O Império das Tailandesas

Alta dos preços transforma camisas de futebol em artigos de luxo e abre espaço para a pirataria

Por Rodrigo Matuck
São Paulo
10/03/2026 20:55:04

O futebol ganhou um novo fenômeno nos últimos anos. E ele vem ocupando cada vez mais espaço, não dentro das quatro linhas, mas fora delas. Nas arquibancadas, nos shoppings e nas ruas, é difícil não se deparar com as famosas camisas "tailandesas", que conquistaram torcedores de diferentes perfis e se tornaram presença constante no dia a dia.

O termo ganhou destaque nos últimos anos e se refere a camisetas de futebol falsificadas. São réplicas produzidas por fornecedores independentes, muitas vezes oriundas de fábricas da Ásia, especialmente da China. As "tailandesas" costumam ser muito parecidas com as originais, apresentam qualidade considerada boa e têm preço bem mais baixo que o das versões oficiais.

O mercado tem ganhado força no Brasil, seja em lojas físicas ou na internet. Basta dar uma volta pelo centro de São Paulo para encontrar centenas de estabelecimentos comercializando camisas de futebol. O maior fluxo está concentrado no Brás, especialmente nos shoppings da região.

Os shoppings 25 Brás e Stunt, dois dos principais centros comerciais do bairro, estão repletos de lojas. São boxes e mais boxes, com araras lotadas de camisas “tailandesas”. Os lojistas expõem os modelos mais cobiçados do momento e não economizam nas promoções. Em média, as camisetas custam R$ 100. Em alguns casos, na compra de mais de uma peça, o valor cai para R$ 80 cada. Hoje, uma camisa original do Flamengo, que lidera o ranking das camisas mais caras dentre os 20 clubes da Série A, vale R$ 799,99, na versão jogador.

“As camisas são produzidas na China. Quando é de time brasileiro, nós enviamos uma original para os chineses e eles trabalham em cima dela. Quando é europeia, ela já vem direto de lá, com ‘made in Tailândia’, assim como as que vendem no shopping. É o mesmo padrão”, explica Jackson, dono de uma loja de camisas de futebol no centro de São Paulo.

O comerciante começou a surfar essa onda em 2022. Em setembro daquele ano, abriu a Fut Collection e, desde então, tem visto o público crescer a cada dia.

“A procura cresceu muito. Atendemos públicos de todas as classes sociais, desde pessoas com maior renda até consumidores de baixa renda. Tem muita gente que deixou de comprar nas lojas oficiais para comprar aqui. Às vezes, você lava a camisa original e o nome ou o número descolam. Nas nossas, isso não acontece”, afirma Jackson.

Foto: Rodrigo Matuck

Números em ascensão

Em 2025, mais de 225 milhões de artigos esportivos falsificados foram consumidos no país, um crescimento de 30% em comparação com 2023, quando foram registradas 173,4 milhões de unidades comercializadas, segundo levantamento realizado pela Ápice (Associação pela Indústria e Comércio Esportivo) em parceria com o Instituto de Estudos e Marketing Industrial (IEMI).

Segundo o estudo, os produtos piratas representam 34% de todo o consumo de artigos esportivos no Brasil. No total, o mercado movimentou aproximadamente 650 milhões de itens no ano passado, considerando produtos originais e falsificados.

O volume de consumo chama atenção: em média, cerca de 450 artigos esportivos piratas são adquiridos por minuto no país.

As camisas de futebol estão entre os itens mais presentes no mercado ilegal. Em 2025, foram consumidas 18,1 milhões de unidades falsificadas, volume que corresponde a quase 30% de todas as camisas esportivas comercializadas no Brasil.

Não à toa, Jackson viu o faturamento do negócio crescer nos últimos anos. Segundo ele, a demanda cada vez maior por camisas "tailandesas" permitiu que a loja se tornasse sua principal fonte de renda.

“Hoje, consigo me sustentar e garantir o sustento de outras dez famílias”, afirma o lojista.

