Preconceito e Ditadura

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Preconceito e Ditadura

No Dia da Mulher, a primeira árbitra do Brasil e do mundo, Léa Campos, conta os desafios que precisou enfrentar para apitar num país onde o futebol feminino era proibido

Marina Bufon 8 de março de 2019 09:00:41
 

“Fui presa várias vezes por causa do futebol, ora apitando, ora jogando e, por ironia do destino, foi um presidente do Regime Militar que me ajudou a receber meu diploma”.

Nesse tom, Asaléa de Campos Fornero Medina, ou Léa Campos, seu nome de guerra, falou exclusivamente à Gazeta Esportiva no Dia Internacional da Mulher sobre sua relação intrínseca com o esporte, mais precisamente o futebol, modalidade que a credenciou como a primeira mulher árbitra do Brasil e do mundo, segundo dados divulgados por historiadores.

Nascida em 1945 em Abaeté, Minas Gerais, Léa, filha de ferroviários, pulou de cidade em cidade “como cigana”, o que a ajudou a escrever páginas na história da luta das mulheres em busca de seus próprios espaços. Dentro e fora dos gramados.

É preciso ter gana sempre

“Como filha única naquele tempo, eu era a menina de minha mãe, com quem aprendi tudo que uma mulher precisa saber, com quem eu brincava de boneca. Éramos comadres. Também era o menino de meu pai, com quem eu pescava, soltava papagaio, brincava os jogos daquela época. Um dia pedi a ele uma bola para jogar com os meninos da escola, ele me fez uma de trapo e comecei a me apaixonar pelo futebol”, conta no alto de seus 74 anos.

Única menina a jogar entre os varões, ela conta que quando a barravam, ela simplesmente pegava a bola e ia embora. Já nascia ali o interesse, forte e genuíno, contra o machismo e a discriminação, que a acompanharam durante toda a sua jornada até a atualidade, seja no esporte ou não.

Eu era a única menina jogando com os meninos, e quando queriam me barrar no jogo, eu pegava a bola e ia embora.

“Quando mudamos para Belo Horizonte, fiz uma carta para Juscelino Kubitschek (presidente na época) dizendo que queria estudar, mas meu pai não tinha meios de custear meus estudos. Ganhei uma bolsa e fui estudar no interior de Minas, até ele ser exilado e eu perder o benefício”, conta. Militante desde sempre, a ex-árbitra revela que, ao voltar para BH, viu no vôlei uma chance de continuar com a bolsa. “Deu certo”.

Tudo isso foi necessário para que, anos depois, ela entrasse para um concurso para falar sobre a vida de John Kennedy, ex-presidente dos Estados Unidos. “Me meti a falar disso, não tinha muita esperança, era o Estado todo. Para minha surpresa, venci o concurso e pude estudar jornalismo”.

Léa Campos em dezembro de 2018, nos Estados Unidos (Foto: Arquivo pessoal)

Mistura a dor e a alegria

Na juventude, Léa Campos participou de vários concurso de beleza, um deles a Rainha do Cruzeiro, quando venceu e passou a se envolver mais, depois tendo se tornado Relações Públicas do clube. No entanto, não queria que fosse só assim. Ela lembra que, apesar de gostar, não sabia muita coisa sobre futebol e, a pedido de um namorado, foi procurar sobre arbitragem.

Me meti no futebol como torcedora do Cruzeiro, e como não sabia nada das regras, meu namorado me matriculou no curso de árbitros, para que eu entendesse sobre futebol e o deixasse assistir aos jogos tranquilamente.

Foi daí o interesse e, como consequência, apaixonou-se pela modalidade. Teve apoio de familiares, amigos e imprensa, mas não da maioria das mulheres, que não acreditavam no seu trabalho, seja como jornalista ou como árbitra. Ainda assim, seguiu. A Ditadura Militar reinava naquele tempo e, na hora de receber seu diploma e validação da profissão, após oito meses na Escola de Árbitros do Departamento de Futebol Amador em 1967, foi barrada pela Confederação Brasileira de Desportos (CBD, atual CBF).

“Minha maior decepção foi no dia de receber o diploma de árbitro, quando meu professor disse que a CBD não permitia mulher no futebol. Foi aí que começou minha briga com Jean-Marie Havelange, mais conhecido como João Havelange. Foi uma verdadeira guerra, derrubando todas as barreiras impostas por ele. Felizmente, depois de quatro anos de luta, consegui a aprovação da entidade”, lembra.

Isso aconteceu por conta de um convite recebido por ela, o de apitar o primeiro Mundial Feminino, a ser realizado no México, em 1971. Para falar com Havelange, porém, ela precisou primeiro conversar com o presidente da época, Emílio Garrastazu Médici, uma pessoa que ela considera essencial para que seu diploma fosse liberado. Léa levou uma carta dele, escrita a próprio punho, para Havelange.

Durante esse tempo sem a liberação da CDB, entretanto, ela apitou jogos amadores e juvenis, que a prepararam para esse grande momento da carreira, no México. “Foi a única vez que apitei (futebol feminino), porque era proibido no Brasil. Também fui mediadora de luta livre e boxe, depois”.

Na época da Ditadura Militar, assim como na Era Vargas, as mulheres eram proibidas de praticar algumas modalidades por algumas delas serem “incompatíveis com as condições de sua natureza”, segundo decreto-lei de 1941. Futebol e lutas eram dois desses esportes e, mesmo assim, ela seguiu em frente. Ela foi presa diversas vezes, acusada de subversão e terrorismo, mas resistiu.

O futebol feminino foi liberado em 1979 e, quatro anos depois, ela criou seu próprio time, além da Copa Léa Campos. “Mas não pude continuar, pois ficava muito caro. Cheguei a fazer empréstimos bancários para pagar o trio de arbitragem, mas, como era feminino, não consegui patrocinador e parte da imprensa não apoiou”.

A estranha mania de ter fé na vida

Léa é casada com o também jornalista Luis Eduardo Medina desde 1993 (Foto: Acervo pessoal)

Feliz com a vitória da Mangueira, no Carnaval do Rio de Janeiro, Léa falou por WhatsApp e e-mail direto de Nova York, onde mora com o marido, o colombiano Luis Eduardo Medina, com quem é casada desde 1993. Tentando a publicação de sua biografia em português, escrita por ele, não se dá por vencida e promete continuar. Como em tudo que aconteceu em sua trajetória.

Léa foi forçada a parar de apitar em 1974, apenas três anos após o início da profissão de árbitra, por conta de um grave acidente de carro, quando ficou presa nas ferragens e quase perdeu a perna esquerda. Foram mais de 100 intervenções cirúrgicas, algumas delas nos Estados Unidos, onde conheceu Medina, também jornalista esportivo e escritor.

Como jornalista, trabalhou na Rádio Mulher (São Paulo) e na TV e Rádio Nacional (Brasília), além de ter tido uma passagem pela Rádio Planalto, também na capital nacional. Já nos Estados Unidos, ela trabalha no Brazilian Press, publicação feita em Nova Jersey voltada para brasileiros que moram nos EUA. Lá, fala sobre futebol, mas, claro, não sem antes também ensinar muito sobre a vida.

“O tempo não diminui a dificuldade e nem aumenta, tudo no seu momento certo. Eu tenho certeza que você também deve ter lutado bastante e está colhendo os louros dessa luta. Porque só vence aquele que não fica na metade do caminho”, finaliza.

Publicado em 8 de março de 2019 09:00:41

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