O segredo do sucesso britânico

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O segredo do sucesso britânico

Depois de terminar as Olimpíadas de Atlanta, em 1996, com apenas um ouro, o Reino Unido traçou um plano ousado e criou uma agência governamental para reerguer o esporte de alto rendimento. Agora, com a nação consolidada como uma potência olímpica, a diretora desse órgão explica os segredos da volta por cima e projeta a vinda ao Brasil para o Congresso Olímpico

Marcelo Baseggio e Lorenzo Meyer* - São Paulo, SP 21 de março de 2019 08:00:41
 

De Atenas 2004 ao Rio 2016, o Reino Unido duplicou o número de medalhas conquistadas nos Jogos Olímpicos e se tornou uma das nações protagonistas do esporte mundial, batendo de frente com potências como Rússia, China e Estados Unidos. Para conseguir tal feito, o Estado soberano, formado por Inglaterra, Irlanda do Norte, Escócia e País de Gales, idealizou uma agência governamental especializada no setor.

Criado em 1997, um ano após o Reino Unido fechar a Olimpíada de Atlanta com apenas um ouro, o UK Sport é responsável por investir e gerir o esporte britânico de alto rendimento e, desde então, o desempenho do país cresceu de forma substancial, saltando de apenas uma medalha dourada em 1996 para 29 em 2012, resultado que coroou o trabalho do órgão nacional com um honroso terceiro lugar no evento realizado “dentro de casa”, em Londres.

Uma das peças responsáveis por fazer a engrenagem do UK Sport funcionar de maneira tão bem-sucedida, Chelsea Warr entrou para a agência em 2005 e participou diretamente do surgimento de revelações como Helen Glover (bicampeão olímpica de remo), Tom Daley (campeão mundial de salto ornamental, aos 15 anos), e Lizzy Yarnold (dona de duas medalhas de ouro no skeleton dos Jogos Olímpicos de Inverno).

Mestre na arte de garimpar talentos, Warr foi aos poucos crescendo dentro da instituição até assumir o cargo de diretora de desempenho em 2016, após a fantástica performance do Reino Unido no Rio de Janeiro, onde levou 67 medalhas, superando Londres 2012.

“Um dos momentos de maior orgulho na transformação do sistema de esporte de alto rendimento do Reino Unido foi sermos o primeiro país em Jogos Olímpicos e Paralímpicos na era moderna a aumentar o número de medalhas conquistadas depois de sediar os Jogos (Londres 2012).

Em entrevista exclusiva à Gazeta Esportiva, a “chefona” do esporte britânico, que estará no Congresso Olímpico Brasileiro, no dia 13 de abril, no WTC, expôs os segredos para o Estado soberano, dono de um território menor que o de São Paulo, se tornar protagonista do esporte mundial em menos de duas décadas, ou cinco ciclos olímpicos.

Gazeta Esportiva: O que você faz para reter os seus principais treinadores e líderes?

Chelsea Warr: “Investimento contínuo bem antes dos Jogos, de forma a poder ter pessoal chave à disposição com antecedência.”

Chelsea Warr iniciou sua trajetória no UK Sport em 2005 (Foto: Divulgação/UK Sport)

Gazeta Esportiva: Quais foram as três medidas fundamentais para o time britânico superar o desempenho de Londres 2012 no Rio 2016? 

Chelsea Warr: “Primeira: Rapidamente, após os Jogos de Londres, o UK Sport definiu um plano que denominamos “BHAG” – Big Hairy Audacious Goal (Meta Audaciosa de Alto Risco) para que o sistema fosse capaz de conquistar pelo menos 66 medalhas olímpicas e 121 paralímpicas. Nos dedicamos a isto com seriedade para reconfigurarmos o sistema, manter as pessoas motivadas e cheias de ambição em relação às possibilidades futuras – e fazê-los saber que acreditamos neles, e que poderíamos nos esforçar para sermos ainda melhores. Tenho orgulho de poder afirmar que o nosso sistema de alto desempenho cresce diante de grandes metas assustadoras, metas que nos pedem que encontremos alguma coisa a mais, desde que seja algo que nos una e nos motive a ser ainda melhores.”

