Dez anos da Copa do Brasil de 2015: o recomeço para uma era vencedora no Palmeiras

Primeiro título do Allianz Parque marca recomeço na história do Palmeiras

Por Victoria Romanelli
01/18/2026 08:52:04

O dia 2 de dezembro de 2015 é um marco na história recente do Palmeiras. Naquela noite de quarta-feira, o Alviverde venceu o Santos, nos pênaltis, em um jogo marcado por emoção até o fim, e conquistou o título da Copa do Brasil, o primeiro do Allianz Parque.

Disputada em dois jogos, a final reservou fortes emoções. O Santos venceu o jogo de ida, por 1 a o, na Vila Belmiro, mas o Palmeiras empatou o agregado, no Allianz Parque, ao vencer por 2 a 1, e levou a melhor nos pênaltis (4 a 3), com o ex-goleiro Fernando Prass convertendo a última cobrança.

O título da Copa do Brasil de 2015 marcou o início de uma era vitoriosa no Palmeiras. O clube superou o centenário turbulento, que, por pouco, não terminou em rebaixamento no Campeonato Brasileiro, e coroou a reestruturação do clube com um título nacional em cima de um rival estadual.

A campanha

O Palmeiras disputou 13 jogos naquela campanha. Foram oito vitórias, três empates e duas derrotas. Além disso foram 25 gols marcados e 14 gols sofridos. O Verdão eliminou Vitória da Conquista, Sampaio Correa e ASA de Arapiraca nas primeiras fases. Depois disso, passou por Cruzeiro, Internacional e Fluminense até a decisão contra o Santos.

"Eu tenho um jogo muito memorável que foi contra o Inter em casa. A gente estava ganhando, o Inter empatou no final e naquela época contava o gol fora. Quando a gente solta a bola no meio de campo, o Alione cruzou uma bola, o Girotto cabeceia e faz o gol, muito rápido. Ali eu pensei, que loucura. O futebol é mágico, a ponto de ser eliminado em casa a gente faz um gol no final. Se não me engano foi nas quartas e depois fazemos a semi contra o Fluminense", relembrou Lucas Marques.

"Esse jogo tenho ele gravado, penso que poderia tudo desandar ali e depois fizemos o gol e a torcida reagiu. Foi um jogo bem memorável para mim. Outro jogo foi em casa contra o Fu que tem uma cena que recordo bem: o Prass faz uma defesaça em um chute do Fred. No finalzinho, sobra uma bola, eu estava no lance, escorrego, não alcanço a bola e o Fred chapa e o Prass defende", seguiu o ex-lateral.

Santos era favorito...

Naquela altura do campeonato, o discurso que se disseminava era o de favoritismo do Santos, que já havia levado o Paulista em cima do Palmeiras. O Verdão vinha de um momento ruim e até o segundo jogo tinha apenas duas vitórias, seis derrotas e dois empates nos últimos dez jogos.

"No final do ano, o Santos estava jogando melhor que a gente, tinha um time tecnicamente muito bom, um dos maiores artilheiros do campeonato que era o Ricardo Oliveira, que tinha suas provocações contra o Palmeiras. E aí criou-se uma rivalidade muito grande. Eu falo que a torcida do Palmeiras teve um papel fundamental nesse momento porque abraçou cada um de nós, cada jogador, essa provocação, que o Santos era o rival naquele momento transmitia aquilo para nós", analisou Lucas Marques.

"Já existia uma rivalidade, até entre os jogadores. O Fernando Prass com o Ricardo Oliveira, o pessoal usando a máscara com a cara de choro. Principalmente no Paulista, eram os times que mais disputavam. Naquele ano tiveram vários jogos contra o Santos. O Santos também estava bem, era bonito ver jogar e nós estávamos em um recomeço, uma reformulação. Foi bacana disputar esses jogos de finais contra o Santos", lembrou Cleiton Xavier.

Provocações de Ricardo Oliveira marcaram a campanha

O ex-atacante do Santos, Ricardo Oliveira, criou uma rivalidade à parte com o Palmeiras desde o Campeonato Paulista que se segui até a decisão da Copa do Brasil. O elenco palmeirense usou as provocações como combustível e revidou após dar o troco com o título nacional.

Rafael Marques, que foi o substituto de Gabriel Jesus, joia da base, naquela final, travou uma rivalidade particular com o adversário e após a conquista usou uma máscara estampando a um semblante irônico de Oliveira após marcar um gol diante do Palmeiras.

"Se pegar da nossa parte, as provocações só aconteceram depois do título. Ficamos quietos, escutamos, foi saindo combustível para nós. A própria torcida já falava. Já faziam faixas do Santos campeão, uma parte da imprensa dava como certo o Santos campeão. Isso serviu de combustível para nós, foi bom demais. Por mais que a gente sente, somos seres humanos, corre sangue na veia, mas a gente falava ‘vamos nos abastecer com tudo isso aí porque na hora que acabar a gente comemora da nossa maneira’. E aí que entra as zoeiras, cobrança com o pessoal da imprensa. No futebol, a gente tem que ter respeito antes de tudo. Foi bom porque a gente mantém a cabeça no lugar para ganhar o título", relembrou Rafael Marques.

