barcelona e peneiras anunciadas via Facebook, o Tricolor do Alto tenta se reerguer.
O Teresópolis já flertou com a elite do Campeonato Carioca, mas, abalado por problemas financeiros, chegou a paralisar o futebol profissional. Atualmente, enquanto Neymar, Gabriel Jesus e Philippe Coutinho se preparam para disputar a Copa do Mundo da Rússia, a equipe local treina para participar da quarta divisão estadual, sem perder a ambição.
“Montamos um grupo e uma comissão técnica muito qualificados. Acho que vamos conseguir fazer um campeonato sem sustos financeiros. Nosso grande problema sempre foi esse: o susto financeiro no meio do torneio. Além de subir de divisão, quero ser campeão. Em 103 anos de história, o clube nunca foi. Se ganhar, seria para desfilar de carro de bombeiro na cidade”, imaginou o vice-presidente Kaio Eduardo Ribeiro.
A Gazeta Esportiva acompanhou um treinamento da equipe sub-20 do Teresópolis nas dependências do Estádio Antonio Savattone, o mesmo que recebeu a Seleção Brasileira de Pelé e Garrincha durante a preparação para a Copa do Mundo de 1966, algo orgulhosamente informado em uma placa na entrada. “A raiz da grama é a mesma”, afirmou o dirigente, sorrindo.
Sem torneios oficiais na primeira metade do ano, o Teresópolis tem um orçamento de aproximadamente R$ 150 mil para o segundo semestre, algo irrisório se comparado aos R$ 17 milhões investidos na última reforma da Granja Comary. Na base da criatividade, o clube costurou parcerias com uma academia e uma clínica fisioterápica locais e promoveu uma série de peneiras, anunciadas por meio do perfil oficial no Facebook.
“Faça agora a sua inscrição por mensagem aqui na página e saiba como participar. Informe o seu nome completo, data de nascimento, posição e número do Whatsapp e reserve a sua vaga. A nossa equipe está de plantão para te atender!”, diz o perfil do clube na rede social. A medida, de acordo com o vice-presidente, foi um sucesso, e metade do elenco profissional é hoje composta por atletas aprovados nos testes.
Os dois locais são próximos (Fotos: Djalma Vassão)
“Não fizemos avaliação como geralmente o pessoal faz, só para tirar uma grana. A gente quis realmente formar o elenco. Primeiro, montamos parte do grupo com os testes e, depois, acertamos com algumas peças de confiança para completar. Trouxemos mais de 700 atletas teresopolitanos para dentro do clube. Então, foi uma iniciativa muito bacana e vitoriosa”, contou Kaio, com o sonho de estar na Série A em cinco anos.
Em busca do acesso à terceira divisão do Campeonato Carioca, o elenco recém-formado não contará com um treinador. Na tentativa de encontrar o que chama de “identidade Teresópolis”, a diretoria do Tricolor do Alto, inspirada no Barcelona, montou uma comissão técnica única para dirigir as equipes profissional e a sub-20, além de coordenar as categorias inferiores.
“No Barcelona, o Cruyff iniciou um processo que demorou para estourar na mão do Guardiola. Então, temos que começar agora. Criando uma identidade, os técnicos que vierem nos próximos anos entenderão a filosofia do clube em todas as categorias. A ideia é acabar com a figura clássica do treinador. Tem uns que chegam e mudam tudo. Aqui, não. Vai ser a filosofia do clube”, explicou Kaio.
Tricolor em homenagem ao Fluminense, o Teresópolis começará a testar a estratégia a partir da Série C do Campeonato Carioca, em julho – a tabela ainda não foi definida. Com a chance de jogar em seu próprio estádio, algo que nem todos os clubes da quarta divisão podem fazer, já que não conseguem as liberações exigidas pelas autoridades, o time centenário, além de buscar o acesso, quer fortalecer o elo da cidade com o futebol.
“A região serrana do Rio de Janeiro é gigantesca. Imagina se toda essa população precisar ir ao Maracanã para ver um jogo de futebol no fim de semana. Atualmente, temos Friburguense, nós e o Serrano. Veja a importância desses três clubes para um pai que quer levar o filho no estádio, por exemplo. Com ingressos a mais de R$ 100, o cara nem consegue ir ao Maracanã. Aqui, ele paga R$ 15 e ainda traz a família”, disse Kaio.
Fabrício Vieira (e) e Renan Rodrigues vivem no alojamento do clube, anexo ao estádio (Foto: Djalma Vassão/Gazeta Press)
PROXIMIDADE DA SELEÇÃO ANIMA JOVENS DA BASE
Por determinação da Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro (FERJ), os clubes interessados em participar da Série C do Campeonato Carioca devem inscrever também uma equipe sub-20. Em preparação para o torneio estadual, os jovens do Teresópolis estão animados com a proximidade da Seleção na Granja Comary.
“Ficamos na expectativa de, um dia, poder estar lá para representar o Brasil também”, disse o volante Renan Rodrigues, de 18 anos. “Eu me inspiro muito no Casemiro. É um monstro em campo. Tenho o sonho de chegar ao profissional e ajudar a família”, completou o jovem, que veio de Belém do Pará.
Já o lateral esquerdo Fabrício Vieira, nascido na cidade baiana de Adustina, tem Marcelo como exemplo. “Gosto muito do estilo dele e estou doido para vê-lo de perto. Isso é gigantesco para mim, porque nunca imaginei que poderia vestir a camisa do Teresópolis e treinar perto do CT da Seleção”, afirmou o jovem de 19 anos.