Nos acréscimos e sem impedimento

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Nos acréscimos e sem impedimento

Em fim de carreira, Marcelo Aparecido cita “teoria da conspiração”, reprova postura do Palmeiras e vê lado bom por fama

Bruno Ceccon e Guilherme Camarda* - São Paulo, SP 7 de agosto de 2020 12:00:05
 

Com a franqueza de quem vive os últimos meses de sua carreira, Marcelo Aparecido de Souza concedeu longa entrevista à Gazeta Esportiva na semana de um novo Derby decisivo pelo Campeonato Paulista. Pivô da confusão que marcou a final de 2018, o árbitro vê a fama adquirida desde então de maneira positiva e reprova a postura adotada pelo Palmeiras à época.

Com a chance de jogar pelo empate para ser campeão, o Palmeiras teve um pênalti anulado por Marcelo Aparecido no segundo tempo da final contra o Corinthians e acabou com o vice no Allianz Parque. Revoltado, Maurício Galiotte chamou o torneio de “Paulistinha”, rompeu com a Federação Paulista de Futebol (FPF) e levou o caso ao Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD), sem sucesso.

Marcelo Aparecido vê a acusação de interferência externa como “teoria da conspiração”, mas reconhece a falha no procedimento que culminou com a anulação do pênalti após quase sete minutos e reprova a postura do Palmeiras. “Para que não tivessem o ódio revertido a eles, transferiram o ódio ao árbitro, o elo mais fraco”, disse o juiz, ameaçado de morte em 2018.

Após superar a idade limite para atuar na FPF, Marcelo Aparecido passou a trabalhar na Federação Paraibana de Futebol no começo de 2019. Aos 47 anos, com planos de encerrar a carreira como árbitro no fim desta temporada, ele entende que a final de 2018 foi decisiva para a adoção do VAR e descreve a fama adquirida desde então como “o lado bom” da confusão que marcou a própria trajetória.

Gazeta Esportiva – Você acabou sendo um dos protagonistas da última decisão de Campeonato Paulista entre Palmeiras e Corinthians. Hoje, mais de dois anos depois, como avalia seu desempenho naquela final?
Marcelo Aparecido – Infelizmente, a gente adotou um procedimento que não foi o melhor. Houve uma demora de cerca de sete minutos para fazer a correção de um erro que eu cometi e aquilo ficou marcado. Criaram uma teoria da conspiração de que ocorreu interferência externa e acabou ficando essa imagem, mas isso já foi superado. Estou tranquilo, porque o pessoal conhece a minha idoneidade, sabe quem sou. Trabalhei durante 20 anos na Federação Paulista de Futebol e nunca tive veto de clube algum. Sempre fui muito respeitado, tanto é que apitei a semifinal do Paulista de 2018 entre Palmeiras e Santos e segui para a decisão sem qualquer tipo de problema.

Gazeta Esportiva – Você citou os sete minutos para enfim tomar uma decisão final sobre o lance envolvendo Ralf e Dudu dentro da área do Corinthians. Como justifica essa demora?
Marcelo Aparecido – Foi um lance foi muito rápido e difícil, porque, em toda nossa experiência, o que tomamos como base? A bola, se há mudança de direção da bola. Naquela jogada, como o Ralf toca sutilmente na bola, ela muda muito pouco a velocidade e a direção e não consigo perceber. Só vi depois o choque com o atleta do Palmeiras. Eu tinha total controle da partida e, assim que marquei a infração, percebi, pela reação dos jogadores, que havia cometido um equívoco. Então, pensei: ‘Cometido o equívoco, vamos seguir em frente’. Só que o meu quarto árbitro (Adriano de Assis Miranda) passou a informação de que a bola havia sido tocada antes (por Ralf). Como a acústica do Allianz é sensacional, por conta do barulho da torcida, não conseguia ouvi-lo (pelo fone). Eram mais de 40 mil torcedores palmeirenses, com um lance capital a favor. Eles comemoraram, gritaram e eu não conseguia escutar (o quarto árbitro). Só consegui depois que a torcida começou a se acalmar e da reclamação dos jogadores do Corinthians.

