Basquete brasileiro celebra 30 anos de um dos maiores feitos de sua história

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Basquete brasileiro celebra 30 anos de um dos maiores feitos de sua história

No dia 23 de agosto de 1987, a Seleção Brasileira masculina de basquete conquistou um dos maiores feitos da história do esporte brasileiro. Comemorando 30 anos do título pan-americano sobre a seleção dos EUA, em Indianápolis, integrantes do time campeão relembram as glórias conquistadas sobre a potência do esporte.

Marcelo Baseggio e Camila Del Manto Bomtempo* - São Paulo 23 de agosto de 2017 08:30:38
 

Há exatos 30 anos, a Seleção Brasileira masculina de basquete conquistou um dos maiores feitos de sua história. Disputando a final dos Jogos Pan-Americanos de 1987, na cidade de Indianápolis, o time liderado por Oscar Schmidt bateu nada mais, nada menos que os EUA por um improvável placar de 120 a 115, na Market Square Arena, para faturar a medalha de ouro e quebrar a invencibilidade de 34 partidas dos rivais. Era a primeira vez que a seleção norte-americana, principal potência do esporte, perdia em casa e sofria mais de 100 pontos.

Após três décadas, o título conquistado sobre os EUA se tornou um marco na história do esporte brasileiro. Oscar e Marcel foram transformados em heróis daquela equipe que entrou em quadra já satisfeita em somente fazer a final contra o melhor time do mundo. Embora houvesse potencial, aquele elenco composto por André, Rolando, Cadum, Gérson, Guerrinha, Israel, Marcel, Maury, Oscar, Paulinho, Pipoka e Sílvio jamais ousaria pensar em um triunfo sobre os poderosos adversários.

“Os EUA levaram para a competição o time que normalmente se levava para as Olimpíadas. Na época em que não se podia levar jogador profissional, o principal time era formado para as Olimpíadas. Nas outras competições eles procuravam levar um time bom. Como o Pan-Americano ia ser em Indianápolis, eles fizeram questão de levar o melhor time que eles podiam. A gente via os EUA jogarem. A gente sabia do potencial daquele time e o sentimento que eu tinha era medo de tomar uma lavada de 50 pontos. Até então você tem uma carreira brilhante, joga na Europa, na Seleção há anos, é referência do esporte em seu país, vai lá e toma de 50? Eu tinha medo de a gente tomar um cacete”, disse Marcel em entrevista à Gazeta Esportiva.

“A pressão era grande, os caras vinham de 34 vitórias seguidas e a gente ia jogar na casa deles. Nunca imaginamos que a gente pudesse ganhar aquele negócio. Foi um dia incrível da minha vida, uma geração de ouro. Em cinco anos vencemos dois Sul-Americanos, duas Copas Américas, duas classificações olímpicas, o Pan-Americano, ficamos em quarto no Mundial e quinto na Olimpíada. Olimpíada essa que podíamos ter ganho, não fosse um arremesso errado meu no fim do jogo. Jogador bom não pode errar no lance decisivo”, afirmou Oscar Schmidt.

Do outro lado da quadra estavam atletas promissores do basquete universitário norte-americano. David Robinson, que posteriormente integrou o Dream Team campeão olímpico em 1992 e o San Antonio Spurs, era o principal nome daquela equipe, que ainda contou com outros grandes nomes, como Rex Chapman e Danny Manning. A presença de jogadores de grande nível em todas as posições fez, inclusive, com que o técnico Ary Vidal e seu auxiliar José Medalha abrissem mão de uma estratégia para tentar segurar os adversários.

“A gente sabia muito bem do potencial dele [David Robinson], aquele time tinha gente que jogava no campeonato universitário, a gente acompanhava. Todos jogavam em universidades de alto nível, o técnico era bom. Quando o cara é bom, não adianta falar que ele cai para a direita, que ele chuta de fora… ele vai fazer as coisas dele. A gente foi lá realmente para perder de pouco, não tomar um sacode”, relembrou Marcel.

Não deu a lógica. Após a dura derrota para os brasileiros, os EUA decidiram intervir. Pouco tempo depois, os principais jogadores norte-americanos da NBA passaram a formar a seleção do país. Se antes era proibida a presença de profissionais nos elencos que disputavam as Olimpíadas e Pan-Americanos, depois de 1987, graças a Oscar, Marcel e companhia, a potência do basquete mundial se viu na obrigação de colocar em quadra o seu melhor time.

