Órgãos de ouro

Atletas transplantados transformam a segunda chance de viver em medalhas, inspiração e incentivo à doação de órgãos

Por Rodrigo Matuck
São Paulo/SP
09/27/2026 05:21:01

Respirar fundo antes de disparar nos 100 metros rasos ganhou outro significado. Liège Gautério encontrou no esporte uma ferramenta para se reerguer e transformar sua segunda chance em uma nova forma de viver após o transplante de pulmão.

Natural de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, a profissional de educação física recebeu, aos 30 anos, o diagnóstico de fibrose pulmonar, uma doença que, na época, não tinha tratamento. Com o avanço dos sintomas, precisou entrar na lista de espera para um transplante pulmonar na Santa Casa de Porto Alegre.

Foram cinco meses na fila antes de receber um pulmão esquerdo graças à doação de órgãos. A história ganha ainda mais significado neste mês, já que o Dia Nacional da Doação de Órgãos é celebrado em 27 de setembro.

"O diagnóstico veio em 2003 e me disseram que a doença era progressiva. Convivi com a fibrose pulmonar sem grandes sintomas por cerca de oito anos. Depois, ela começou a avançar e precisei usar oxigênio. Adquiri um concentrador portátil que me permitia me deslocar e entrei na lista de transplante", relembrou.

Dificuldades tinham de sobra, mas Liège decidiu não abandonar o esporte. Acostumada a se exercitar desde pequena, praticando modalidades como balé, musculação, ciclismo e natação, ela precisou diminuir o ritmo, mas nunca parar completamente.

Por orientação da Santa Casa, passou a frequentar um serviço de reabilitação pulmonar enquanto aguardava na fila de espera. "Duas vezes por semana fazíamos esteira, exercícios com peso e musculação leve. Paralelamente, eu ainda frequentava a academia enquanto conseguia me exercitar. Ia com oxigênio e treinava, porque sabia da importância de manter a massa muscular para uma boa recuperação depois do transplante. Fiz o máximo que pude".

O transplante, realizado em 2011, foi um sucesso. O pós-operatório também superou as expectativas. Na época, o tempo médio de permanência na UTI variava de sete a 15 dias após a cirurgia. Liège, porém, foi transferida para o quarto em menos de dois.

"Foi muito importante manter a rotina de exercícios, porque minha recuperação foi muito rápida, muito por conta desse cuidado prévio com os exercícios, a alimentação e a vida regrada que sempre tive", destacou.

Foto: arquivo pessoal

Uma nova chance

Depois de receber alta, Liège manteve os cuidados com a saúde e não abriu mão de uma vida ativa. Em 2014, viu surgir a oportunidade de se transformar em atleta por meio dos Jogos Mundiais para Transplantados.

"Fiquei sabendo por meio de um conhecido. Era 2014, e a edição de 2015 seria a 20ª. Nunca tinha ouvido falar. Entrei no site, vi as modalidades e encontrei o atletismo, que era uma atividade de que eu gostava na época do colégio. Nenhuma mulher brasileira tinha participado dos Jogos até então. Fiquei muito feliz com a possibilidade de abrir portas para a participação feminina", contou.

Nem mesmo um câncer de mama foi capaz de interromper a trajetória de Liège rumo a uma histórica medalha de ouro nos 100 metros rasos, conquistada em Mar del Plata, na Argentina.

"Foi algo muito mágico. Quando cruzei a linha de chegada, custei a acreditar no que estava acontecendo. Como transplantada unilateral, com apenas um pulmão em funcionamento, vencer aquela corrida teve um significado enorme. Naquele momento, percebi que não corria apenas por mim, mas também por todas as pessoas que aguardam um transplante. Entendi que precisava mostrar que, apesar dos desafios, é possível ter uma vida plena, com saúde, qualidade de vida e novas conquistas após o transplante", relembrou.

A experiência foi tão marcante que a profissional de educação física participou de outras quatro edições dos Jogos Mundiais, de um Campeonato Latino-Americano e também de competições máster ao lado de atletas não transplantados. Além do ouro na Argentina, voltou ao lugar mais alto do pódio em 2017, na Espanha.

Participar dos Jogos também representou a realização de um sonho para Ramon Lima. Transplantado renal desde 2019, o professor de educação física conseguiu transformar em realidade, após anos de desafios, o desejo de ser atleta. Hoje, guarda com carinho as duas medalhas de bronze conquistadas na Alemanha, em 2025, nas provas dos 800 e 1.500 metros.

