Capitão América

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Único palmeirense a erguer Copa Libertadores, César Sampaio lembra sacrifício contra o Deportivo Cali e preparação inadequada para final

Bruno Ceccon - São Paulo, SP 15 de junho de 2019 12:00:38
 

O único jogador da Sociedade Esportiva Palmeiras a erguer a Copa Libertadores é torcedor alviverde desde a infância. Em entrevista à Gazeta Esportiva, 20 anos após a final contra o Deportivo Cali, o antigo capitão César Sampaio lembrou a dor por jogar no sacrifício e contou que o time não se preparou da maneira ideal para decisão.

O Palmeiras sofreu na primeira fase, mas ganhou corpo nas etapas eliminatórias ao eliminar adversários de peso a caminho da final. “Depois de tirar Vasco, Corinthians e River, na minha avaliação, a gente não se preparou para a final como nos preparamos para os outros adversários”, disse Sampaio.

Fundamental no time armado pelo técnico Luiz Felipe Scolari em 1999, o volante sofreu uma lesão muscular durante o treino recreativo da véspera da decisão e entrou em campo no sacrifício. Em seguida, acabou cortado da Seleção Brasileira que disputaria a Copa América.

Na Copa Libertadores 1999, o raçudo César Sampaio testemunhou a canonização de Marcos. Ao ver o terceiro reserva assumir o lugar de Velloso durante o campeonato, Sampaio se aproximou para transmitir confiança e ficou surpreso com a reação do já confiante goleiro.

Gazeta Esportiva – Você jogou no Japão até 1998 e voltou ao Palmeiras no ano seguinte. O projeto do clube de ganhar a Libertadores foi decisivo no seu retorno?
César Sampaio – Eu, Zinho e Evair fomos juntos para o Japão (defenderam o Yokohama Flugels) e jogávamos muito contra o Jubilo Iwata, time do Felipão. Então, sempre mantínhamos contato e, no meu último ano, o Felipão costumava ligar. No final de 1998, eu tive uma conversa com o Vasco, intermediada pelo Edmundo, mas, por toda a afinidade, fechei com o Palmeiras. Quando voltei ao clube, em termos de América do Sul, a marca Parmalat já estava posicionada no mercado e, aí, o sonho de consumo dos brasileiros, a competição alvo, era a Libertadores.

Gazeta Esportiva – O Felipão, campeão pelo Grêmio em 1995, foi contratado pelo Palmeiras dois anos depois com o objetivo claro de ganhar a Libertadores pela primeira vez. Em termos de confiança, o que significava a presença dele no banco?
César Sampaio – Significava muito. A gestão do Felipão para o mata-mata era muito importante. Nos intervalos entre os jogos, sempre tínhamos uma ação social: frequentar uma creche, asilo ou hospital. Havia também os churrascos internos, com o pessoal da faxina e dos serviços gerais. Então, ele criava um ambiente e os que estavam ao redor sabiam que, se o time ganhasse, receberiam um dinheirinho. A gente pegava um percentual das premiações e distribuía. O Felipão trabalha isso muito bem: os intervalos, as concentrações, o fechamento de treinamentos. E a gente treinava muito, muito a bola parada.

Gazeta Esportiva – A primeira grande vitória do Palmeiras foi sobre o Vasco, então defensor do título, nas oitavas de ifnal. Eliminar um adversário daquele porte serviu para encorpar o time?
César Sampaio – Sem dúvida. O Vasco tinha uma grande equipe e todo o mundo queria desviar deles no mata-mata. No jogo de São Januário, como eu tinha conversado com o Eurico Miranda antes de fechar com o Palmeiras, ele soltou para a torcida que não fiquei porque minha esposa não quis, o que não é mentira (risos). Quando entrei em campo, cantaram: “Ééé, César Sampaio tem medo da mulher!”. Foi difícil de chegar ao estádio, aquele clima hostil mesmo. E, dentro de campo, fizemos um grande jogo. Nosso lado esquerdo funcionou muito bem, com Zinho, Alex e Júnior. Esses três decidiram a partida.