Gazeta Esportiva – O Palmeiras entende que houve interferência externa. Houve ou não? Baseado em que você tomou a decisão de anular a marcação do pênalti?
Marcelo Aparecido – Não houve interferência externa. Para você ter uma ideia, se a gente quisesse agir de má-fé, um dos nossos assistentes tinha um relógio que recebia informações e tudo mais. Se fosse (para agir de má-fé), seria muito fácil receber uma informação: se está impedido ou não, se foi gol ou não. Então, não ocorreu nenhum tipo de interferência. Nós estamos ao telefone agora. Com mil pessoas aqui falando ao mesmo tempo, você não conseguiria ouvir o que eu digo. Foi o que aconteceu no Allianz Parque. Depois que acalmou aquela euforia, consegui escutar que alguém estava querendo passar uma informação. Quando o quarto árbitro conseguiu chegar até mim, disse, claramente: “Marcelo, ele (Ralf) toca na bola antes, mas a decisão é sua”. Tenho muita experiência e humildade para reconhecer que poderia estar errado. E percebi, por tudo que acontecia na partida, que realmente havia cometido esse equívoco.

Gazeta Esportiva – O Palmeiras, principalmente por meio do presidente Maurício Galiotte, reclamou asperamente após a final. Como você avalia a postura do clube?
Marcelo Aparecido – As pessoas gostam de transferir a responsabilidade, entendeu? Às vezes, a gente é incompetente em alguma coisa e queremos passar que a incompetência não é nossa. Se eu não estou bem, se eu não obtive meu resultado, não é culpa minha, mas sim de outra pessoa. Na verdade, a gente sabe que não é assim. O Palmeiras tinha uma equipe muito mais favorita que o Corinthians, venceu a primeira partida e a festa estava toda programada para acontecer no Allianz Parque. Mas o futebol é apaixonante por causa disso: nem sempre o melhor vence. Sofreram um gol com um minuto e tiveram todo o jogo para buscar o resultado. O que acabou acontecendo é que, com meu equívoco, dei a chance de eles poderem transferir a responsabilidade. Surgiu também a oportunidade de bater os pênaltis e vencer. Mesmo assim, também não foram competentes. Além disso, na marcação do pênalti, quem garante que seria convertido? Agora, eles recebem mais uma chance. A vida é boa por causa disso: ela dá outra chance.


Gazeta Esportiva – Você passou a conviver com ameaças após a final…
Marcelo Aparecido – Na verdade, antes mesmo da partida, todos que estavam envolvidos na final já estavam recebendo ameaças. Com o árbitro do primeiro jogo, foi a mesma coisa. Levantaram que familiares dele eram torcedores do time A ou B, entraram nas redes sociais, conseguiram o número de Whatsapp e encheram de ameaças. Comigo, não foi diferente. Levantaram todos os meus dados, das minhas empresas, praticamente toda a minha vida. Antes da partida, já estavam me ameaçando. A Internet deu voz a muitas pessoas que… Isso, não posso mudar. Então, temos que conviver e nos cuidar. A preocupação não era nem tanto comigo, mas sim com minha esposa e filhos, que não estão acostumados. Nós fazemos os jogos e estamos habituados a esse ambiente hostil. Já os familiares ficaram assustados.

Gazeta Esportiva – Você chegou a temer pela própria vida nesse período?
Marcelo Aparecido – Na verdade, eu não temi, porque tinha feito a coisa certa. Por mais que alguém seja imbecil, vamos dizer assim, sabe que, no fundo, a decisão foi correta. É que as pessoas gostam de transferir para os outros a culpa pelas coisas. O cara pode estar errado, mas a culpa não é dele. Se o time perdeu, na cabeça dele, tem que existir um culpado e, na maioria das vezes, é o árbitro.

