A responsável por aperfeiçoar o judô brasileiro antes das Olimpíadas do Rio de Janeiro 2016 gosta de aipim, tem um filho chamado João, frequenta as praias cariocas e é próxima de todos os atletas da equipe. Mas nasceu em Nagoya, a quarta cidade mais populosa do Japão.
Yuko Fujii chegou ao País em 2013 apesar da resistência dos familiares, que tinham medo da violência carioca – os temores aumentaram quando, poucos dias depois de se mudar para o Rio de Janeiro, descobriu que estava grávida. A judoca ignorou as reclamações. Gostou tanto da nova casa que homenageou o Brasil ao nomear seu primeiro filho: Kyotake João.
A japonesa faz parte de um contingente de 49 técnicos estrangeiros contratados pelo Comitê Olímpico do Brasil (COB) para tentar colocar o país-sede no top 10 do quadro de medalhas dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro 2016. Este é o primeiro capítulo da série Made for Brasil, publicada às segundas-feiras, em que a Gazeta Esportiva apresenta perfis destes profissionais.
Se como competidora não conseguiu nem sequer integrar a seleção, Yuko Fujii se prepara para participar dos Jogos como técnica pela segunda vez. E de novo pela equipe da casa. “Não imaginei que minha vida seria assim, né. É coincidência. Acho que as Olimpíadas me chamam. Como atleta não fui, mas como técnica...”, diverte-se, falando em português.
A adaptação ao Rio foi bem mais fácil do que à Inglaterra, para onde se mudou após concluir a faculdade, tentando aprender inglês. Mesmo sem falar direito a língua local, ensinava judô a atletas universitários. Tão bem que ganhou uma vaga na comissão técnica da equipe nacional britânica, com a qual conheceu a cidade que anos depois seria a sua casa. O Campeonato Mundial de 2007 ocorreu na mesma arena que em 2016 sediará os eventos olímpicos de ginástica.
Yuko fez questão de acabar rapidamente com o primeiro fator de estranhamento com o Brasil. Aprendeu português em 30 horas de aulas particulares, fornecidas pelo COB, e em livros. Depois que conhecia o suficiente para se comunicar, começou a conversar o máximo possível para praticar.
Só demorou a se acostumar com o trânsito carioca. Morando em Botafogo e trabalhando no Centro de Treinamento do Time Brasil, na Barra da Tijuca, gastava horas no transporte público entre a sua casa e o tatame. Tirou carteira de motorista e começou a fazer o trajeto de carro. Mas a rotina mudou com o nascimento do filho brasileiro.
Yuko chegou ao Brasil com o marido depois de trabalhar com a Grã-Bretanha em Londres 2012 (Foto: Fernando Dantas/Gazeta Press)
Para ficar mais tempo ao lado de Kyotake João, Yuko se mudou com o marido Haruki para o bairro onde trabalha. A técnica aproveita os intervalos entre os períodos de treinamento para voltar para casa de carro, almoçar e brincar com o filho. Muitas vezes também leva ao CT do Time Brasil o herdeiro, que teve a parte brasileira de seu nome escolhida por Ney Wilson, gestor técnico de alto rendimento da Confederação Brasileira de Judô (CBJ).
“Não tem como não brincar com o moleque um pouco. Ele é muito engraçado. De vez em quando, durante os treinos, o marido dela tem que controlar porque ele gosta de correr, brincar”, explica Victor Penalber, ex-líder do ranking mundial e medalha de bronze nos Jogos Pan-Americanos de Toronto 2015 e no Campeonato Mundial do último ano.
É o marido da treinadora da Seleção quem passa mais tempo com o filho do casal. O nascimento de Kyotake lhe deu o direito ao visto de trabalho no Brasil, mas ele prefere cuidar da casa e levar o pequeno nipo-brasileiro para brincar no parque e na praia. “Meu filho já está moreno”, sorri Yuko.
A rotina de viagens da técnica também pesa na decisão de Haruki em ser dono de casa. Trabalhando com a Seleção, ela conheceu o Norte e o Nordeste do Brasil, onde ficou encantada com um prato da culinária típica: o aipim cozido. Para sua sorte, a CBJ conta desde 2014 com um centro de treinamento em Lauro de Freitas, região metropolitana de Salvador. Quando está no Rio, Yuko e o marido fazem feijão, comem churrasco e bebem caipirinha em uma rotina alimentar que mistura receitas brasileiras e japonesas.
Kyotake João visita a mãe em treinos dos judocas olímpicos do Brasil no Rio (Foto: Reprodução)
A treinadora também gosta de visitar São Paulo com motivações gastronômicas. Pela forte presença da colônia nipônica na maior cidade da América do Sul, há abundância de restaurantes japoneses. São 600 estabelecimentos servindo aproximadamente 400 mil sushis por dia, nas contas da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes. Entre os mais tradicionais, preferidos pela família Fujii, e os com adaptações para agradar ao público nacional.