Emoção única

Os torcedores do Palmeiras abraçaram o time naquela conquista e fizeram grande festa na semana da final. A recepção do ônibus do time antes do jogo ficou marcada na história. Para Rafael Marques, o clima daquela decisão é incomparável: nem mesmo a emoção de tirar o clube de uma fila de 22 anos no Campeonato Brasileiro.

"Nada se compara à atmosfera do Palmeiras, casa nova. Em 2016 fomos campeões brasileiros, fazia 22 anos que não era campeão brasileiro. A emoção de ser campeão brasileiro não chegou perto da emoção e atmosfera que foi a Copa do Brasil. Foi muito diferente. Tem vários fatores: primeiro título do Allianz, reformulação, não tínhamos um time muito qualificado, mas competitivo, fechado, rivalidade… muita coisa que aconteceu que levou a ter essa atmosfera diferente", destacou o ex-atacante.

De capitão a torcedor

Lucas Marques, ex-lateral, era um dos capitães do time de Marcelo Oliveira. O terceiro cartão amarelo e um vermelho, posteriormente, no jogo de ida contra o Santos, na Vila Belmiro, tiraram qualquer chance de poder jogar a segunda partida. Dali, ele viveu uma mudança de função e, de capitão, virou "apenas" torcedor. Em entrevista à Gazeta Esportiva, Lucas voltou no tempo e reviveu aquele "ano mágico".

"Eu vivi muito o Palmeiras naquele ano de 2015. Por que? Fui uma das primeiras contratações e aí eu era um dos capitães do time, uma das lideranças. E tudo o que vinha, o que a torcida sentia, transmitia para nós em campo e nós tentávamos resolver com títulos. E o Palmeiras vinha de um 2014 melancólico. Fez 40 pontos, mas não caiu. E aí chega 2015 com uma esperança muito grande, uma reformulação enorme no elenco. Fui um dos primeiros, então convivi e vivi esse ano intensamente com o Palmeiras. Foi muito mágico", lembrou.

"Era um time que estava em reconstrução, um time bom, mas não sabia exatamente o que poderia acontecer, aí vai se desenrolando. A gente começa mal o Brasileiro, ainda com o Oswaldo de Oliveira, e depois chega o Marcelo Oliveira. A gente recupera e vai caminhando com uma situação tranquila de brigar em cima e quem sabe pegar uma Libertadores. Mas, não tinha esperança de Copa do Brasil. Tanto é que no início, a gente estava dando mais ênfase no Brasileiro e lembro que a gente poupava jogadores no início da Copa do Brasil. Aí foi vencendo, vencendo e na reta final foi força total. Chegamos à final… contra quem? Santos. A gente criou uma rivalidade muito grande", seguiu.

"Eu vivi esse momento de fora, fui para arquibancada torcer.  Foi uma emoção muito grande, um ano intenso, foi o mais incrível que vivi na minha carreira por tudo isso, ter sentido o calor da torcida e quanto o palmeirense é apaixonado por esse time", resumiu.

Virada de chave

Naquela noite, o Allianz Parque, preenchido por mais de 40 mil palmeirenses viu sua primeira grande festa e conquista. Aquela taça, conquistada na gestão de Paulo Nobre, foi apenas um gatilho para uma era campeã no Palmeiras, que se seguiu com Mauricio Galiotte e Leila Pereira.

"Sem dúvida nenhuma foi uma virada de chave para o Palmeiras. Foi a grande virada. O Paulo Nobre assumiu, se comprometeu a trazer vários jogadores. O Dudu foi o símbolo dessa nova era, por toda história, bastidores de chapéu. E jogou muito. Depois de 2015 o Palmeiras voltou a ser um Palmeiras temível e de lá para cá, só alegrias", destacou Cleiton Xavier.

O meio-campista não disputou aquela final porque estava lesionado. Contudo, mesmo sem estar 100%, ficou à disposição do técnico Marcelo Oliveira para bater pênalti se fosse preciso. O ex-camisa 10, em entrevista à Gazeta Esportiva, relembrou a emoção daquele dia e contou do alívio após levantar a taça.

"Dez anos se passaram, mas parece que foi ontem ainda. A emoção é muito grande. Uma satisfação enorme de poder ter acompanhado essa nova trajetória do Palmeiras, de dentro de campo. Muito feliz pela conquista. O que mais lembro é do alívio, ver a torcida, para os próximos jogos, os treinos. A galera fica mais leve, a tal da confiança. Quando está lá em cima, tudo o que vc faz dá certo, as coisas ficam mais leves. isso que fez mais diferença, senti o ambiente mais leve", declarou.

Depois daquele título, o Palmeiras ainda conquistou mais quatro Campeonatos Paulistas (2020, 2022, 2023 e 2024), quatro Campeonatos Brasileiros (2016, 2018, 2022 e 2023), duas Libertadores (2020 e 2021), mais uma Copa do Brasil (2020) além de uma Recopa Sul-Americana (2022) e uma Supercopa (2023).