Gazeta Esportiva – Criaram fake news sobre você, de que seria corintiano, de que o Andrés Sanchez seria frequentador da sua choperia… Circularam mensagens também com o endereço do seu estabelecimento comercial e até da sua residência. Tomou alguma providência especial em termos de segurança na época?
Marcelo Aparecido – Fake news, como você disse. Primeiro, dizer que sou corintiano. Isso não é verdade. Segundo, eu nunca vi o Andrés Sanchez fora do ambiente do futebol. Isso é um absurdo. Sobre providências, na minha empresa, tenho pessoas que trabalham como segurança. Isso já era da minha rotina.

Gazeta Esportiva – Você chegou a sofrer ameaças diretas ou foi apenas de maneira virtual?
Marcelo Aparecido – Não, de maneira alguma. Minha rotina continuou normalmente. Tenho vários amigos palmeirenses que, inclusive, frequentam o meu estabelecimento e brincam: ‘A gente sabe que você fez o certo, mas não podíamos perder para eles!’. Esse é o clima do futebol. Entre os que me ameaçaram, a maioria era de outros estados, pessoas que compram uma imagem… Quem realmente convive no dia a dia, sabe que fizemos a coisa certa. No fundo, a pessoa sabe que não tinha razão no que estava reclamando. É mais um desabafo, de apaixonado. Entendo isso. O que tenho para mim é a tranquilidade e a consciência de que fiz a coisa certa. Eu estaria muito chateado se tivesse mantido a minha decisão, mesmo sabendo que estava errado, e essa decisão influenciasse no resultado final da partida, mudando a história. Essa mancha, minha carreira não vai ter.

Gazeta Esportiva – Você acha que a postura tomada pelo Palmeiras após a final acabou fomentando o ódio a você e, consequentemente, as ameaças que citamos há pouco?
Marcelo Aparecido – Sim, com certeza. Para que não tivessem o ódio revertido a eles, transferiram o ódio a mim. Direcionaram o ódio para a minha pessoa, o árbitro, o elo mais fraco. Essa é realidade.

Gazeta Esportiva – Você participou das finais de 2015 e 2017 da Copa do Brasil e vinha em uma trajetória ascendente. Acha que tudo que aconteceu naquela final de Campeonato Paulista acabou comprometendo a sua carreira?
Marcelo Aparecido – Ah, atrapalhou, porque, como posso dizer? Eu ficaria com um campo muito maior se tivesse corrido tudo bem, como estava correndo até aquele momento. Seria o melhor árbitro do Campeonato Paulista, mas aquele procedimento equivocado acabou me atrasando, porque fiquei 30 dias no processo de provar que não houve interferência externa. Acabou atrapalhando, inclusive, a continuidade no Campeonato Brasileiro.

Gazeta Esportiva – Depois de tudo que aconteceu, você costuma ser reconhecido pelos torcedores nas ruas?
Marcelo Aparecido – Tudo tem o lado bom e ruim da história. Costumo sempre ver o copo meio cheio. Foram 20 anos de arbitragem e, graças a Deus, nunca havia sido envolvido em maiores polêmicas. Fiz grandes jogos, clássicos por todo o Brasil. Até então, eu encerraria a carreira e ninguém lembraria de mim. Vocês, inclusive, não estariam me ligando hoje, se não tivesse acontecido isso. Então, sempre tiro esse lado bom. A partir daquele momento, passei a ser mais conhecido. Já era conhecido no meio do futebol, por aqueles que trabalham no futebol, pelos clubes. Mas, com esse fato, passei a ser conhecido nacionalmente.

Gazeta Esportiva – Neste sábado, Palmeiras e Corinthians decidem mais um Campeonato Paulista, novamente no Allianz Parque, desta vez com o VAR. Você acha que o ocorrido em 2018 acabou colaborando para a adoção desse recurso?
Marcelo Aparecido – Depois daquela final, eu também contribuí para que, realmente, pudessem colocar o VAR. Hoje, o futebol está muito rápido. Em uma fração de segundo, um ângulo que você não está cinco centímetros pra lá ou pra cá, acaba deixando de ver uma imagem que o VAR vai te mostrar. Você tem as imagens que todos têm em casa, o que facilita. Falando nisso, quero dizer uma coisa sobre o meu jogo de 2018.