Foto: Rodrigo Matuck

Sucesso para alguns, desespero para outros

Do outro lado da história, as grandes marcas buscam soluções para combater a pirataria. O avanço desse mercado gerou uma perda potencial estimada em R$ 31,8 bilhões para o setor formal de artigos esportivos em 2025. Além do impacto sobre as empresas, a prática resultou em uma perda de aproximadamente R$ 7,4 bilhões em arrecadação tributária, segundo a Ápice.

Por trás desses números, há uma série de fatores que preocupam as companhias. Para Lucas Barillari, diretor de Sports Marketing da adidas no Brasil, os prejuízos causados pela pirataria vão muito além das perdas comerciais.

“Isso impacta todo o ecossistema, desde a produção até a rastreabilidade do material. Todos os nossos produtos são sustentáveis e produzidos da maneira correta. Temos a preocupação de que o local onde são produzidos seja adequado e de que as pessoas que recebem um salário para produzir nosso produto recebam uma remuneração adequada. Tudo isso se perde quando se vai para esse mercado informal”, afirma.

“Outro ponto é que quem compra o produto pirata não está ajudando necessariamente o próprio time do qual supostamente é torcedor. Porque, além de todos os custos de produção de uma camisa, há todos os investimentos da marca com o clube, pagamento de royalties, desenvolvimento de produto e tecnologia. No fim, esse mercado não se reabastece”, completa.

Na visão da New Balance, a pirataria gera concorrência desleal e reduz a arrecadação de impostos que retornam para a sociedade. A marca também destaca que esse mercado traz um “custo invisível e preocupante”.

“Produtos falsificados não passam por nenhum controle de qualidade, governança ou auditoria de conformidade. Frequentemente, a produção desse mercado informal está atrelada à exploração de mão de obra precarizada, infantil ou análoga à escravidão, além do desrespeito total às normas ambientais e trabalhistas internacionais, práticas totalmente opostas aos valores de sustentabilidade e responsabilidade social da New Balance”, salienta Ana Clara Ride, gerente de produtos da New Balance.

Foto: Rodrigo Matuck

Rede de apoio

Para se protegerem, as marcas mantêm contato com organizações especializadas no combate a esse mercado paralelo. Atualmente, existem associações que atuam em apoio às empresas e aos órgãos públicos responsáveis por enfrentar esse tipo de crime.

Fundado em 2002, o Grupo de Proteção à Marca (BPG) faz a ponte entre as marcas e as autoridades. A principal atividade da associação é apoiar operações de apreensão de produtos falsificados e, sobretudo, promover treinamentos para agentes públicos em todo o país, por meio de eventos, seminários e workshops.

“Quando se associam ao BPG, as marcas nos informam quais são os principais problemas e como identificar produtos falsificados. A partir disso, realizamos treinamentos. Elas nos fornecem todas as orientações e também utilizam o BPG para participar dessas operações. Nós damos suporte técnico e atestamos a falsificação dos produtos”, explica Luiz Claudio Garé, consultor jurídico e de relações institucionais do BPG.

De um tempo para cá, a demanda por esse tipo de atuação “cresceu absurdamente”. Durante a Copa do Mundo, mais de 40 contêineres carregados exclusivamente com camisas falsificadas foram apreendidos. Os produtos reproduziam peças de diversos clubes, especialmente do futebol brasileiro. Mas a produção não se limita ao exterior. No Brasil, também existem polos de fabricação.

“O Brás é o principal polo, mas a região de Aparecida do Norte, especialmente a cidade de Potim, também concentra a fabricação de camisas falsificadas. Fizemos um trabalho de investigação para identificar as empresas envolvidas e ingressamos com ações judiciais para viabilizar as apreensões”, afirma Garé.

“Existem dois tipos de produtos. A chamada ‘tailandesa’, que vem da China e é importada de forma irregular, e as camisas de qualidade inferior fabricadas no Brasil. Houve uma proliferação de fábricas de produtos falsificados, especialmente de camisas de clubes brasileiros durante o período da Copa. Por isso, atuamos tanto junto às autoridades para combater a entrada dessas mercadorias no país quanto a fabricação, a distribuição e a comercialização”, completa.

