Templo em xeque

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Templo em xeque

Representantes do atletismo ficam receosos com o futuro da modalidade no Brasil, após governo paulista anunciar projeto de concessão do Complexo do Ibirapuera, que abriga o icônico Estádio Ícaro de Castro Mello

Fernanda Silva* e José Victor Ligero - São Paulo, SP 13 de setembro de 2017 09:00:36
 

O projeto de concessão do Complexo Desportivo Constâncio Vaz Guimarães para a construção do que, nos termos do governo do estado de São Paulo, será um conjunto “esportivo-cultural multiúso next generation” está deixando aflita a comunidade do atletismo brasileiro. Com suas carreiras sob risco, atletas que dependem do Estádio Ícaro de Castro Mello para treinar podem ficar desalojados, uma vez que não há garantias de que será construída uma nova pista no lugar.

Localizado no bairro do Ibirapuera, região nobre da cidade de São Paulo, o Complexo ocupa uma área de 95 mil m² e abriga uma estrutura que compreende o Ginásio Geraldo José de Almeida, o Conjunto Aquático Caio Pompeu de Toledo, o Ginásio Mauro Pinheiro e o Palácio do Judô, além do Ícaro de Castro Mello. Possui ainda um alojamento para 340 pessoas.

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Inaugurado em 1954 e com capacidade para 13.400 pessoas, o estádio é um ícone do atletismo nacional. Lá foram disputadas as competições dos Jogos Pan-Americanos de 1963 e revelados grandes nomes do esporte, como a campeã olímpica do salto em distância Maurren Higa Maggi. Atualmente, serve como local de treinamentos para atletas, mas não mais para competições, já que a pista apresenta irregularidades e bolhas em alguns de seus trechos.

O destino desses atletas é, portanto, o que intriga o presidente da Confederação Brasileira de Atletismo (CBAt), José Antonio Fernandes, que, atônito, apelou a expoentes do esporte para dissuadir Paulo Gustavo Maiurino, chefe da Secretaria de Esporte, Lazer e Juventude (SELJ) do estado de São Paulo, responsável pela administração do Complexo.

“Diante de um quadro de extrema carência, perder essa que é a principal pista de atletismo do Estado de São Paulo, seria fatal para o futuro do atletismo brasileiro. Nossos ídolos imortais: Adhemar Ferreira da Silva, Nelson Prudêncio e João Carlos de Oliveira, o João do Pulo, estariam chorando por essa decisão!”, desabafou o dirigente em trecho de uma carta divulgada no último dia 28. “Como o quadro parece irreversível, nos resta apelar a Vossa Excelência para que com a construção de uma Arena Multiúso, a pista de atletismo seja preservada”, implorou Toninho.

Com o desalojamento dos atletas, a tendência é que o nível da modalidade despenque no Brasil. A previsão é de Talles Frederico, especialista no salto em altura. “Eu tenho a pista do Pinheiros, onde posso treinar também. Porém, se não tiver outros atletas em evolução, vou ficar saltando sozinho. E o cara que salta sozinho, salta num nível mais baixo”, avaliou.

“Quanto mais atletas treinarem em alto nível, mais vou me motivar para estar na frente. Se não tem uma pista a mais para estarmos competindo, o número de competições cai. Quanto mais pistas de atletismo e gente treinando em alto rendimento, melhor para todos. Um vai puxando o outro e a gente cresce junto”, acrescentou.

Medalhista de prata no Sul-Americano de 2017, no Paraguai, Talles Frederico prevê uma queda geral do nível dos atletas com a possível demolição do Ícaro de Castro Mello (Foto: Washington Alves/CBAt)

Procurado pela Gazeta Esportiva, Maiurino não garantiu a construção de uma nova pista de atletismo no lugar que hoje é ocupado pelo Estádio Ícaro de Castro Mello. “Neste momento, qualquer afirmativa no sentido de construções ou demolições no complexo trata-se de mera hipótese”, ressaltou.

O secretário, no entanto, sugeriu a possibilidade de os atletas serem removidos para o bem equipado Centro Paraolímpico Brasileiro, localizado na Rodovia dos Imigrantes, “que atende atletas com ou sem deficiência, em um espaço que contempla não apenas atletismo, mas 15 modalidades”.

Espera-se que a empresa vencedora, cuja concessão será de três décadas, invista cerca de R$ 230 milhões e modernize o Complexo, fundado há mais de 60 anos, “para torná-lo apto a receber competições nacionais e internacionais, além dos variados eventos”, segundo Maiurino. A ideia do governador Geraldo Alckmin (PSDB) é eliminar um déficit anual de R$ 7 milhões. “Com isso, a secretaria passa a contar com mais recursos para fomentar o esporte em todo o estado”, acrescentou.

No fim de julho, o governo lançou edital de chamamento público, através qual convocou a iniciativa privada para o processo de concessão. Nove empresas manifestaram interesse pela administração do Complexo. Elas têm até o dia 16 de outubro para apresentar os levantamentos. “Após analisar os estudos, a viabilidade de cada um e realizar audiências públicas, o Governo do Estado então lança o edital, o que deve ocorrer entre dezembro deste ano e janeiro de 2018”, explicou Paulo Gustavo Maiurino.

Existem no Brasil 50 pistas de atletismo certificadas pela Associação Internacional de Federações de Atletismo (Iaaf, na sigla em inglês) e capazes de receber competições internacionais. Oito delas estão localizadas no estado de São Paulo, sendo três na capital.

Apesar de seu estado crítico, a pista do Estádio Ícaro de Castro Mello ainda aparece nos registros da Iaaf. As outras duas integram o Centro Olímpico de Treinamento e Pesquisa Marechal Mário Ary Pires (COTP), na Avenida Ibirapuera, e o Centro Paraolímpico Brasileiro, na Rodovia dos Imigrantes.

Especial para a Gazeta Esportiva*

Publicado em 13 de setembro de 2017 09:00:36
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