O guineense João Carlos Soares Gomes de Barros chegou ao Brasil para treinar a Seleção de boxe com um objetivo claro. A ideia era permanecer por uma temporada e depois se mudar para Portugal, onde muitos de seus familiares residem. Mas os planos mudaram ligeiramente, e ele já está há 20 anos no comando da equipe nacional do País onde se casou, teve filho, comprou casa e carro.
João Carlos nasceu na cidade de Bolama, da ilha de mesmo nome, na Guiné-Bissau. Lá aprendeu português, além do crioulo, mistura de dialetos locais, até se mudar para Cuba, onde estudou Educação Física por nove anos e se especializou em boxe. Por meio de um convênio, chegou ao Brasil em 96 pensando em trabalhar por um ano e se mudar novamente. Desta vez para Portugal.
Ele faz parte do contingente de 49 técnicos estrangeiros contratados pelo Comitê Olímpico do Brasil (COB) para tentar levar o país-sede ao top 10 do quatro de medalhas nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro 2016. Este é o oitavo capítulo da série Made for Brasil, em que a Gazeta Esportiva apresenta perfis destes profissionais.
O guineense queria se acostumar novamente a falar português antes de ir a Lisboa. Mas conheceu Elenir, virou pai de Adler e foi morar em Santo André em vez da capital portuguesa. Como resultado, fez seu novo País quebrar um jejum de 44 anos sem medalhas olímpicas em sua modalidade, levando os irmãos Yamaguchi e Esquiva Falcão e Adriana Araújo ao pódio nos Jogos de Londres 2012.
“Minha casa é brasileira, minha mulher é brasileira, meu filho é brasileiro, meus cachorros são brasileiros. Como eu não vou ser brasileiro?”, diverte-se João. Com o mesmo nome e características físicas de muitos de seus novos compatriotas, o técnico encontrou poucas dificuldades de adaptação.
Assim como o Brasil, Guiné-Bissau foi colonizada por Portugal. Logo, ele já falava português quando chegou ao País em 1996. Só estranhou as variações no idioma que conheceu na infância e a diversidade de expressões utilizada pelos atletas da Seleção, oriundos de diferentes regiões nacionais.
Foi aprendendo aos poucos com ajuda de Elenir, a namorada que virou esposa. Os primeiros atletas também estranharam o sotaque e as ordens dadas por João, que começava a transportar para o Brasil o estilo da premiada escola cubana de pugilismo. Quando Adler nasceu, já em 1997, decidiu ficar no País definitivamente. “Acabei amarrando meu burro aqui”.
Desde que chegou, o técnico mora em Santo André, cidade que abrigava o centro de treinamento da Seleção Brasileira da modalidade. O time nacional melhorou sua estrutura em 2010, quando passou a trabalhar diariamente em um espaço cedido pela prefeitura de São Paulo a poucos metros do Terminal Santo Amaro de ônibus, mas a viagem ficou maior para João.
Para estar às 8 horas no ginásio, levanta da cama às 5h15, às vezes às 5h20, e percorre de carro os 40 quilômetros que separam sua casa do Clube Escola Joerg Bruder. Leva aproximadamente uma hora e meia – o pior trecho é quando chega na Avenida Cupecê. Dois períodos de treino depois, faz o caminho inverso no fim da tarde e enfrenta ainda mais trânsito. Aí demora duas horas para chegar em casa.
Trabalho com a Seleção Brasileira compensa o trânsito diário entre Santo André e Santo Amaro (Foto:Sergio Barzaghi/Gazeta Press)
Como a maioria dos moradores das grandes metrópoles nacionais, João Carlos Barros lamenta o tempo desperdiçado diariamente no deslocamento, mas pelo menos tem companhia no trajeto. Faz as viagens ao lado de Abel Bokovo, que assim como ele é africano (nasceu no Benin), morou em Cuba e é técnico da Seleção Brasileira. E ainda gosta de seu trabalho, luxo que muitos dos que estão parados em carros a seu lado não têm.
“O trânsito é pesado e dificulta um pouco. Mas tirando isso, o trabalho é bem leve”, afirma João. Nem todos seus comandados concordam com essa avaliação. Com o cronômetro pendurado no pescoço, controla a duração de cada sessão de exercício enquanto cobra que os atletas mantenham a concentração e o ritmo até o apito soar para anunciar um breve descanso.
Na pausa dá tempo quase só de tomar um gole de água, enxugar o suor do rosto com as costas da luva e se reposicionar antes do técnico anunciar a retomada das atividades. “O boxe dele vem de Cuba e o cubano tem um jeito próprio de puxar o treino, fortalecer a base e os fundamentos. É bem diferente”, diz um ofegante Juan Nogueira.
O peso pesado chegou à Seleção para o atual ciclo olímpico e garantiu vaga no Rio de Janeiro para integrar a equipe que tentará, ao menos, igualar a campanha nacional de Londres 2012. Na capital inglesa, foram três medalhas para o Brasil. “Com grandes poderes, vêm grandes responsabilidades”, sentencia Chokito, como é conhecido, utilizando uma frase da história em quadrinhos do Homem-Aranha.
