SÓCRATES

São Paulo, SP

24-05-2018 16:53:01

Craque dentro dos gramados, o ídolo corinthiano foi importantíssimo na política brasileira, além de estar marcado na história de nossa Seleção como um dos meio campistas da Seleção de 82

O jogador mais politizado da história do futebol brasileiro

Sócrates, Doutor, Magrão. Não importa se chamado pelo nome ou pela alcunha. Trata-se do jogador mais politizado da história do futebol brasileiro. Foi o líder do maior movimento criado pela sua classe no País, a Democracia Corinthiana, em que os funcionários do Corinthians determinavam os rumos do clube por meio do voto – em plena Ditadura Militar.

Sócrates, no entanto, foi muito mais do que um cidadão engajado ou um médico, sua profissão de formação, de meiões e chuteiras. O Doutor também ganhou notoriedade pelo futebol elegante, de extrema habilidade, bem caracterizada pelo tipo de jogada que mais o marcou: o toque de calcanhar.

 

Frustrações em verde e amarelo

 

Sócrates disputou 63 partidas pela Seleção Brasileira, com 25 gols marcados. A estreia foi em grande estilo, em 17 de maio de 1979, com uma goleada por 6 a 0 sobre o Paraguai. Das Copas do Mundo de que participou, em 1982 e 1986, porém, ficaram as frustrações.

Sócrates compôs o fantástico meio-campo da Seleção Brasileira de Telê Santana no Mundial da Espanha, junto com Toninho Cerezo, Falcão e Zico. Após encantar o mundo com um futebol vistoso, o Brasil caiu naquele torneio diante da Itália, na semifinal. Poderia avançar até com um empate, mas acabou derrotado pelo time do carrasco Paolo Rossi por 3 a 2.

Quatro anos mais tarde, no México, a Seleção Brasileira empatava por 1 a 1 com a França nas quartas de final quando o goleiro Bats cometeu pênalti sobre Branco. Sócrates era o cobrador oficial do Brasil, mas permitiu que Zico, pouco depois de entrar em campo, batesse a penalidade máxima. O ídolo do Flamengo desperdiçou, e o jogo foi para a prorrogação e posteriormente para a decisão da marca da cal. Júlio César carimbou a trave, e Sócrates parou no goleiro francês, decisivo para o triunfo por 5 a 4 sobre a talentosa geração brasileira.

O surgimento no Botafogo-SP

 

O paraense Sócrates iniciou a sua carreira como atacante nas categorias de base do Botafogo de Ribeirão Preto, cidade para onde a sua família se deslocou no início da década de 1960. Não demorou a ser notado por quem estava a cargo do time profissional, chamando atenção pela qualidade técnica e pelo porte físico incomum, que lhe dava um aspecto desengonçado.

Paralelamente à dedicação ao Botafogo-SP, Sócrates iniciou a sua graduação em Medicina e, durante quatro anos, conciliou a formação acadêmica com o futebol. Por isso, foi chamado de “Craque-médico” e, depois, simplesmente de “Doutor”.

A profissionalização no futebol veio somente em 1974. Dois anos depois, Sócrates se tornou o artilheiro do Campeonato Paulista, com 15 gols. Era o que faltava para despertar o interesse dos clubes da capital. Em 1978, o folclórico presidente Vicente Matheus venceu a concorrência do São Paulo (clube que teria Raí, irmão de Sócrates, como ídolo) e contratou o Magrão como o novo dono da camisa 8 do Corinthians.

Doutor, eu não me engano, a democracia é corintiana

 

Sócrates vestiu a camisa corintiana em 298 partidas e marcou 172 gols, entre 1978 e 1984. Conquistou os títulos paulistas de 1979, 1982 e 1983 como protagonista. Logo em sua estreia, contra o Santos, antigo clube do coração, o Doutor já deu sinais de liderança dentro do gramado. O Peixe saiu à frente no placar, e, com calma, Sócrates foi ao fundo do gol, pegou a bola e a conduziu até o círculo central enquanto conversava com cada um dos seus companheiros. O Corinthians reagiu, e o jogo terminou empatado por 1 a 1.

