Sandry quebra o silêncio e fala sobre "humilhação" no Santos

Lucas Musetti Perazolli - Santos,SP

27-06-2019 06:00:08

Sandry estreou como profissional do Santos aos 16 anos, na vitória por 4 a 1 sobre o Bragantino, em 31 de janeiro deste ano, pelo Campeonato Paulista. O volante encantou o técnico Jorge Sampaoli nos treinamentos, foi bem quando acionado e a expectativa era de uma temporada com muitos minutos. Cinco meses depois, o Menino da Vila está escanteado.

O motivo foi contratual. Sandry deu seus primeiros passos como profissional ainda com vínculo de formação - válido até novembro de 2019. Quando percebeu a exposição do garoto, o Peixe voltou a procurar os representantes e ofereceu, informalmente, o mesmo de conversas de cinco meses antes. O "não" fez o jogador treinar separadamente.

Em entrevista exclusiva à Gazeta Esportiva, Sandry quebrou o silêncio mantido mesmo com as críticas sobre ser mercenário e contou da "humilhação" de ir ao centro de treinamento às 7h e às vezes nem ter um profissional da comissão técnica para acompanhar a atividade.

Primeira proposta

O Santos ficou perto de assinar o primeiro contrato profissional de Sandry em novembro, antes mesmo da Copa São Paulo de Futebol Júnior e da chance de treinar no grupo principal. Uma reunião deixou quase tudo certo, mas o Peixe recuou.

"Teve uma proposta em novembro. Quase fechamos. Falaram de resolver na mesma semana, saímos felizes da reunião. E sumiram. Só foram conversar com a gente de novo quando Sandry estreou como profissional. E aí a oferta de novembro não valia mais. De novembro a fevereiro mudou muita coisa", diz Carlos Góes, pai de Sandry.

"Eu cheguei na terceira semana de preparação, três dias depois da Copinha. Reginaldo Lima (membro do departamento de base) me ligou e disse que eu treinaria apenas para compor, que seria um apoio. Mas auxiliar do Sampaoli conversou comigo logo no primeiro treino e fui relacionado para meu primeiro jogo depois de uma semana (estreia do Campeonato Paulista contra a Ferroviária", relembra Sandry.

Afastamento

Com o insucesso pela renovação, Sandry deixou de ser relacionado depois de enfrentar Bragantino, pelo Paulistão, e Altos, na Copa do Brasil. Mais de um mês depois, veio a notícia sobre não poder mais treinar entre os profissionais.

Os representantes orientaram Sandry a não atuar pela base até que a situação fosse resolvida. Foi quando o volante passou a treinar separadamente.

"Fui afastado depois do jogo contra o Red Bull em Campinas. Quando cheguei no treino, segurança disse que o Gabriel Andreata (gerente de futebol) queria conversar comigo. Ele me avisou que eu estava afastado e voltaria para o sub-17. Na mesma semana, teria um jogo do sub-20 e eu não fui jogar (por orientação da família e empresários). Desde então, joguei duas vezes pelo sub-17 e fui para os largados. São dois meses treinando separado", afirma.

"Treino" e novo afastamento

Sandry treina às 7h todos os dias e às vezes a atividade não conta com acompanhamento de algum dos profissionais de comissões técnicas da base.

"Meu treino começa 7h, acaba 7h40... Quarenta minuto de treino no máximo. Tem vezes que aparece gente da comissão técnica, tem vezes que não. Treinamos fundamento e depois um joguinho, como se fosse escolinha. Somos em quatro ou cinco. Dois contra dois", explica Sandry.

"Alguns dias fui levar no CT e ele me ligou 10 minutos depois dizendo que não tinha ninguém. Ou treino durou 20 minutos. É uma humilhação", conta o pai.

Depois de algumas semanas com a atividade com quatro ou cinco atletas fora dos planos da diretoria, sem contato com os demais da base, Sandry ouviu a um pedido de Márcio Griggio, técnico do sub-17, e pediu aos empresários e ao pai para atuar no Campeonato Brasileiro da categoria.

"Depois de um tempo, ele voltou a treinar no sub-17. Poderia dar migué, mas o Márgio Griggio, o técnico, deu parabéns pela entrega. Sandry pediu para jogar, a gente deixou e ele foi para campo. No jogo contra o Palmeiras, numa quinta-feira, levou pancada e jogou segundo tempo machucado. Eu disse que ele poderia atrapalhar ao invés de ajudar por causa da dor. Na sexta, fui para o hospital às 14h e saímos às 19h, até a aula ele perdeu na escola. E ele foi para o jogo contra o Vasco na segunda seguinte. Não teve tratamento no fim de semana pelo Santos, mas fizemos tratamento em casa por um pisão no pé. Sandry não aguentou jogar, saiu de campo e o time perdeu para o Vasco. No dia seguinte, ele foi novamente afastado", fala Carlos.

"Quem me afastou foi um massagista. Ele quem me deu a notícia. O treinador (Márcio Griggio) pediu desculpa hoje (quarta-feira) por isso. Disse que não foi ele quem me afastou, que foi a diretoria. Eu falei para ele que pelo menos tinha que ter ido me avisar. Se pediu para eu jogar, tinha que me avisar do afastamento", lamenta Sandry.

Sandry chegou ao Santos aos 11 anos (Pedro Azevedo)

Discussão com a diretoria

Logo depois do segundo afastamento no ano, no fim de abril, o pai de Sandry foi até o departamento de base para saber o motivo da decisão. A conversa descambou e acabou com forte discussão com o gerente Marco Maturana,

"Eu fui no clube e procurei saber o motivo, já que a notícia veio pelo massagista. Alegaram queda de produção, mas eu levei o notebook com o jogo gravado. O gerente disse que não viu o jogo e que soube pelos funcionários. Pedi para vermos o jogo, ele recusou. Disse que o Sandry precisa resolver os jogos. Perdi a razão porque vi maldade. Discutimos. Se ele falasse que afastaram por causa do contrato, tudo bem, é normal, mas mentir não dá", esbraveja o pai do atleta.

Vontade de ficar

Mesmo com tantos problemas no decorrer da temporada e nenhuma proposta recebida nos últimos meses, Sandry não quer sair. Ele, seu pai e o empresário acreditam que poucos dias de conversa são necessários para a renovação.

"É o time que me abriu as portas desde os 11 anos. Quero jogar aqui, sempre foi meu sonho. Isso não era para estar assim", garante Sandry.

"Recebemos muita porrada e ficamos quietos. Um monte de gente chamando de mercenário, que pedimos um valor altíssimo e não chegamos nem perto disso. Na verdade não pedimos nada, não tivemos uma reunião de verdade desde que o Sandry passou a treinar com Sampaoli. A última foi em novembro de 2018, quando falamos em aceitar o mesmo que pagam para outros jogos da geração do Sandry", pondera o pai.

Membros da diretoria afirmam que a pedida foi R$ 150 mil de salário, além de luvas para renovar - Sandry nega. A negociação seria concretizada por cerca de 20% desse valor em novembro.

Novas conversas

Com a relação desgastada entre Sandry, seu pai e o departamento de base, o presidente José Carlos Peres busca a renovação diretamente com o empresário Giuliano Bertolucci. Até o momento, porém, não houve avanço e nem reunião marcada.

A Gazeta Esportiva procurou Marco Maturana, chefe do departamento de base, e a assessoria de imprensa do clube por uma resposta ao que foi dito por Sandry e seu pai. Não houve retorno até o fechamento da reportagem.

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