A Ápice também atua nos bastidores para proteger as marcas esportivas. O trabalho envolve a elaboração de propostas legislativas, aprimoramentos regulatórios, decretos, normas infralegais e o diálogo permanente com autoridades responsáveis pelo combate à pirataria.

“A pirataria é extremamente prejudicial para o setor. Além de ocupar mais de um terço do mercado, afeta a competitividade das marcas legítimas e reduz a capacidade de investimento das empresas. Muitas vezes, o consumidor não percebe que quase metade do valor de uma camisa oficial corresponde à carga tributária incidente sobre o produto”, afirma Renato Jardim, diretor-executivo da associação.

“Quando analisamos a origem dos produtos, existem diferenças entre a pirataria produzida internamente e aquela importada. Grandes carregamentos internacionais podem ser monitorados com apoio da Receita Federal e de ações de inteligência. O principal desafio atualmente está nas pequenas encomendas internacionais, impulsionadas pelo comércio eletrônico. Hoje, chegam ao Brasil mais de 500 mil encomendas internacionais por dia. É impossível abrir e fiscalizar individualmente todos esses pacotes. Nesse fluxo, acabam circulando também produtos falsificados, o que torna o controle muito mais complexo”, acrescenta.

Por que a pirataria cresceu?

A procura por camisas falsificadas aumentou à medida que os preços das originais dispararam. Com a evolução dos materiais, da modelagem e das tecnologias empregadas pelas fabricantes, os valores também subiram. A Gazeta Esportiva realizou um levantamento dos preços praticados pelos 20 clubes da Série A do Campeonato Brasileiro em 2026 (CLIQUE AQUI e veja o ranking).

Considerando todos os modelos disponibilizados pelas equipes, incluindo versões jogador, torcedor, fã e estádio, o preço médio de uma camisa oficial é de R$ 469,39 no masculino e R$ 435,76 no feminino.

“A camisa original virou artigo de luxo. É muito cara. Em um país onde o salário mínimo gira em torno de R$ 1.600, como alguém vai pagar R$ 700 em uma camisa e ainda sustentar a casa? As pessoas têm contas para pagar. Hoje, a camisa oficial virou um produto para poucos. Nós ajudamos a popularizar esse mercado”, afirma Jackson.

“Quando comecei, as 'tailandesas' ainda não eram tão conhecidas. Agora, são vendidas o ano todo. Nós ajudamos a popularizar novamente as camisas de futebol. Antes, muita gente não conseguia comprar uma original por causa do preço. Um pai gastaria cerca de R$ 1.500 para levar uma para ele e outra para o filho. Hoje, compra duas por cerca de R$ 200. Isso aproximou novamente pais e crianças do futebol. Basta andar pela rua ou entrar em um shopping para ver quantas pessoas usam camisas de times”, completa o vendedor.

Foto: Divulgação

Em pesquisa realizada pela Gazeta Esportiva, 50% dos internautas afirmaram que pagariam, no máximo, R$ 350 por uma camisa original. Apenas 1,3% desembolsariam mais de R$ 700, valor praticado por Flamengo, Corinthians, Vasco e Atlético-MG, que lideram o ranking das camisas mais caras do país. Nesse cenário, 92,3% dos entrevistados disseram ser favoráveis à venda de camisas “tailandesas”.

Dono de uma coleção com cerca de 550 camisas de futebol, Matheus Souza não guarda nenhuma peça falsificada no acervo. O criador da página Ritmo das Camisas produz conteúdo sobre uniformes, analisando tanto lançamentos quanto modelos históricos. Em seus vídeos, explica o contexto de cada peça, os elementos presentes no design e o significado que a camisa carrega para a torcida e para a história dos clubes.

Apesar de não ter interesse em manter camisas piratas na coleção, Matheus diz compreender quem recorre ao mercado paralelo para adquirir uniformes.

“Colecionar camisas originais é um hobby caro. Eu vejo a camisa de futebol como um símbolo de pertencimento. É a forma de a pessoa demonstrar a conexão com seu clube, com sua família, com sua comunidade. Por isso, jamais julgaria alguém que recorre a uma alternativa mais barata porque não consegue pagar por uma camisa oficial”, relata.