“Para mim, [a vitória] significou uma mudança de trajetória do basquete. O ouro nos EUA foi uma coisa que modificou totalmente a maneira de pensar do resto do mundo em relação ao basquete. Ali foi o primeiro passo. Foi a primeira partida oficial que os EUA perderam dentro dos EUA, então eles levaram os profissionais para jogar as Olimpíadas. Em 1992, tive o prazer de estar em quadra contra o Dream Team, que foi um verdadeiro time dos sonhos”, comentou Gerson, pivô daquela memorável Seleção Brasileira.

Passado o duelo, chegou o momento da premiação, entretanto, a fita com o hino nacional brasileiro sequer estava no ginásio. Por conta do abismo técnico entre os dois países que disputaram a medalha de ouro e o favoritismo gigantesco dos EUA, a organização não se deu o trabalho de programar algo além do cântico norte-americano.  Normal, já que nem mesmo o treinador daquele subestimado time acreditava no triunfo.

Ao ser questionado sobre o que o técnico Ary Vidal havia passado para o grupo antes da final, Marcel foi bastante sincero:

Que recomendação a gente pode dar para quem está prestes a tomar um cacete?

Campanha

Apesar de os placares mostrarem o contrário, o Brasil não teve um caminho fácil para chegar até a decisão do basquete nos Jogos Pan-Americanos. Na fase de grupos, o time verde e amarelo enfrentou quatro adversários, somando três vitórias e uma derrota. A Seleção estreou contra o Uruguai e despachou os vizinhos por 110 a 79 em um jogo relativamente tranquilo, mas difícil para o grupo digerir. À época, a imprensa chegou a publicar que o time comandado por Ary Vidal era totalmente desorganizado dentro de quadra e dependia estritamente das qualidades individuais dos atletas.

“O Brasil foi bastante criticado. Os jogos sempre foram apertados, adversários tradicionais, tirando o Uruguai, contra quem tivemos uma relativa facilidade, a classificação foi suada. O único objetivo do campeonato era fazer a final contra os EUA, porque ganhar o campeonato não era o objetivo do time”, disse Marcel.

Após o duelo contra os uruguaios, o Brasil teve Porto Rico pela frente. Em um jogo bastante equilibrado, a equipe só conseguiu o novo triunfo com o auxílio da arbitragem, que marcou falta para a Seleção em um lance polêmico. Gerson converteu os dois lances livres, virou o jogo e garantiu a vitória por 100 a 99.

“Depois que o juiz apita, vale (risos). Foi um jogo decidido no final, com meus lances livres. O juiz está ali para errar, não dá para julgar, foi um lance muito rápido. O importante é que ganhamos o jogo”, afirmou Gerson.

Rolando, Gilson, Guerrinha, Pipoka e Sílvio eram parte do elenco que começou aos trancos e barrancos os Jogos Pan-Americanos (Foto: Arquivo/CBB)

Na sequência o Brasil conquistou mais um resultado positivo apertado, desta vez sobre as Ilhas Virgens, por 103 a 98, na penúltima rodada da primeira fase do torneio. Esperando se classificar para o mata-mata na primeira colocação, o que acabaria com a chance do time encarar os EUA logo nas quartas de final, a Seleção Brasileira não conseguiu manter a invencibilidade na competição contra o Canadá – perdeu por 91 a 88 -, mas ainda assim conseguiu evitar os norte-americanos na fase seguinte.

“Perder nunca é bom. Perdemos para um grande adversário, mas nós tínhamos condições de ganhar do Canadá. Nós não soubemos jogar contra eles, eles tinham um jogo muito parecido com o dos norte-americanos, então nós não soubemos como sair da situação. O treinador canadense fez uma defesa muito boa, os nossos arremessos não caíram e nós jogadores não fizemos o nosso trabalho. Perder nunca é bom, e isso nos colocou, se não me engano, em terceiro lugar nos cruzamentos. É sempre perigoso, porque quando você cai, tem a chance de cruzar com os americanos antes da hora. Então todo mundo ficou muito tenso”, comentou Pipoka.

O tropeço contra os canadenses naturalmente não repercutiu muito bem na imprensa. Embora o Brasil tenha se classificado para as quartas de final, Oscar, Marcel e companhia iriam enfrentar novamente a Venezuela, equipe que já havia vencido o time verde e amarelo no Sul-Americano alguns meses antes. Depois de faturar uma medalha de bronze e uma de prata nas últimas duas edições do Pan-Americano, em Porto Rico, em 1979, e Venezuela, em 1983, o basquete brasileiro não poderia ficar sem ao menos disputar um lugar no pódio em Indianápolis.

Não deu para a Venezuela. Engasgados com a derrota no torneio continental que antecedeu o Pan, os brasileiros não tomaram conhecimento dos rivais e passearam em quadra para conseguir o triunfo por 131 a 84. A um jogo da grande decisão, bastou ao time manter a toada para se impor também contra o México, vencer por 137 a 116 e, enfim, garantir a vaga para a disputa do ouro.