Os japoneses foram responsáveis por tornar o Brasil uma potência mundial no judô – ocorreram ao menos duas grandes ondas migratórias e São Paulo recebeu boa parte do contingente de estrangeiros. Em Munique 1972, Chiaki Ishii, que nasceu no Japão e se naturalizou brasileiro, conquistou a primeira medalha olímpica nacional na modalidade, um bronze.
Os próximos pódios vieram em Los Angeles 1984 com a prata de Douglas Vieira e os bronzes de Walter Carmona e Luis Onmura, este filho de um imigrante japonês. Desde então, o Brasil conquista medalhas nas disputas de judô em todas as edições dos Jogos. É o segundo esporte que mais rendeu condecorações ao País na história, 19. Só em Londres 2012 foram um ouro e três bronzes.
“O judô no Brasil já está muito grande e muito forte. Tem professores bons, técnicos experientes e atletas com vontade de aprender. Tem tudo. Meu trabalho para as Olimpíadas é de ajuste”, diz Yuko. “O judô aqui é bem limpo, bem judô. Não gosto de falar judô japonês porque judô é judô. Mas é bem judô de verdade” tenta explicar.
É esse judô de verdade dos atletas brasileiros que a técnica tenta aperfeiçoar. Começou trabalhando com a equipe feminina e hoje treina também atletas do masculino. Antes de aprender português, dava aulas em inglês para quem entendia, como Victor Penalber. Se não funcionava, tentava se comunicar com gestos e demonstrando os exercícios.
Aipim, praia e trânsito integram a rotina de Yuko no Brasil (Foto: Fernando Dantas/Gazeta Press)
O trabalho ficou mais fácil quando Yuko compreendeu a língua local e passou a explicar aos atletas por que pedia cada movimento. No Japão, diz, os alunos executam o que o professor ordena sem questionar. No Brasil, querem entender como vão ser beneficiados antes mesmo de começar a fazer.
Ao contrário do que se poderia esperar, a treinadora japonesa da Seleção gosta desta postura – acredita que o atleta pensa sobre sua atuação em vez de trabalhar mecanicamente. E, com isso, ganhou a confiança dos judocas. Conversa sobre estratégias de combate e ajuda na preparação psicológica de quem vai disputar os Jogos Olímpicos em casa pressionado por um bom resultado. O desempenho do judô no Rio de Janeiro é fundamental nas pretensões do COB de colocar o País no top 10 do quadro de medalhas, levando em conta o número de condecorações.
Por esse critério, o Brasil encerrou Londres 2012 com a 16ª colocação graças a 17 pódios (quatro deles no judô). A décima posição foi da Itália, com 28. O quadro de medalhas oficial do Comitê Olímpico Internacional (COI) leva em conta o número de ouros para estabelecer a ordem. Neste, o Brasil foi o 22º.
“A pressão vai ser muito grande, mas percebo que os atletas daqui lutam com o coração. E as pessoas que torcem vão dar força para eles, tenho certeza de que vão utilizar essa força. A gente tem vantagem”, analisa Yuko.
A treinadora japonesa ainda aproveita os diálogos com os judocas para conversar sobre as diferenças culturais e as peculiaridades do estilo de vida da cidade que em 2016 receberá milhares de técnicos e atletas de todo o mundo.
“Ela é muito curiosa, está sempre perguntando o significado de alguma coisa. Ela entende o português, mas tem muita gíria, e a gente tenta explicar que algumas palavras têm duplo-sentido”, diz Penalber.
Técnica japonesa aposta em brasileiros fortalecidos pela torcida (Foto: Fernando Dantas/Gazeta Press)
Yuko tem algumas oportunidades de falar seu primeiro idioma no trabalho, além das viagens com a Seleção ao Japão. Muitas das suas conversas com Luiz Shinohara, técnico da equipe nacional masculina, são em japonês. O treinador nasceu em Embu das Artes, mas aprendeu a língua de seus ancestrais em casa.
Ela também precisa manter comunicação constante com seus familiares no Japão por causa do medo da violência, agravado após o nascimento de Kyotake João. Em mais de dois anos morando no Rio de Janeiro, a judoca garante nunca ter enfrentado problemas pela falta de segurança.
Durante os Jogos, Yuko pode ter a oportunidade de mostrar a seus parentes que a vida no Rio de Janeiro não é tão aterrorizante quanto eles acham. E consegue ter benefícios como o constante contato com a natureza, exaltado pela treinadora que nasceu em uma cidade com forte presença da indústria automotiva e o maior porto comercial do país.
Nas Olimpíadas de Londres 2012, a treinadora japonesa teve o apoio dos pais nas arquibancadas do Centro Excel, onde foram realizadas as disputas do judô. Em 2016, Yuko estará na Arena Carioca 2, no Parque Olímpico da Barra, a dez minutos de caminhada de onde trabalha diariamente com os atletas nacionais.
“Eles estão um pouquinho preocupados com minha vida aqui por causa do filho, do perigo. Eu sempre falo que a gente está se cuidando e que não é muito perigoso, não. É. Tem perigo, mas a gente está se cuidando bem.”