“Não diria que uma camisa original é exatamente um artigo de luxo, porque acho que essa expressão é forte. Mas certamente é um produto caro e distante do poder de compra de grande parte da população brasileira. Hoje os clubes têm mais uniformes. Em alguns casos, um time termina a temporada com oito camisas diferentes. Isso torna o universo ainda mais difícil de acompanhar para quem gosta de colecionar. Além disso, existem modelos de jogador que chegam a custar cerca de R$ 800. Portanto, embora eu não use a palavra ‘luxo’, sem dúvida é um item caro e pouco acessível para boa parte dos torcedores brasileiros”, completa.

Matheus tem cerca de 550 camisas de futebol (Foto: arquivo pessoal)

Por que os preços subiram?

Por trás dos altos preços praticados pelas grandes empresas nas camisas de futebol, há uma série de fatores. Para o diretor de Sports Marketing da adidas no Brasil, essa é uma realidade do mercado.

“Boa parte dos nossos produtos e das nossas matérias-primas sofrem impacto da inflação e do câmbio. Então, economicamente, há esse impacto. A adidas tem uma preocupação muito grande em oferecer materiais sustentáveis e garantir que eles sejam produzidos nos locais corretos. Além disso, há uma série de testes de qualidade e operações dentro da cadeia produtiva para garantir a qualidade e a entrega, fatores que elevam o preço do produto. A adidas se preocupa em garantir os empregos das pessoas e que elas recebam seus salários corretamente, e tudo isso acaba impactando o produto que entregamos”, justifica Lucas Barillari.

“Não é simplesmente a marca querendo cobrar o que quer cobrar ou o que acha que o consumidor deveria pagar. Trata-se muito mais de toda essa cadeia, que resulta em uma precificação alinhada ao que o mercado pratica", completa.

Na visão de Ana Clara Ride, representante da New Balance, o valor de uma camisa oficial reflete uma complexa cadeia de valor, tecnologia e responsabilidade corporativa:

- Matéria-prima e infraestrutura: registrou-se um aumento significativo no custo da matéria-prima nacional e nos custos logísticos e de produção nos últimos anos.
- Tecnologia e inovação: as peças oficiais utilizam tecidos de alta performance, tecnologia de absorção de suor, tecelagem especial e acabamentos de alta durabilidade para atender aos padrões do futebol profissional.
- Royalties e parceria com os clubes: uma parcela expressiva do valor arrecadado com a venda de cada camisa original é destinada diretamente aos clubes em forma de royalties. Esse valor é fundamental para o financiamento do esporte, contratação de atletas e manutenção das estruturas dos times.
- Cadeia de varejo e empregos: o preço também contempla as margens da rede distribuidora e lojistas, setor que gera milhares de empregos diretos e indiretos no país.
- Garantia e segurança ao consumidor: ao adquirir um produto original, o torcedor leva a garantia de um item seguro, durável e produzido sob rigorosos padrões éticos.

A Gazeta Esportiva também procurou a Nike e a Umbro, mas as marcas preferiram não se pronunciar sobre o tema. Já a Puma não respondeu ao contato até o momento da publicação desta matéria.

Pirataria é crime

Apesar de ter caído nas graças de boa parte da população, a comercialização de produtos falsificados é crime no Brasil. Desde 2003, a Lei nº 10.695 endurece as punições para a violação de direitos autorais e a venda de mercadorias piratas. A legislação prevê penas de até quatro anos de reclusão e multa para quem reproduz, distribui, vende, importa ou mantém em depósito produtos falsificados com fins lucrativos, além de estabelecer regras para apreensão e destruição das mercadorias.

“Quando alguém adquire um produto falsificado, há uma violação dos direitos do consumidor. O comprador é enganado sobre a origem do produto. Existe ainda a violação da Lei de Propriedade Industrial, já que a falsificação de marcas é crime. O Código de Defesa do Consumidor também considera crime a venda de produtos falsificados. Além disso, trata-se de uma atividade que não recolhe tributos nem segue as normas legais de comércio. É uma cadeia marcada por diversas irregularidades”, aponta Flávio Meirelles, diretor executivo do Grupo Meirelles IPC, escritório de advocacia especializado em combate à pirataria.