“Segunda: Investimento constante baseado em um plano estratégico confiável – graças à loteria nacional e ao nosso governo que confiaram nos nossos planos estratégicos (elaborados bem antes dos Jogos do Rio) para o futuro, e na nossa tradição de cumprir promessas, e assim mantiveram nosso financiamento.”

“Terceira: Uma trajetória de 8 anos – investimos em uma trajetória de 8 anos, na qual cerca de 60% do nosso financiamento é direcionado aos atletas que podem vencer nos próximos 4 anos, e 40% aos que poderão vencer em 8 anos (período de 2 ciclos). Nós sabíamos que uma nova geração de atletas na qual havíamos investido sistematicamente estava chegando desenvolvida durante mais de 8 anos antes dos Jogos do Rio, de forma que essa nova leva tinha potencial para realizar algo de muito especial. Ainda assim os atletas precisam render quando necessário, e graças à pericia de nossos treinadores, líderes de desempenho, pessoal de apoio e ao nosso Comitê de Especialistas Olímpicos e Paralímpicos que cuidam dos resultados após o período dos Jogos, nossos atletas produziram quando era necessário, e, na verdade, conseguiram o segundo mais alto índice de conversão, perdendo apenas para os Estados Unidos.”

Um dos atletas revelados com a ajuda de Warr, Tom Daley foi campeão mundial de salto ornamental com 15 anos (Foto: Divulgação/UK Sport)

Como funciona o suporte aos atletas de esportes menos populares, que não contam com patrocínios ou outro tipo de apoio da iniciativa privada?

Chelsea Warr: “Nossa experiência nos diz que é o sucesso coletivo – e não necessariamente o sucesso em esportes individuais – que atrai e inspira mais o público. Possuir um ampla gama de esportes que alcançam um amplo espectro de populações em termos de etnias, esportes olímpicos e paralímpicos, esportes urbanos vs esportes tradicionais, de equipe, individuais, de resistência, velocidade, acrobáticos, jovens e seniores entre outros. Ter um portfólio de esportes que podem ser apresentados vencendo (é preciso que estejam vencendo para poder inspirar!) capazes, por sua vez, de gerar uma conexão com um público mais amplo – alguma coisa que entusiasme a todos. No Rio, conquistamos mais medalhas em mais esportes, e mais medalhas de ouro em mais esportes do que qualquer outro país. Acreditamos que isso permitiu que uma parte maior da população se inspirasse e se conectasse com que fazemos.”

Em que consiste o sistema montado pelo UK Sport para chegar a um nível altíssimo de desempenho e, mais do que isso, manter esse nível durante diferentes ciclos olímpicos?

Chelsea Warr: “Conceber uma visão clara, baseada e fatos reais e atraente que descreva ‘até onde poderíamos chegar’, uma visão que ao mesmo tempo entusiasme e ofereça desafios ao sistema/esportes/atletas que desejam participar, além de um conjunto claro de princípios que orientem o desenvolvimento de nossa estratégia de alto desempenho e que terá grande influência sobre todas as decisões críticas que precisaremos tomar ao longo do tempo. É o ponto de referência do sistema.”

“Capacidade em termos de WITTW, tanto nos órgãos estratégicos nacionais quanto no nível do esporte/treinador. Direcionar todos os recursos aos que são mais capazes de resultados de acordo com os modelos WITTW no futuro – e não no passado. Não se trata de ser popular. Trata-se de fazer o que é certo para permitir que aqueles que apresentam o maior potencial, num mundo onde não existem recursos infinitos, tenham a melhor oportunidade de brilhar. Ser transparente na forma pela qual isto é feito tanto no sistema nacional quanto em termos de esporte.”

Helen Glover, ao centro, é bicampeão olímpica de remo (Foto: AFP)

“Traduzir esta visão em uma estratégia clara, em objetivos, considerando quais serão as ações e as táticas a serem implementadas e, da mesma forma, definindo claramente aquilo que não faz parte dos objetivos a serem alcançados, e porquê. Você não poderá ter um sistema de alto desempenho bem-sucedido sem atletas e treinadores excepcionalmente talentosos. Investir proativamente em encontrá-los e desenvolvê-los – deliberadamente e não por acaso. Recrutar, desenvolver e recompensar os melhores, pessoas pautadas pelos valores para que alcancem resultados no nível estratégico nacional e do esporte. Essas pessoas precisam ter uma mentalidade de crescimento.”