"Sempre quis ser atleta e não podia deixar passar a oportunidade de representar o Brasil em uma competição internacional. Foi a realização de um sonho que eu carregava havia muito tempo. Ao mesmo tempo, existe a missão de compartilhar essa mensagem. Mostramos tudo o que enfrentamos e tudo o que conquistamos depois do transplante, seja uma medalha, uma amizade ou simplesmente a oportunidade de estar ali competindo. Isso inspira outras pessoas e ajuda a conscientizar sobre a importância da doação de órgãos. Há ainda um legado para as próximas gerações. Minhas filhas viveram toda essa jornada ao meu lado, e essa experiência deixa marcas que elas levarão para a vida toda", afirmou.

Ramon Lima exibe as medalhas que conquistou nos Jogos de 2025 (Foto: arquivo pessoal)

Jogos para se inspirar

Desde 1978, a Federação Mundial de Jogos para Transplantados reúne representantes de mais de 60 países para celebrar o sucesso dos transplantes por meio dos Jogos Mundiais de Verão e de Inverno.

O principal objetivo da entidade é ampliar a conscientização sobre a importância e os benefícios da doação e do transplante de órgãos. Hoje, os Jogos são o maior evento do mundo voltado ao tema. A primeira edição foi realizada em 1978, em Portsmouth, no Reino Unido. Desde então, a competição passou por países da América do Norte, América do Sul, África, Ásia, Oceania e Europa.

Para levar o maior número possível de atletas às competições, o Brasil conta com grupos de apoio, como a Liga de Atletas Transplantados (Ligatxbr). A organização sem fins lucrativos começou a ser idealizada no fim de 2021, quando um grupo de transplantados que praticava esporte decidiu unir forças para buscar apoio e viabilizar a participação nos Jogos Mundiais de Transplantados de 2023, na Austrália. As primeiras reuniões ocorreram no início de 2022 e, desde então, o trabalho não parou mais.

“A nossa missão é incentivar o esporte entre transplantados, conscientizar a sociedade sobre a doação de órgãos e levar esperança por meio do exemplo. Quando alguém vê um transplantado praticando esporte, correndo ou até fazendo triatlo, a mensagem é muito mais forte do que qualquer discurso. A Liga nasceu do sonho de participar de uma competição internacional, mas rapidamente se tornou um movimento para inspirar pessoas e ajudar a salvar mais vidas”, afirmou Cornelis Poel, transplantado de fígado e presidente da Ligatxbr.

Atletas da Liga de Atletas Transplantados nos Jogos (foto: Divulgação)

Os atletas, no entanto, enfrentam dificuldades para viabilizar recursos para as viagens. Cornelis revelou que a Liga ainda não conseguiu estruturar uma arrecadação capaz de custear a participação dos competidores. Atualmente, a organização fornece cartas de convocação, documentos institucionais e materiais explicando a importância dos Jogos, para que cada atleta possa buscar patrocínios e apoios em sua cidade, junto a empresas, órgãos públicos, parlamentares ou programas de incentivo.

Ramon, por exemplo, participou dos Jogos de 2023 com recursos próprios. Como servidor público, conseguiu converter uma licença-prêmio acumulada em dinheiro, o que bancou mais da metade dos custos da viagem à Austrália. Já em 2025, graças aos resultados conquistados anteriormente, foi contemplado por leis estaduais e municipais de incentivo ao esporte do Paraná e praticamente não precisou desembolsar recursos próprios.

“Isso mostra como as políticas de apoio ao esporte fazem diferença. Mas nem sempre esse recurso está disponível. A gente corre atrás de todas as possibilidades: leis de incentivo, patrocínios, rifas e ajuda de familiares e amigos. E isso diz muito sobre os atletas transplantados. São pessoas que já enfrentaram desafios enormes e aprenderam a não desistir. Quando surge um obstáculo, sempre encontramos uma forma de seguir em frente”, destacou o ex-presidente da Ligatxbr.

Corrente do bem

Além da Liga de Atletas Transplantados, existem outros grupos que incentivam a prática esportiva entre pessoas no pré e pós-transplante. Liège, inclusive, usa a experiência acumulada ao longo dos anos para transformar a vida de outras pessoas. Durante a pandemia de covid-19, a bicampeã dos 100 metros rasos criou a SeMexeTX, um grupo de incentivo à prática de exercícios para transplantados e candidatos ao transplante.

"Como todo mundo estava em casa, comecei a treinar em casa também. Criei um canal no YouTube e gravei exercícios usando materiais simples, como garrafas de água, cabos de vassoura e bolinhas. Foi o que deu sentido à minha pandemia. Toda noite eu planejava o treino do dia seguinte, gravava e publicava", contou.