Gazeta Esportiva – Qual foi a reação entre os jogadores quando souberam que o adversário das quartas de final seria o Corinthians?
César Sampaio – Apesar de ser uma competição continental, a rivalidade é regional. Depois de ser campeão, o mais importante para um palmeirense é ganhar do Corinthians e vice-versa. Então, tinham muitas coisas envolvidas dentro desse jogo. Ganhamos o primeiro por 2 a 0, mas o resultado não foi justo e o Marcos fez defesas importantes. Saímos com uma vantagem teoricamente quase impossível de reverter, mas a segunda partida foi uma loucura e ficamos a um gol da eliminação. Depois, vieram os pênaltis e o Marcão acabou novamente sendo o diferencial. Graças a Deus, eliminamos mais um, porque já havíamos eliminado o Vasco, um dos candidatos ao título.

Gazeta Esportiva – O Marcos, então terceiro goleiro, tinha 25 anos e poucos jogos como profissional. Como você viu esse início dele?
César Sampaio – O Marcão sempre foi um cara que não está nem aí, não consegue medir o grau de importância das coisas. Se ele bater uma bola no fim de semana no campinho, vai procurar fazer o melhor, assim como em uma Libertadores. Em geral, os goleiros são preparados para ter uma personalidade fria, calculista e equilibrada. O Marcos era uma aposta para todos, mas, tecnicamente, sempre foi arrojado nos treinamentos. Era agressivo e, no um contra um, atacava o adversário. A saída dele sempre foi muito boa e a velocidade de reação, também. No um contra um, fazia a leitura correta e era difícil fazer gol. Virou São Marcos nessa competição.

Gazeta Esportiva – Mesmo ainda inexperiente, ele fez milagres durante a campanha, especialmente nos jogos contra Corinthians e River. As atuações foram surpreendentes?
César Sampaio – Não digo que as atuações foram surpresa, mas sim a personalidade. Como capitão, quando algum jovem vai jogar, você sempre encosta e o cara está tremendo, inseguro. No pré-jogo, no acesso ao túnel ou na beira do campo, você vê que o cara está meio… E o Marcão estava tranquilo. Eu falei: ‘Pô, Marcão, procura fazer as coisas mais fáceis. Se recuarem, dá chutão. Faz as defesas de forma segura’. Ele disse: ‘Sampaio, não esquenta, não’. Pensei: ‘Caramba! Esse, já nasceu para isso’. (Risos). Até hoje, ele é assim.

Gazeta Esportiva – Depois de eliminar o Corinthians, todos no vestiário do Palmeiras ficaram muito emocionados, inclusive os mais experientes, como Felipão, Zinho e você. Como foi aquele momento?
César Sampaio – Acho que foi esse jogo em que o doutor Rubens Sampaio falou: ‘Não vou conseguir assistir isso’. Se o médico estava nervoso e preferiu nem ver os pênaltis, imagina a gente (risos). Não foi nem tanto uma comemoração no vestiário, mas sim uma descarga mesmo, um alívio por ter passado. É um dos jogos mais tensos da minha carreira, comparável com a final de 1993. A decisão daquele Paulista foi o jogo para o qual mais me preparei. O segundo mais tenso que disputei foi esse contra o Corinthians.

Gazeta Esportiva – Entre os dois jogos pela semifinal contra o River Plate, o Palmeiras conseguiu uma virada histórica sobre o Flamengo nas quartas da Copa do Brasil. Como o Felipão usou esse resultado nos jogos seguintes?
César Sampaio – Durante um tempo, esse jogo ficou como amuleto, como uma referência de que é possível e para a gente nunca desanimar, entregar os pontos ou se dar por vencido. Às vezes, no intervalo, quando saíamos perdendo, o Felipão colocava o vídeo dos gols contra o Flamengo para mostrar que já tínhamos virado contra o time de maior torcida do Brasil, contra a camisa numericamente mais pesada. Então, foi uma das grandes vitórias do Palmeiras e acabou usada como referência.