“Encorajar a inovação e o aprendizado para manter a excelência e desenvolver novos líderes. Assumir riscos calculados e experimentar sem perder tempo. Aprender fazendo e não teorizando. Manter os atletas e suas ambições no coração do sistema. Pensar no longo prazo e garantir investimento continuo de longo prazo que permita que os atletas que daqui a 4 e 8 anos irão subir ao pódio, sejam desenvolvidos de forma holística, se mantenham firmes no objetivo de se tornarem os melhores do mundo. Desenvolver atletas capazes de conquistar medalhas exige tempo e compromisso contínuo.”

Citando as palavras mais do que apropriadas de Frank Dick, famoso treinador britânico de atletismo que resumem bem o ponto em que o Reino Unido se encontra neste momento: ‘Nossa luta para chegar ao topo é árdua. Uma vez alcançado, tudo se torna ainda mais difícil porque o objetivo não é permanecer ali, mas sim subir ainda mais. Os adversários acham que o desempenho que deve ser batido é o que nos permitiu chegar até lá. Mas não é. Precisamos definir um novo nível de excelência, e então, ir além dele’

Gazeta Esportiva: Quantas milhões de libras são gastas anualmente para sustentar todo esse projeto esportivo de alto rendimento?

Chelsea Warr: “O investimento total atual é de 550 milhões ao longo de um ciclo de 4 anos, mas este valor cobre também os grandes eventos, nossos institutos do esporte, nosso departamento de influência internacional, etc. O valor dos recursos direcionados ao esporte é de cerca de 490 milhões ao longo de um período de 4 anos.”

Lizzy Arnold conquistou o bicampeonato olímpico de skeleton em Pyeong Chang, nas Olimpíadas de Inverno de 2018 (Foto: AFP)

Gazeta Esportiva: Contratar técnicos estrangeiros que são considerados referência em suas respectivas modalidades foi um plano para o Brasil conseguir bons resultados a curto prazo no Rio 2016. O que você pensa sobre essa estratégia e sobre a demissão de vários desses profissionais após o fim das Olimpíadas?

Chelsea Warr: “Logo no início do sistema de alto desempenho do Reino Unido trouxemos muitos treinadores estrangeiros que possuíam especialização técnica de classe mundial em vários esportes, uma vez que estava claro que não estávamos acompanhando o ritmo mundial e precisávamos progredir rapidamente. Mas sabíamos também que o futuro não era este. Muitos dos treinadores estrangeiros foram altamente eficientes em nos ajudar a desenvolver modelos técnicos aperfeiçoados de desenvolvimento, especialmente em esportes de lutas e acrobáticos. Embora do ponto de vista técnico grandes avanços de desempenho tenham ocorrido, do ponto de vista cultural, desafios e conflitos ocorreram com frequência.  Simultaneamente, o UK Sport lançou uma ampla gama de programas que visavam o desenvolvimento de treinadores de esportes de alto desempenho para fortalecer um novo quadro de treinadores britânicos de alto desempenho em todos os nossos esportes. Em muitos casos, esses treinadores eram “aprendizes” dos treinadores estrangeiros até que adquirissem o conhecimento necessário e, desde então, muitos foram promovidos a treinadores de seleções, e atuaram com muitos dos nossos medalhistas no Rio.”

Dentre todos as nossas conquistas no Rio, eu diria que assistir os treinadores britânicos atuando de forma tão calma, eficiente e habilidosa nas arenas cariocas, sempre sob pressão, foi um dos momentos em que senti maior orgulho. Como em qualquer empreendimento comercial bem-sucedido, planejar a sucessão, desenvolvendo os futuros treinadores, profissionais especializados e líderes de desempenho constitui parte integrante do sistema de alto desempenho do Reino Unido.

*Especial para a Gazeta Esportiva

 

 

 

 

 

Publicado em 21 de março de 2019 08:00:41

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