Moldado pela guerra

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Moldado pela guerra

Para se firmar como peça-chave no Real Madrid e chegar a ser eleito o melhor jogador da última temporada europeia pela Uefa, Luka Modric teve de deixar para trás muita coisa e aprender a conviver com as feridas mais profundas causadas pela guerra.

20 de setembro de 2018 09:00:12
 

Eleito melhor jogador do mundo pela Fifa, melhor da última temporada europeia pela Uefa, tetracampeão da Liga dos Campeões, tricampeão mundial de clubes, bicampeão da Supercopa da Espanha, campeão espanhol e campeão da Copa da Espanha.  Sua vitrine particular de títulos não se limita apenas aos citados, contudo, para chegar ao mais alto nível do futebol mundial, Luka Modric teve de aprender a lidar com uma realidade marcada por tragédias em meio à guerra pela independência da Croácia.

De um lado, croatas. Do outro, sérvios no país vizinho com a intenção de mantê-lo anexado a eles, batizando o território de República Sérvia de Krajina. Os combates aconteceram entre 1991 e 1995, decorrentes da morte de Josip Broz Tito, então presidente da República Socialista Federativa Iugoslávia e responsável por manter as nações unidas no bloco. No fim, a Croácia acabou declarando sua independência, mas seu povo, incluindo Modric, carrega até hoje as marcas daqueles tempos difíceis.

“Era um período muito perigoso, havia soldados sérvios a sete ou dez quilômetros daqui. Todo dia várias granadas, aproximadamente cem granadas, eram atiradas ao redor da cidade. A vida das crianças era normal até os alarmes tocarem. Quando os alarmes tocavam, todos se escondiam em abrigos. Era um período muito perigoso, hoje não conseguimos nem imaginar como era”, relembrou Josip Bajlo, dirigente do NK Zadar e responsável por descobrir Luka Modric, levando-o ao clube do litoral do país para dar seus primeiros passos no futebol.

O experiente sujeito, bastante envolvido com esportes – disputou as Olimpíadas de Munique, em 1972, no remo -, lembra bem da trajetória de Modric até Zadar, cidade de onde também saíram Sime Vrsaljko, Subasic e Dominik Livakovic e que é hoje um dos principais destinos turísticos do litoral croata. Se atualmente o município é conhecido pelas belas praias e suas paisagens estonteantes, nos anos 1990 tudo era completamente diferente.

Quem também se lembra bem do então pequeno garoto, delgado, de cabelo loiro, é Ksenjia Kardum, que trabalha no Hotel Kolovare há 44 anos. Foi lá que Luka Modric e sua família ficaram alojados durante a guerra depois de percorrerem uma longa distância para fugir das atrocidades sérvias.

O futebol, contudo, nunca foi deixado de lado. Mesmo durante um dos períodos mais sangrentos da Península Balcânica, Luka Modric e seu pai, Stipe Modric, continuaram jogando bola e apostaram no esporte como meio para fugir da dura realidade em que estavam inseridos. O resultado disso tudo todos já conhecem.

“É engraçado, porque havia muitas outras crianças no hotel, mas Luka, para mim, é especial, porque seu pai é um homem que eu respeito muito, que sempre apoiou muito o filho e sempre que tinha tempo jogava futebol com ele. Luka era pequeno, magrinho, e quando ele ia à recepção eu só via o pai dele, porque era muito baixinho. Só o via quando ele descia as escadas e saía pela porta. Claramente o pai dele reconheceu que Luka tinha algo a mais que os outros”, revelou Ksenjia Kardum, que teme o fato de Modric não lembrar mais dela.

“Primeiro de tudo, acho que ele não lembra de mim. Eu me lembro dele. Ele não é um familiar meu, não é meu filho, não fui sua treinadora, mas o admiro muito e fico muito feliz que ele tenha se tornado um jogador bem-sucedido e chegou ao mais alto nível do futebol mundial”, completou.

O talento que surpreendeu um dos primeiros treinadores de Modric

Luka Modric tem apenas 1,72m, estatura considerada baixa levando em conta a média do povo croata. No entanto, o porte franzino do meio-campista não foi obstáculo para ele, que encantou um de seus primeiros treinadores logo no princípio.

“Ele era pequeno, mas sua experiência no campo era brilhante, suas habilidades eram de alto nível, os outros jogadores respeitavam ele, porque ele era muito talentoso, apesar de não ter uma alta estatura”, disse Robert Botunac, técnico de Modric no sub-14 do Zadar e atual técnico das categorias de base do Dinamo Zagreb.

Pensava que ele seria um bom jogador no futuro, mas nunca imaginei que ele jogaria no Real Madrid

Apesar de não esconder a grande admiração pelo futebol de seu antigo pupilo, chegando a garantir que se sente parte do sucesso dele, Robert Botunac prefere não polemizar ao ser questionado se a Croácia chegaria à final da Copa do Mundo se não pudesse contar com seu camisa 10.

“Ele é o motor do time, mas não posso dizer que sem ele a Croácia estaria na final ou não. Fato é que boa parte do jogo dele foi brilhante e ajudou muito a seleção a chegar até a grande final da Copa do Mundo”, concluiu.

O sucesso moldado pela guerra

Claramente, a guerra trouxe mais prejuízos do que ganhos ao povo croata, se é que é possível imaginar algum ganho coletivo proveniente de uma violência brutal. Porém, o fato de a maioria dos jogadores da seleção do país terem vivido neste período difícil explica um pouco o sucesso deles não só na Copa do Mundo, mas também em seus respectivos clubes.

“Para todas as crianças dessa geração foi a mesma coisa. Modric e Subasic jogaram juntos, passaram pelas mesmas coisas, mas, talvez, esse período inimaginável tornou os jogadores mais fortes. Eles mostraram isso durante suas carreiras, os problemas que eles tiveram em suas carreiras não foram nada comparados a esses confrontos, a essa guerra”, disse Josip Bajlo.

Quem reiterou essa tese foi a própria presidente da Croácia, Kolinda Grabar-Kitarovic, que ficou famosa durante o Mundial da Rússia pela sua forma nada contida de apoiar a seleção quadriculada nas arquibancadas e também por quebrar protocolos habituais de chefes de Estado durante o maior evento futebolístico do planeta.

Agora, sem guerra e com a enorme responsabilidade de se manterem entre a alta classe do futebol mundial, os crotas não temem o que virá pela frente. Certos de que possuem mais talentos para seguirem impressionando o planeta, eles parecem já ansiar pela próxima Copa do Mundo.

“Fico muito orgulhoso, porque a escola do Zadar, essa escola, não é admirada apenas na Croácia, mas em todo o mundo. Muitos jornalistas de todo o planeta vêm aqui para fazer reportagens que mostram o quão importante é Zadar e sua escola de futebol. Tivemos quatro jogadores na final da Copa do Mundo. Não sei quantos clubes podem falar que formaram quatro jogadores que disputaram uma final de Copa do Mundo”, comentou o dirigente do Zadar, Josip Bajlo.

“O técnico da Croácia não precisa se preocupar em relação a jogadores, porque temos muitos jogadores talentosos, espero que todos eles possam jogar pela seleção croata no futuro. O Dinamo Zagreb é a base da seleção croata, ensinamos a eles como serem melhor em todas as situações para que eles possam, um dia, chegar à seleção croata. Temos os melhores treinadores, as melhores peneiras do país”, completou Botunac, antigo técnico de Modric.

 

Publicado em 20 de setembro de 2018 09:00:12
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