Gazeta Esportiva – Diga, Marcelo.
Marcelo Aparecido – Aquela partida vinha de um clima muito ruim entre Palmeiras e Corinthians. Por conta dos últimos jogos, a rivalidade estava aflorada. Houve equívocos, problemas com a arbitragem, entre os jogadores. Atleta expulso de forma equivocada, pênalti marcado depois de a bola já ter rodado, briga entre jogadores na primeira partida. Até então, aquela final estava dentro da normalidade. Quando aconteceu o meu erro, aflorou todo o histórico das partidas anteriores. Isso também dificulta para a arbitragem. Graças a Deus, essa final de agora vem com um histórico melhor.

Gazeta Esportiva – Mais de dois anos depois, você poderá acompanhar o novo clássico pela final do Campeonato Paulista pela televisão. Quando está de folga, árbitro também torce?
Marcelo Aparecido – A gente torce pela arbitragem. Depois que entramos no meio do futebol, é como o jogador. Ele tem o time da infância, mas pode atuar pelo rival e vai defender as cores daquele clube. Na arbitragem, é a mesma coisa. Quando você começa, é apaixonado por um clube, mas pode ver que aquele clube, às vezes, não merece toda a sua paixão, porque ele é feito de pessoas. Eu sou muito feliz pelo que a FPF me proporcionou no futebol. Tanto é que, depois que parei de apitar na FPF, tive convite de times grandes e médios de São Paulo para ajudar de alguma forma no departamento de futebol. Inclusive, também cheguei a receber o convite de uma emissora. Mas sou um apaixonado e, com minha experiência, posso devolver algo ao futebol ajudando na reconstrução da arbitragem paraibana e servindo de exemplo aos mais jovens. Além disso, gostaria de trabalhar com a ferramenta do VAR.

Gazeta Esportiva – Você está com 47 anos de idade. Quais são seus planos? Já pensa em encerrar a carreira como árbitro de futebol?
Marcelo Aparecido – As coisas mudaram muito com essa pandemia. Por exemplo, eu fiquei 130 dias com meu comércio fechado e 135 dias sem atuar em uma partida de futebol. Então, percebi que devo valorizar cada momento e não adianta ficar fazendo projetos. Mas a ideia é encerrar nesse ano a minha participação no futebol e, aí, me dedicar mais à família e aos negócios. Vamos deixar acontecer, ir trabalhando um jogo de cada vez, ajudando, participando dos projetos da CBF e da Federação Paraibana. Mas a ideia é encerrar mesmo em 2020.

Gazeta Esportiva – Daqui a 100 anos, aquela final do Campeonato Paulista certamente será recordada por torcedores dos dois clubes, pela imprensa e pelo mundo do futebol em geral. De que maneira o Marcelo Aparecido de Souza gostaria de ser lembrado?
Marcelo Aparecido – É o lado bom, né? Porque, se tivesse corrido tudo bem, ninguém nem lembraria da final e acabou. Sempre vou ser otimista e ver o lado bom. Não sou hipócrita: o que vai ficar marcado é que o árbitro tomou uma decisão e levou sete minutos para mudar. Mas, quem está no meio do futebol, conhece o árbitro Marcelo Aparecido de Souza. Sou uma pessoa em que todos confiam nos jogos e não era diferente com o próprio Palmeiras. Na semifinal, inclusive pelo Palmeiras, eu era visto como um árbitro confiável, de qualidade, rigoroso, casca grossa. Pela grande maioria de quem está envolvido no futebol, vou ser lembrado assim. Fui um dos melhores árbitros de São Paulo durante muito tempo e, do Brasil, também. É assim que vou ser lembrado. Agora, uma pequena parte da imensa torcida do Palmeiras vai lembrar de outra forma. Não tenho como mudar. Foi criada uma teoria da conspiração e eles vão acreditar nisso. Fazer o quê?

*Colaborou José Pais

Publicado em 7 de agosto de 2020 12:00:05

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