Para o membro do Conselho Nacional de Combate à Pirataria, do Ministério da Justiça, inclusive, o comércio de produtos falsificados vai além dos prejuízos causados às marcas e frequentemente alimenta financeiramente organizações criminosas.

“Hoje, organizações criminosas também atuam nesse segmento e se fortalecem financeiramente por meio do comércio ilegal de produtos, incluindo camisas de futebol. Os recursos obtidos com essa atividade ajudam a financiar outros crimes, como o tráfico de drogas, o comércio ilegal de armas e diversas práticas que representam riscos à sociedade. A pirataria, portanto, não é um crime isolado, mas parte de uma cadeia criminosa mais ampla”, afirma.

 

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Linha de frente

Em São Paulo, o combate à pirataria tem à frente a 1ª Delegacia de Investigações Gerais (DIG), unidade vinculada ao Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic). O órgão tem uma relação próxima e um canal de comunicação constante com clubes e marcas.

“Nossa atuação é planejada. Dependendo do tamanho do alvo e da estrutura necessária, organizamos uma operação com a quantidade adequada de policiais e recursos. Em regra, nos apresentamos ao responsável pelo estabelecimento e realizamos uma inspeção na loja. Quando se trata de um local fechado, solicitamos um mandado judicial e, após sua concessão, executamos a diligência para apreender os produtos e retirá-los de circulação”, explica o delegado Wagner Carrasco.

“Com a Lei Geral do Esporte, tornou-se possível a prisão em flagrante de indivíduos que comercializam, produzem ou expõem à venda produtos piratas relacionados a organizações esportivas. Após a prisão, pode ser arbitrada fiança na própria delegacia. Se ela for paga, o investigado responde ao processo em liberdade, mas permanece sujeito às consequências legais e a eventual condenação futura”, completa.

Foto: Divulgação

Já os produtos apreendidos são submetidos à apreciação do Poder Judiciário, que define sua destinação. A determinação, em geral, é para que as mercadorias sejam destruídas e seja lavrado um auto de destruição, que depois é encaminhado à Justiça para documentar a eliminação do material.

“A pirataria é um problema de enorme dimensão. Trabalhamos diariamente realizando diligências e apreensões, mas a demanda é muito grande. Existe muito trabalho sendo realizado. Dependendo do produto pirateado, trata-se de crime de ação penal privada. Nesses casos, a polícia não pode agir de ofício e precisa ser formalmente provocada. Portanto, o cenário é mais complexo do que parece. A demanda é enorme e os recursos são limitados. Por isso, adotamos estratégias como operações em fábricas e depósitos. Nesses locais conseguimos retirar uma quantidade muito maior de produtos do mercado. O esforço operacional é semelhante ao de uma ação em loja, mas o resultado costuma ser muito mais expressivo”, diz Wagner.

O comércio online e seus desafios

Os canais digitais ganharam protagonismo na comercialização de produtos falsificados. Em 2025, 44% do consumo de artigos esportivos piratas ocorreu pela internet, ante 37% registrados em 2023, segundo a Ápice.

Diante dessa tendência, projeta-se que, já em 2026, o ambiente digital se torne o principal canal de distribuição de produtos piratas no mercado brasileiro.

Embora o varejo físico, incluindo ambulantes e estabelecimentos informais, ainda concentre a maior parcela das vendas de itens falsificados, sua participação recuou de 63% em 2023 para 56% em 2025.

“O ambiente digital potencializou fortemente a comercialização desses produtos. Uma pessoa que antes precisava se deslocar até centros comerciais para adquirir um produto falsificado agora pode comprar pela internet em qualquer lugar do Brasil. Consumidores de pequenas cidades, que antes não tinham acesso a esse mercado, hoje conseguem encontrar esses produtos com poucos cliques”, conta Renato Jardim.