O desempenho do boxe brasileiro em Londres foi expressivo não apenas pelo número de pódios. O Brasil não tinha uma medalha da modalidade desde as Olimpíadas da Cidade do México 1968, em que Servílio de Oliveira foi bronze. E foi ele mesmo que previu o fim do jejum.
Dias antes da Seleção embarcar para Inglaterra, João Carlos Barcos encontrou o medalhista dos anos 1960 em um supermercado de Santo André. Ouviu de Servílio que Éverton Lopes e Robson Conceição subiriam ao pódio. O ex-pugilista errou o santo, mas acertou o milagre. As medalhas vieram com Adriana Araújo e os irmãos Esquiva e Yamaguchi Falcão.
“Foi uma grande satisfação para minha vida como técnico. Já fui a todas as competições que existem, é toda uma história de vida. São experiências que levo comigo”, diz João, que classifica como rudimentar o pugilismo brasileiro na época em que chegou ao País.
João Carlos levou os irmãos Esquiva e Yamaguchi Falcão ao pódio em Londres 2012 (Foto: Washington Alves/AGIF/COB)
O técnico também tinha um boxe rudimentar quando deixou Guiné-Bissau. Praticava a modalidade apenas por lazer, com orientações de um instrutor local. Deixou sua terra natal para adquirir instrução formal em Cuba e nunca retornou. Além do boxe, aprendeu na ilha de Fidel Castro um ditado que usa para explicar os 30 anos longe de onde nasceu: “para trás, nem para pegar impulso”.
O país da África ficou nas memórias do treinador da Seleção Brasileira, que ainda se lembra do caminho rodeado por cajueiros que fazia todo sábado de manhã para chegar à praia; do pai e da mãe, já mortos; e de alguns alimentos típicos como os frutos cabaceira e veludo.
João conseguiu matar parte das saudades em uma recente visita a Cabo Verde, ilha próxima a Guiné-Bissau, para ministrar um curso pela Associação Internacional de Boxe (Aiba). Em uma noite, jantou na casa de uma sobrinha e não conseguiu se conter diante do caldo de mancarra, prato típico feito com pasta de amendoim.
Um dos fatores que contribuíram para o técnico nacional não retornar a seu país de origem foi a guerra civil iniciada em 1998 com o golpe militar para tentar derrubar Nino Vieira, no poder desde 1980. O conflito durou aproximadamente um ano e acabou com a deposição do presidente. Em 2005, o político voltou a ser eleito para comandar o país, 178º colocado entre 188 nações no ranking do Índice de Desenvolvimento Humano.
“A guerra acaba com tudo. Com tudo. Com a cidade, com as pessoas. Muitos foram embora e vai ser difícil para voltarem”, lamenta João Carlos. “Fiz minha vida aqui, são 20 anos de trabalho, não vou deixar de mão beijada. Tem trabalho para mim lá? Tem, mas o nível de vida é diferente. Minha esposa vai abrir mão de viver aqui para morar lá na África?”.
Em seus 20 anos de Brasil, João Carlos Soares Gomes de Barros conseguiu cidadania local, tirou passaporte, RG, CPF, e se acostumou com o modo local de acompanhar o esporte. Por isso sabe que seus pugilistas estarão sob pressão depois das medalhas conquistadas em Londres 2012.
Rigor da escola cubana de pugilismo abastece sonho por medalhas no Rio (Foto: Sergio Barzaghi/Gazeta Press)
A equipe nacional competirá em casa com a meta de repetir os três pódios da Inglaterra e a esperança de que terá pelo menos uma medalha diante da torcida no Rio de Janeiro. O prognóstico poderia ser ainda melhor se Esquiva e Yamaguchi não tivessem optado por seguir ao mais lucrativo boxe profissional depois do sucesso olímpico.
O treinador da Seleção garante respeitar o caminho escolhido pelos irmãos, percorrido anteriormente por outros atletas que também passaram pelo time nacional. No Rio, a Aiba autorizou pela primeira vez na história a participação de atletas profissionais nos Jogos, mas a decisão dispertou críticas de pugilistas e a ameaça da Federação Internacional de Boxe (FIB) de suspender os boxeadores e cassar os cinturões dos que lutassem no evento.
Mesmo sem os pugilistas do clã Falcão, João Carlos crê em boas chances para os atletas brasileiros, motivados por atuarem diante de amigos e familiares. Mesmo sem subir no ringue ou ter nascido no Brasil, o técnico da Seleção reconhece que o evento de 5 a 21 de agosto será especial para ele.
Uma oportunidade rara para Elenir, Adler (acompanhados dos cachorros) e seus amigos acompanharem de perto o resultado de mais quatro anos acordando às 5 horas, enfrentando 80 quilômetros de trânsito, deixando de comer os pratos típicos de Guiné-Bissau e controlando períodos de treino e descanso para que outros brasileiros subam ao pódio e possam colocar seu nome na história do esporte nacional ao lado de Servílio Oliveira, Esquiva e Yamaguchi Falcão e Adriana Araújo.
“Isso não se repetirá mais. É uma oportunidade única. A emoção e a expectativa são uma só. Não sei como explicar tudo isso. Se em outros países já era grande emocionalmente, imagine agora aqui no Brasil, dentro da sua casa. Vai ser grande, uma alegria só”.