Vazamento aponta participação de Duprat em contratação de Cueva pelo Santos; Peres se defende

Tiago Salazar - Santos,SP

20-07-2020 05:00:46

Renato Duprat intermediou a negociação que culminou com a contratação de Christian Cueva pelo Santos no início de 2019. A Gazeta Esportiva teve acesso a conversas, documentos e uma foto que confirmam a participação do empresário.

José Carlos Peres é acusado frequentemente de manter relação com Renato Duprat, que se tornou persona non grata dentro do clube desde que intermediou a parceria com a Doyen Sports.

O presidente santista nunca deixou de negar, com veemência, qualquer contato com Duprat até então. Inclusive, quando questionado, em reunião no Conselho Deliberativo, sobre ter encontrado o agente em um hotel de São Paulo, acompanhado do meia peruano, Peres negou que tal reunião tivesse ocorrido. (veja aqui!)

Entretanto, há uma foto que mostra Peres ao lado de Renato Duprat no dia em que o contrato de Cueva foi acertado, no fim de janeiro.

Além disso, a reportagem tomou posse de dezenas de trocas de mensagens que apontam a intermediação de Renato Duprat com a ciência de José Carlos Peres.

No início das conversas, Rodrigo Ichikawa, conhecido como Rodrigo Japa, com quem Peres tratou a todo momento sobre Cueva, e seu sócio, sempre se dirigiram a Renato Duprat como alguém hierarquicamente superior, com pedidos, perguntas, envio de documentos, ao ponto do uso do termo “chefe” em dado momento.

Duprat, apesar de comedido nas palavras, chega a confirmar assinatura de contrato, avisa quando o atleta começaria a treinar e sinaliza positivamente quando questionado se havia falado com o mandatário santista.

No dia 30 de julho de 2019, José Carlos Peres chamou Rodrigo Japa via Whatsapp e escreveu: “Não esqueça em descobrir se o Renato recebeu a comissão no KASNADHAR – leia-se Krasnodar” (...) “Descubra a data” (...) Ele jura que não recebeu e ainda quis receber do Santos também!”.


Peres admite, mas se defende

À Gazeta Esportiva, diferentemente do discurso adotado até então, José Carlos Peres admitiu a participação de Renato Duprat, mas defendeu a tese de que o trabalho do empresário neste caso não envolveu qualquer pagamento por parte do Santos.

“Ele representou o Cueva, porque na Rússia ele tem uma entrada forte. O Rodrigo (Ichikawa, conhecido como Rodrigo Japa) não era nem o empresário, eram dois caras que brigaram e saíram do negócio”

“Ele (Duprat) não intermediou pelo Santos. Nós não consideramos ele um agente nessa negociação. A gente não o considerou. Pelo Santos, ele nunca negociou”, completou.

Quando questionado sobre o motivo para ter sustentado a tese de que jamais havia se encontrado com Renato Duprat em uma negociação, fundamentalmente a que envolveu Cueva, e agora admitir que o empresário teve participação, José Carlos Peres desabafou.

“O Renato Duprat não me representa e não me representou. Eu não tenho nenhum empresário de estimação. E, como eu não tenho, eles (opositores) querem me ligar a este Renato Duprat. Não tenho nada e nem quero ter. Agora, o Renato Duprat trabalhou com Laor (Luis Álvaro de Oliveira Ribeiro), Odílio (Rodrigues), Modesto Roma (Jr) também, com a Doyen, que é nojenta, me trouxe um problema muito grande. E eles (opositores) querem me enfiar nesse balaio de gato”.

Assinatura indevida e cobrança

O contrato firmado entre Santos e Christian Cueva foi registrado sem a previsão de pagamentos a intermediários. Sobre este ponto, Rodrigo Ichikawa, o Japa, cobra o Peixe a cumprir um combinado assinado por José Carlos Peres.

Em um documento datado de 26 de janeiro de 2019, o qual a Gazeta teve acesso, o presidente do Santos concordou com uma comissão de 7% do valor da contratação, fechada em 7 milhões de dólares, cerca de R$ 26 milhões à época. Ou seja, o clube praiano teria de repassar R$ 1,820 milhão ao empresário.

O Santos não reconhece este documento por ele não ter sido inserido no contrato final e, por isso, entende que deve manter sua posição de não arcar com qualquer custo pela intermediação de Rodrigo Japa.

“Se não passa pelo jurídico, não tem despacho. O despacho é a consolidação de todos os documentos e isso é enviado aos departamentos. Não tem nem como reconhecer. Você precisa ter a assinatura um membro do Comitê Gestor e ata da reunião. Esse acordo (de comissão) não chegou”, explicou Pedro Felipe Gomes da Silva, sub-gerente jurídico esportivo do Santos e um dos responsáveis pela execução contratual de Cueva com o Peixe na ocasião.