Mecanismos de defesa

Para ajudar no combate à pirataria no comércio eletrônico, Flávio Meirelles também atua como sócio de Relações Institucionais e de Mercado da Offertech. A empresa é especializada na identificação de ofertas ilegais na internet e na denúncia dessas publicações às plataformas digitais.

Em parceria com marketplaces e redes sociais, a Offertech monitora anúncios suspeitos e atua na remoção de links, publicações e perfis envolvidos na venda de produtos falsificados. Durante a Copa do Mundo, mais de 603 mil links com ofertas ilegais foram retirados do ar na América Latina. No caso dos clubes brasileiros atendidos pela empresa, cerca de 127 mil anúncios foram removidos.

“Todo esse processo é realizado com apoio de inteligência artificial e sistemas automatizados capazes de identificar e remover rapidamente conteúdos irregulares. Isso impede a comercialização de milhões de produtos falsificados e reduz significativamente os prejuízos para clubes, marcas, patrocinadores, consumidores e para o próprio Estado”, conta o diretor executivo do Grupo Meirelles IPC.

“O mercado online facilitou a vida da criminalidade, a vida da bandidagem que vende produto falsificado. De todos os produtos. É muito fácil se cadastrar como vendedor na plataforma e vender. É um meio fácil de escoar o produto falsificado. Quem escoa o produto falsificado? Qualquer um! Você cria um ambiente onde qualquer um que queira fazer dinheiro extra pode se cadastrar no mercado online para vender produtos falsificados”, acrescenta Luiz Claudio Garé, da BPG.

O que esperar do Império das Tailandesas?

A compra de produtos piratas vem alcançando diferentes perfis de consumidores. Entre os principais fatores que impulsionam esse comportamento estão a percepção de vantagem econômica, a facilidade de acesso proporcionada pelo comércio eletrônico e o forte apelo de produtos associados ao futebol e à moda esportiva.

Na contramão, os órgãos públicos e as grandes marcas tentam frear essa ascensão. A missão não é fácil, especialmente com a popularização do mercado online. Em meio a esse cenário, há um movimento nos bastidores para buscar uma regulação. A BPG apresentou uma proposta legislativa de regularização das plataformas de e-commerce, para que eles criem mecanismos para impedir a oferta de produtos falsificados, sob pena de serem responsabilizados.

“Estamos falando de um país de dimensões continentais, onde os órgãos de fiscalização muitas vezes não têm estrutura suficiente para acompanhar a dimensão do problema. Em alguns estados conseguimos desenvolver um trabalho mais efetivo, mas, no fim das contas, dependemos da atuação das autoridades. Para que o combate à pirataria avance, é necessária uma mudança na legislação. Hoje, quem vende produtos falsificados não sente que está correndo riscos. Se não houver punições mais severas e efetivas, a tendência é que essa atividade continue crescendo”, afirma Luiz Claudio Garé.

“Como explicar a existência de centros comerciais com mais de 1.500 lojas comercializando produtos falsificados? São Paulo, inclusive, já apresentou resultados melhores nesse enfrentamento. A Prefeitura tem poder de fiscalização e apreensão, e houve gestões anteriores que realizaram operações importantes, chegando a fechar diversos centros de comércio irregular. Em determinados períodos, vimos uma atuação mais firme do poder público. Atualmente, porém, o combate à pirataria deixou de ser prioridade e não vemos ações efetivas nessa área”, completa.

Os donos de lojas, por sua vez, tentam se adaptar ao cenário e seguir aproveitando a demanda. Jackson afirma trabalhar sem receio no centro de São Paulo e garante que sua atividade é regularmente tributada, com o pagamento mensal de valores consideráveis em impostos ao governo.

“Todo mês chegam valores de R$ 7 mil ou R$ 8 mil em impostos, e eles são pagos. A movimentação bancária entra na conta e a tributação acontece automaticamente. A gente vai se adaptando e trabalhando. Já aconteceu de eu perder camisetas, mas faz parte do jogo”, finaliza, otimista de que o mercado seguirá ganhando força entre os torcedores que buscam carregar as cores do seu clube.

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