Ousadia e alegria

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Ousadia e alegria

A seleção croata surpreendeu o planeta na Rússia, protagonizou uma festa com milhares de pessoas nas ruas de Zagreb e agora tem a grande responsabilidade de se manter no topo do futebol mundial. Mas, para chegar longe na Copa, a federação do país, teve de tomar decisões ousadas e se sujeitar ao risco de estragar todo um ciclo de quatro anos.

21 de setembro de 2018 09:00:53
 

Há exatos 20 anos, a Croácia se sagrava terceira colocada da Copa do Mundo de 1998, na França, ao vencer a Holanda pela medalha de bronze. Mal sabiam os jogadores da seleção quadriculada que em 2018 o feito no principal torneio de futebol do planeta seria ainda maior. Surpreendendo a todos, Luka Modric e companhia chegaram à grande decisão do Mundial na Rússia e, mesmo perdendo o título para a França, marcaram seus respectivos nomes na história do esporte croata.

Mas, para entrar em campo no dia 13 de julho, no estádio Luzhniki, em Moscou, a seleção teve de tomar algumas decisões ousadas antes do início do Mundial. As escolhas foram feitas, boa parte delas sob o veredicto de Davor Suker, presidente da Federação Croata de Futebol, que optou por demitir o antigo treinador, Ante Cacic, antes do confronto direto com a Ucrânia, válido pela última rodada das Eliminatórias Europeias para a Copa do Mundo e que decidiria quem iria para a repescagem.

“Há que ter sorte, prudência e qualidade, porque não é fácil mudar o treinador nos últimos jogos. Não foi fácil, foi uma das piores noites da minha vida, mas isso é futebol. Poderíamos ter escolhido mal, mas escolhemos bem. Prolongamos o contrato dele [Zlatko Dalic], aumentamos o salário dele, então creio que estão todos muito felizes”, afirmou Davor Suker.

De todos os 23 jogadores que participaram da campanha croata na Copa do Mundo de 2018, apenas um atua em seu país de origem. Trata-se de Dominik Livakovic, terceiro goleiro da seleção comandada por Zlatko Dalic na Rússia. Atualmente, o guarda redes defende o Dinamo Zagreb, principal clube da Croácia e famoso por ser o principal exportador de talentos para as grandes ligas da Europa.

“Depois de cada jogo, todos ficavam juntos. Acho que é por isso que conseguimos criar uma ótima atmosfera, um ótimo ambiente, para chegarmos tão longe no Mundial”, recordou o promissor goleiro de 23 anos.

Natural de Zadar, o goleiro foi vizinho de Sime Vrsaljko, outro campeão do mundo, jogou onde Luka Modric deu seus primeiros passos no futebol e hoje tem o privilégio de contar com a ajuda e conselhos de Subasic, titular na meta da seleção croata durante o Mundial e que é mais um atleta revelado na cidade do litoral croata.

Após o vice-campeonato, resultado considerado uma vitória para a maioria dos croatas, a seleção desembarcou em Zagreb com uma recepção apoteótica. Apesar da pouca experiência no futebol profissional, Livakovic estava ali no meio, participando do momento mais glorioso do futebol de seu país e, como ele mesmo aparentou, dificilmente esquecerá aquele fatídico 16 de julho de 2018.

“Me lembro especialmente quando aterrissamos em Zagreb. Fomos para o ônibus aberto e levamos oito horas para chegar até a praça principal da cidade, percurso que geralmente leva 30 minutos. Fiquei muito orgulhoso, porque as pessoas estavam chorando, deixamos todas elas felizes, tornamos a vida delas um pouco melhor”, comentou.

A campanha memorável, no entanto, também traz suas consequências. Agora, Livakovic e seus companheiros terão a grande responsabilidade de se manterem no topo pelos próximos anos. Em 2020, haverá Eurocopa, mas o jovem goleiro prefere deixar a pressão de lado.

“Não quero pensar nisso. As pessoas agora esperam grandes coisas, mas não será trágico se tivermos alguns resultados ruins com a seleção croata após a Copa do Mundo”, disse o arqueiro do Dinamo Zagreb, como se estivesse prevendo a goleada por 6 a 0 sofrida para a Espanha na Liga das Nações. “Muitos jogadores experientes continuarão na seleção croata, como Rakitic e Luka Modric. Eles darão tudo para vencerem a Eurocopa”.

Presidente croata quer aproveitar o bom momento da seleção para alavancar questões sociais (Foto: Marcelo Baseggio/Gazeta Press)

Surfando na onda da Copa

Assim como em 1998 a Croácia conseguiu um ótimo jeito de promover o então recente país, que tinha saído da guerra havia poucos anos, em 2018 a presidente Kolinda Grabar-Kitarovic almeja aproveitar o sucesso da seleção na Copa do Mundo para que o povo não perca a onda de otimismo que tomou conta de todo o território croata após o vice-campeonato na Rússia.

“O que espero agora, e é o que estou tentando fazer juntamente com o primeiro-ministro, é usar esse momento, que é tão significante. O otimismo, o sentimento de unidade, vai ajudar a lidarmos com os problemas econômicos e a melhorar todos os modos de vida para os cidadãos croatas, dar um impulso para o desenvolvimento de todo o país”, disse a presidente Kolinda.

A governante também aproveitou para fazer um apelo ao povo croata. Ciente dos números alarmantes em relação ao êxodo de habitantes para outros países não só da Europa, mas do mundo, Kolinda Grabar-Kitarovic quer que as pessoas nascidas no país balcânico tenham um maior senso de patriotismo e sigam por lá para contribuir na transformação de uma sociedade que tem de lidar com uma série de problemas, entre eles a falta de emprego.

“Quero que os jovens estudem em outros lugares, trabalhem em outros lugares, mas que voltem para a Croácia. Quero isso para meus próprios filhos e para todo o mundo na Croácia. Que possam aprender novas línguas, vivam novas experiências, mas que voltem para a Croácia e faça o país crescer, um país onde os croatas mereçam estar”, concluiu.

Publicado em 21 de setembro de 2018 09:00:53
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