Fora da casinha

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Fora da casinha

Mais autêntico do que nunca, Casagrande lamenta perfil atual dos jogadores de futebol: “Eles vão parar de jogar e não vão saber o que falar”

Tiago Salazar - São Paulo - SP 29 de abril de 2019 04:00:54
 

Óculos escuros, traje todo preto, All Star no pé e o velho anel de caveira no dedo. O tempo passou e Walter Casagrande Júnior pouco mudou. A montanha russa da vida lhe trouxe rotinas diferentes e muitas vezes antagônicas, mas nunca tirou a autenticidade de suas palavras. Articulado, antenado e sem o menor receio do reflexo de suas opiniões, Casão, como é carinhosamente conhecido, deu as caras na redação da Gazeta Esportiva para uma entrevista exclusiva que abordou temas distintos e o levou a uma viagem no tempo junto ao acervo de fotos e matérias da Gazeta Press.

“P… Essa aqui é legal. Foi quando meu filho nasceu. Esse aqui é o mais velho. Ele é produtor do Hoje em Dia”, comentou, ao sacar a primeira foto de uma das pastas que guardam registros de sua carreira. Na imagem de 1989, Casagrande tinha Ugo Leonardo no colo, o mais velho do trio de herdeiros.

Ao lado do editor Erick Castelhero, da Gazeta Esportiva, Casagrandre observa fotografia em que carrega o filho Ugo Leonardo no colo (Foto:Sergio Barzaghi/Gazeta Press)

“Isso aqui é bem legal, cara. Eu lembro dessa matéria aqui no bonde, dentro do Corinthians”, continuou, dessa vez por causa de uma matéria assinada pelo jornalista Paulo Calçade no saudoso Jornal A Gazeta Esportiva.

Convidado a sentar-se, Casagrande passou a folhear a própria história sem perder a concentração na sabatina que ali se iniciava. E para não cortar o clima nostálgico, o atual comentarista da Rede Globo explicou qual é a saudade que lhe atinge quando o assunto é sua vida de atleta profissional.

“Eu não sinto saudade da época que eu jogava futebol. Eu tenho saudade da década, do momento que se vivia, o que se tinha naquele momento. Então, automaticamente, dá uma certa saudade do que aconteceu naquela época. Eu fui jogador de futebol na década de 80 e não tem como você olhar para uma foto dessa, eu e o Sócrates – esse jogo foi contra o São José, eu acho – e não lembrar. É muito raro eu lembrar jogos e tal, mas lembrar momentos eu lembro pra caramba”.

Casagrande volta ao passado durante visita à redação da Gazeta Esportiva, em São Paulo (Foto: Sergio Barzaghi/Gazeta Press)

Erick Castelhero, editor-executivo da Gazeta Esportiva, aproveitou para mostrar a Casagrande uma matéria de 1985 em que o então jogador falava sobre sua paixão por música.

“Não era uma época só futebol, como os jogadores vivem hoje. Hoje eles vivem no mundo do futebol, ninguém fala nada, ninguém aparece para nada, nem de futebol eles falam, porque não dão entrevistas… O mundo deles é muito fechado. Eu acho um desperdício, porque eles não vivenciam a década que eles vivem. Não falam nada, nem de cinema, nem de teatro, nada. A vida deles é só jogar futebol e você nem sabe o que eles pensam, porque eles não te dão entrevista”, comparou Casão.

“Quando eles pararem de jogar, daqui 10 anos, cinco anos, oito anos, eles vão parar de jogar e não vão saber o que falar, a não ser de futebol, porque se você perguntar alguma coisa para eles: ‘olha, lembra aquela época, teve eleição, Bolsonaro, Haddad e tal?’… O cara não vai saber o que falar, porque ele não vivia aquilo lá”.

Casagrande se diz ciente de que se vive, hoje, uma era em que os atletas são cada vez mais influenciados por assessores, empresários e até por cursos de orientação para se expressar diante de microfones. Tudo muito distante do que Casão entende por ideal.

“É uma estratégia errada, porque quando você não fala ou só aparece um vídeo de onde você está e o que você está fazendo, as pessoas escrevem e falam o que quiser. Agora, se você der uma entrevista, só vão poder falar daquilo que você falou. Não vão imaginar coisas ou sugerir, nada, não tem. Você dá uma entrevista. Tem muita gente que vai achar legal e que vai criticar em cima, mas ninguém vai poder inventar nada”.

A posição não chega a surpreender a quem conhece minimamente a história de Casagrande. Revelado pelo Corinthians em 1980, sempre engajado e pré-disposto a se posicionar, independente do assunto, o então garoto amadureceu de vez e enraizou suas ideais ao se tornar parceiro de Sócrates, o ídolo nove anos mais velho.

Aliás, o Doutor é um exemplo de referência que as últimas promessas brasileiras do futebol pouco têm ou tiveram. Por isso, o comportamento daqueles que ainda sequer conquistaram algo grande na profissão está tão mudado.

“O cara sobe com 18, 19 anos e o principal jogador tem 22. Os outros já saíram. Então, ele não vê uma diferença entre ele e o cara que está jogando há três anos, quatro anos, ele chega pondo a dele e tudo mais. Por um ponto é até legal você ter ruma postura de não ficar intimidade, não ficar pelos cantos e treinar, mas isso aí você joga muito na linha do limite. Você pode ser um prepotente, arrogante, como também pode ser um cara humilde, independente de como você se comporta”.

A entrevista com Casagrande obviamente não se restringe a isso. Esse é apenas o primeiro capítulo da série de 10 matérias que a Gazeta Esportiva publicará em seu site até o fim da semana.

Publicado em 29 de abril de 2019 04:00:54
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