A mesma personalidade foi mostrada também fora dos campos. Durante a sua passagem pelo Corinthians, Sócrates foi o mentor da Democracia Corinthiana, movimento criado pelos próprios jogadores que estabeleceu, entre outras ideias, o livre-arbítrio em relação à necessidade de concentração antes de cada partida e a oportunidade de participação nas decisões do departamento futebol do clube.

Inicialmente, a revolucionária iniciativa de Sócrates e outros jogadores, como os amigos Casagrande e Wladimir, não foi bem compreendida e levantou uma série de questionamentos. Ganhou até um ferrenho opositor dentro do próprio elenco do Corinthians, o goleiro Emerson Leão, ídolo do rival Palmeiras.

Os resultados obtidos nos tempos de Democracia, entretanto, são irrefutáveis. Antes de o movimento surgir, Sócrates já havia se estabelecido no clube com o título estadual de 1979 sobre a mesma Ponte Preta derrotada em 1977, ano do fim de jejum de conquistas expressivas do Corinthians. Em 1982, já com a nova ordem em vigor, o Doutor levantou outro troféu de Campeonato Paulista, desta vez sobre o rival São Paulo, que poderia se sagrar tricampeão naquele ano. Em 1983, a final e o vencedor se repetiram, consagrando o elenco de craques de bola e ideias.

A passagem pela Itália

 

No Vale do Anhangabaú lotado, Sócrates prometeu resistir às propostas para jogar no exterior e permanecer no Brasil caso a Emenda Constitucional Dante de Oliveira, que propunha a volta das eleições gerais e diretas no País, fosse aprovada no Congresso Nacional. A derrota política da democracia colaborou com a saída do Doutor para a Fiorentina, da Itália, em 1984.

A passagem por Florença não foi das melhores. Sem se adaptar ao clima, aos costumes e ao idioma locais, Sócrates sentia muita falta do Brasil e não rendeu tanto quanto no Corinthians. A aversão aos pesados treinamentos na Itália e o condicionamento físico atípico para um atleta pesaram para que ele encurtasse a trajetória no futebol europeu.

Retorno ao Brasil

 

Terminada a temporada europeia, Sócrates começou a receber convites para retornar ao Brasil. A Ponte Preta chegou a encaminhar a contratação do ídolo corintiano, que desistiu do negócio ao encontrar outros termos em Campinas. De volta à Itália, não atuou novamente pela Fiorentina. Acabou no Flamengo, ao lado do amigo Zico, com quem dividiu o gramado do Maracanã apenas em uma ocasião, em função dos problemas físicos de ambos.

Ao final do ano, Sócrates resolveu sair do Rio de Janeiro. Rodou pelos campos de várzea do interior paulista até meados de 1988, quando parou no Santos. As atuações pelo time da Vila Belmiro, contudo, foram discretas e tiveram fim em 1989, após desentendimentos com a diretoria.

O clube em que Sócrates encerrou a carreira foi o mesmo em que iniciou, o Botafogo-SP. Já com 35 anos, passou a sua experiência aos mais jovens antes de, enfim, dedicar-se também à Medicina.

Morte

 

Sócrates sofreu uma hemorragia digestiva em 2011, época em que reconheceu publicamente o seu problema de alcoolismo. Morreu aos 57 anos, em 4 de dezembro, no mesmo domingo em que o Corinthians conquistou o seu quinto título de Campeonato Brasileiro. Naquela tarde, antes do empate por 0 a 0 com o Palmeiras, jogadores e torcedores presentes no Pacaembu homenagearam o Doutor erguendo os punhos cerrados para o alto, como ele comemorava os seus gols.

*Narração: Michelle Giannella. Edição de áudio: Bruna Matos.

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