"Depois começaram a surgir dúvidas nos comentários. Criei um grupo de WhatsApp para responder às pessoas e, aos poucos, ele foi crescendo. Em seguida veio o Instagram. Tudo aconteceu de forma muito orgânica. Durante a pandemia, fazíamos desafios para manter todos motivados. Depois, começaram a chegar relatos de melhora em exames e na qualidade de vida. Hoje, já realizamos encontros presenciais em cidades como São Paulo e Rio de Janeiro. As pessoas se reúnem para caminhar, trocar experiências, tirar dúvidas e compartilhar vivências", acrescentou.

 

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Em busca de mais espaço

Para ampliar ainda mais o calendário de competições, será realizada neste ano a primeira edição dos Jogos Pan-Americanos para Transplantados. O evento acontecerá entre os dias 21 e 25 de outubro de 2026, em Maldonado, no Uruguai.

A expectativa é de que o torneio reúna um número menor de atletas em comparação com os Jogos, mas, ainda assim, representa uma oportunidade importante para quem sonha em construir uma trajetória no esporte.

“Para nós, atletas, essas competições vão além da divulgação da doação de órgãos: elas ajudam a construir resultados e histórico para buscar apoios e incentivos. O calendário também está ficando mais consistente, com eventos como o Pan-Americano neste ano e o Mundial da Bélgica no próximo. Ter ao menos uma grande competição por ano é fundamental para manter projetos esportivos. Ainda assim, a consolidação desse cenário depende do sucesso dos eventos e de uma estrutura que hoje ainda é sustentada pelo esforço de poucas pessoas. Há potencial de crescimento, mas é cedo para garantir essa continuidade”, afirmou Ramon Lima, transplantado renal.

O Brasil ainda não recebeu nenhum campeonato internacional voltado a transplantados. Até hoje, sediou apenas torneios nacionais, que ainda estão longe da dimensão dos Jogos Mundiais ou mesmo do recém-criado Pan-Americano.

“Ainda há um pouco de briga de egos no Brasil. Temos grandes instituições atuando na área, mas muitas vezes falta uma conversa mais próxima em torno de um projeto comum. Um evento como esse precisa ser construído a muitas mãos, com cada um cedendo um pouco para que o objetivo maior aconteça. Por isso, acredito que seja algo de longo prazo. Não por falta de estrutura, mas por falta de diálogo entre as instituições e de uma disposição maior para pensar no legado que um evento desses deixaria para o país, independentemente de quem ganharia mais visibilidade”, analisou Ramon.

Mostrar o poder do transplante ao lado da família em seu país natal é um desejo antigo de Cornelis, mas o presidente da Ligatxbr reconhece que esse objetivo ainda está distante de se tornar realidade.

“Seria um sonho receber um Mundial de Transplantados no Brasil, porque temos potencial para isso. Mas, na minha visão, ainda precisamos fortalecer o esporte para transplantados e ampliar essa estrutura antes de pensar em sediar um evento dessa dimensão. Não vejo isso acontecendo em breve, mas é algo possível no futuro”, completou.

Atletas brasileiros nos Jogos Mundiais (Foto: divulgação)

Transplante de órgãos no Brasil

Segundo dados do Registro Brasileiro de Transplantes (RBT+), o Brasil contabilizou 353.205 transplantes entre 2015 e 2026. Em 2025, o país registrou um recorde de procedimentos, com 35.738 transplantes realizados.

Apesar do avanço, a lista de espera ainda é extensa. Em 2026, 10.829 pessoas aguardavam por um órgão ou tecido, segundo os dados parciais mais recentes. Ao todo, entre 2015 e 2026, o RBT+ contabilizou 461.999 inscrições em listas de transplante.

Para conscientizar a população sobre a importância da doação de órgãos, o Brasil celebra, em 27 de setembro, o Dia Nacional da Doação de Órgãos. A data foi instituída pela Lei nº 11.584, sancionada em 28 de novembro de 2007.

O dia tem um significado especial para quem redescobriu o valor da vida após um transplante. Não por acaso, Cornelis costuma celebrar dois merecidos aniversários por ano.

“Eu costumo dizer que tenho duas datas importantes: o dia em que nasci e o dia em que renasci, que foi o dia do transplante. É uma data que a gente comemora porque tem um significado muito especial. O transplante não muda quem a gente é, continuamos tendo dias bons e ruins. Mas, depois de passar por um processo de adoecimento e perder coisas simples da rotina, passamos a valorizá-las muito mais. Quando o transplante devolve essa autonomia e a possibilidade de viver com qualidade, você ganha uma nova perspectiva sobre a vida”, finalizou.

Cornelis celebra ao completar uma prova (Foto: arquivo pessoal)

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