Gazeta Esportiva – Depois da virada emocionante contra o Flamengo, o Palmeiras deu um baile no River Plate no segundo jogo pela semifinal.
César Sampaio – Perdemos por 1 a 0 na Argentina e comemoramos a derrota, porque era para ter sido uns quatro. O Marcos fez a diferença, o Júnior Baiano foi expulso no final e terminei de zagueiro. No jogo de volta, durante o caminho ao estádio, parecia que o ônibus estava flutuando entre os torcedores. Naquele momento, eu pensei: ‘Não vamos poder sair daqui com um resultado que não seja a classificação’. A gente atropelou, foi três mas poderia ter sido cinco. Das atuações que vi do Alex, essa foi uma das grandes. Fico feliz por compartilhar isso e ter feito parte de um elenco fabuloso, batendo um dos gigantes da competição.

Gazeta Esportiva – No primeiro jogo da final contra o Deportivo Cali, a atuação do Palmeiras não foi das melhores…
César Sampaio – A Colômbia vivia um momento político difícil, com problemas com o narcotráfico. O pré-jogo foi complicado, como sempre na Libertadores: rojões de madrugada e tudo. No pós-jogo, soltaram uma bomba em campo enquanto o Felipão dava entrevista. E o time não jogou bem. Depois de tirar Vasco, Corinthians e River, na minha avaliação, a gente não se preparou para a final como nos preparamos para os outros adversários. E os colombianos jogam. Era uma equipe que não deveria estar ali. Então, eles entraram e não estavam nem aí. É difícil jogar contra um time muito solto, sem a responsabilidade de ter que ganhar. Já o Palmeiras, pelo alto investimento da Parmalat, precisava propor o jogo. Sabíamos que não tínhamos jogado bem, mas pensamos: ‘No Palestra Itália, a gente atropela’.

Gazeta Esportiva – É verdade que, na véspera do jogo decisivo contra o Deportivo Cali, você sofreu um problema físico ou foi blefe do Felipão?
César Sampaio – Um dia antes, em um dois toques recreativo, tive uma lesão de grau 1 no músculo posterior da coxa. Em jogos normais, não poderia atuar. Seria vetado. Acabei a final com uma lesão de grau 3. Estava convocado pela Seleção Brasileira na Copa América e acabei cortado. Eu não podia parar e ficava sempre trotando. Se parasse, para correr de novo, queimava. O músculo estava aberto.

Gazeta Esportiva – Vocês vieram confiantes da Colômbia, mas sofreram mais do que esperavam no Palestra Itália.
César Sampaio – Foi um sufoco aqui! O Evair, batedor de pênalti, acabou expulso e o Felipão tirou o Arce para colocar alguém mais ofensivo. Então, fomos para os pênaltis sem os dois melhores cobradores. Depois, o Zinho, terceiro melhor, errou o primeiro. Aí, foi só ajoelhar ali (risos). Tem uma foto em que estamos ajoelhados eu, Juninho e Oséas, desesperados, pedindo: ‘Pelo amor de Deus!’. Graças a Ele, o final foi feliz. O Marcos até brinca que, nas duas melhores ‘defesas’ da vida, ele não pegou na bola, que foram os pênaltis perdidos por Bedoya e Zapata.

Gazeta Esportiva – Para um palmeirense, é sempre emocionante lembrar o exato momento em que o Zapata chutou para fora. Como você viveu esse momento?
César Sampaio – Ajoelhado, pedindo para quem estivesse de plantão ajudar a gente (risos). Como cristão, sempre buscamos a direção de Deus nesses momentos. É lógico que Ele não joga bola e tem muita coisa para resolver: fome, peste, terremoto. Colocá-lo para bater pênalti já seria abusar da boa vontade (risos). Mas eu pedia, porque o elenco foi montado para a Libertadores e nada além dela justificaria. Foi uma grande alegria levantar aquele pratão da Toyota na primeira Libertadores conquistada pelo Palmeiras. Um momento de êxtase e é muito bom relembrar essa turma toda.

 

Publicado em 15 de junho de 2019 12:00:38
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