Decisão

Na grande final, o Brasil encarou os EUA sob o olhar de 16 mil torcedores na Market Square Arena. Após a bola subir, os donos da casa rapidamente tomaram o controle do jogo e começaram a construir uma vantagem notável no primeiro tempo. Com o passar dos minutos, os adversários iam confirmando a previsão de que a Seleção Brasileira jamais conseguiria ser competitiva contra aquele time.

“Em menos de dois minutos os EUA já estavam com 22 pontos de diferença. Aí pensamos ‘o fantasma está na nossa porta, vamos tomar de 50’. Faltava mais de 50 minutos para acabar o jogo e já estávamos perdendo de muito. Começamos a reagir, a bater, a intimidar. Toda dividida a gente ia no cara, não ia na bola”, admitiu Marcel, reconhecendo que não havia como superá-los apenas “na bola”.

Sem contar com um bom aproveitamento de Oscar e Marcel, o Brasil seguiu sofrendo nas mãos dos norte-americanos até o intervalo. Os EUA foram para o vestiário com uma vantagem de 14 pontos e davam sinais de que no segundo tempo a distância entre as duas equipes no placar seria ainda maior.

“Continuamos jogando, descobrimos que eles fechavam o garrafão, mas abriam o chute de fora. Começamos a chutar de fora e a bola começou a entrar. Eles, de fora, não estavam metendo nenhuma bola, ficaram querendo o jogo por dentro, então fechamos o garrafão”, prosseguiu Marcel.

“Começamos o segundo tempo e pensamos ‘ou vai ou racha’. O nosso jogo era o mesmo jogo que o Golden State Warriors faz hoje. Começamos a acelerar o jogo, fomos desafiando eles, entraram no nosso jogo e deu no que deu”, relembrou Oscar.

Junto de Marcel, Oscar Schmidt (foto) foi quem fez a diferença no segundo tempo da partida (Foto: AP/ Mark Duncan)

Três anos antes dos Jogos Pan-Americanos de Indianápolis, a Federação Internacional de Basquete (Fiba) havia incluído nas regras do jogo a linha de três pontos. Ainda assim, poucos jogadores utilizavam o regulamento ao seu favor, preferindo produzir jogadas de dois pontos do que arriscar de uma distância maior.

“Isso virou o jogo. O chute de três [pontos] foi adotado pela Fiba em 1984. Começamos a usar a regra antes de todo mundo, porque o mundo todo utilizava isso apenas para a última bola. A gente colocou isso como nossa arma, o jogo era baseado totalmente no arremesso de três pontos. Isso deu uma vantagem muito grande. Fizemos 13 cestas de três pontos e eles fizeram só duas”, explicou o ala da Seleção campeã pan-americana.

“No intervalo a gente estava perdendo o jogo por 14 pontos, então buscamos jogar com mais riscos. O Oscar começou a meter bola, o Marcel começou a meter bola, então os americanos não acreditavam na quantidade de bolas de três pontos que estávamos acertando”, completou Pipoka.

Para se ter uma ideia, Oscar e Marcel fizeram, cada um, 11 pontos no primeiro tempo. Mais ligada e com um aproveitamento maior na etapa complementar, a dupla verde e amarela anotou 55 dos 66 pontos do Brasil no período, se sagrando como a grande responsável pela virada (120 a 115) e pelo título em Indianápolis.

Garantida a vitória épica e a medalha de ouro, bastou aos jogadores comemorarem. Nem a falta do hino brasileiro ou os champanhes que já estavam gelando no vestiário norte-americano no intervalo de jogo impediu a Seleção de alcançar o feito histórico. “Eu não vi o hino brasileiro sendo ensaiado nenhuma vez. Entramos no vestiário depois da vitória e tinha um champanhe enorme que nosso roupeiro roubou do vestiário americano”, relembrou Oscar.

“A gente nem acreditou. Comemoramos uma vitória de campeonato normal e só um ou dois anos mais tarde fomos ver a importância disso no basquete mundial. Eu fui para a Itália, não votei para o Brasil, mas meus pais, meus amigos, todos me falavam do que fizemos, da importância do feito para o Brasil”, afirmou Marcel.

“A sensação é prazerosa, de trabalho bem feito, de que tudo deu certo. Nós vencemos uma grande equipe na sua casa, algo que jamais havia acontecido. Mudamos o paradigma do basquetebol. Então, a felicidade é sempre muito grande”, finalizou o pivô Pipoka.

*Especial para a Gazeta Esportiva

 

Publicado em 23 de agosto de 2017 08:30:38

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