De fato, estatutariamente, José Carlos Peres não tem autorização para comprometer o clube a pagar qualquer valor sem antes consultar o Comitê Gestor.

“(Assinei) talvez para segurar o negócio, isso é normal. Ele (Rodrigo Japa) foi desonesto 1000%, bastava me procurar e conversar”, justificou Peres, antes de colocar dúvida sobre o documento. “Essa assinatura é eletrônica minha, mas não me lembro de ter assinado”.

“Eu me encontrei uma vez com o Cueva, anotei as condições, anotei na caderneta. Tive uma única conversa. O Dr. Rodrigo fava com Krasnodar, não participei, praticamente. Me lembro que no dia que tem a foto foi o dia que fui lá para assinar”.

Doutor Rodrigo Gama Monteiro, citado por Peres, era o chefe do departamento jurídico alvinegro, a quem Pedro Felipe Gomes da Silva reportava. Atualmente, Rodrigo Monteiro trabalha para o Athletico Paranaense.

Além da comissão, o Santos também não pagou as luvas, combinadas em R$ 400 mil, a princípio. José Carlos Peres garante que retirou estes pontos do contrato na hora de firmar o vínculo com o atleta estrangeiro.

Ainda assim, em 15 de março, Rodrigo Japa enviou uma mensagem de texto a Peres cobrando que o acordo feito durante o encontro em um hotel de São Paulo fosse cumprido. Mais à frente, o empresário recorreu ao advogado Pedro Felipe Gomes da Silva e voltou a citar Renato Duprat.

“Pedro, inclusive acertei com Peres luvas e a comissão. Até agora, nada. Duprat me chamou um dia para saber qual empresa iria emitir a nota e ficou de definir o pagamento”.

Na resposta, Pedro se mostrou surpreso.

“Cara, isso de comissão precisa ver com o presidente. Também não sei de comissão”.

Mais adiante na conversa, Rodrigo Japa novamente buscou a compreensão junto ao advogado do Santos com uma série de mensagens.

“A comissão seria 10%, mas o Duprat falou que o Santos paga 7% de comissão e 400 mil de luvas, e o presidente acompanhou tudo no hotel (...) Vê o dia aí para marcar com o Peres (...) E me avisa (...) Vamos resolver tudo, Pedro (...) Nunca dificultei nada, sempre querendo ajudar o Santos”.

Detalhes do contrato de Cueva

No contrato firmado com o Santos, além do salário, Cueva recebia auxílio moradia para pagar o aluguel de um imóvel na cidade. O clube ainda bancava passagens aéreas para o jogador e sua família. Fora isso, o documento previa bonificações em dinheiro por metas que envolviam números de jogos como titular, gols, assistências e títulos.

Christian Cueva deixou de se apresentar ao Santos no fim de janeiro de 2020 sob alegação de atrasos nos pagamentos. Atualmente, o jogador defende o Pachuca, do México.

O Peixe, no entanto, cobra uma indenização na Fifa. O vínculo com o peruano era de três temporadas, sendo o primeiro ano por empréstimo. O Santos se comprometeu a pagar os 7 milhões de dólares ao Krasnodar em três parcelas anuais, sem juros.

Com a camisa 8 do Alvinegro Praiano, Cueva atuou em 16 partidas e não marcou gol.

Venda de Bruno Henrique ao Flamengo

Outra negociação relacionada a Renato Duprat foi a de Bruno Henrique. Apesar de à época das conversas a transferência, aparentemente, ter sido conduzida diretamente entre Santos e Flamengo, apenas com a participação natural do empresário do atleta, o balancete financeiro dos cariocas registrou o pagamento de R$ 1.610.000 para a empresa Yesport Marketing Esportivo Ltda, que tem Rodrigo Caruso Duprat, filho de Renato Duprat, como sócio-administrador.

Assim como relacionou o empresário aos russos do Krasnodar na negociação por Cueva, José Carlos Peres fez o mesmo na situação com Bruno Henrique e Flamengo, e desvinculou Renato Duprat do Santos, que neste caso recebeu R$ 23 milhões.

“Quem veio comprar foi o Flamengo. Eu cheguei e disse: ‘o valor mínimo é isso, não vamos pagar comissão para ninguém’. Tem que perguntar para o Flamengo, tanto que o Santos fez um oficio para o Flamengo, e eles disseram que pagam para quem quiser, que eles é que julgam quem trabalhou para eles”, argumentou Peres.

Risco de novo processo de impeachment

José Carlos Peres teve as contas reprovadas nos dois anos de mandato. Após superar o primeiro processo de impeachment, o presidente de 72 anos tenta evitar a repetição do caso para dar sequência na gestão. O balanço de 2018 do Santos apresentou um déficit de R$ 77 milhões, enquanto houve superávit em 2019 de R$ 23,5 milhões. O Conselho Fiscal, no entanto, emitiu parecer em desacordo pela maneira como os números do último balancete foram computados.

 

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