Casão sem limites

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Casão sem limites

Do alto de seus 56 anos, Casagrande admite exageros na vida profissional e pessoal. Um deles lhe custou a Copa do Mundo

Tiago Salazar - São Paulo - SP 29 de abril de 2019 12:00:31
 

Casagrande alcançou o sucesso rapidamente no futebol, marcou história com a camisa do Corinthians, também foi bem por São Paulo e Flamengo, além de conquistar o respeito dos europeus Porto e Torino. Inevitavelmente sua carreira passaria pela Seleção Brasileira. No segundo dos 10 capítulos da entrevista exclusiva à Gazeta Esportiva, o ex-centroavante detalhou o único momento de sua trajetória como atleta que não lhe rende orgulho.

“Eu sinto orgulho em todos os momentos. Só não sinto da Copa de 86. Eu errei tudo na Copa”, admitiu, sem deixar de reconhecer que sua visão sobre os acontecimentos passados é bem diferente hoje em dia. “Na época eu queria matar o Telê (Santana, técnico do Brasil na ocasião).

“Primeiro, eu fui muito bem nas Eliminatórias e fui muito bem nos treinamentos e nos jogos preparatórios para a Copa, antes de julho, porque eu me dediquei muito. Quando acabou o ano de 85, foi péssimo para o Corinthians, que fez aquele puta time e não deu em nada. O único que se deu bem naquele ano fui eu”, recordou.

“Começou 86 e o (Gilberto) Tim foi para ser preparador físico do Corinthians, e ele era preparador físico da Seleção. Ele era muito exigente. O treino era pesado pra cacete. Fizemos a pré-temporada em Águas de Lindoia e em fevereiro eu estava em forma”, continuou.

“Saiu a convocação da Seleção Brasileira. Eu cheguei para o Tim e disse: ‘Tim, é o seguinte, eu acabei de fazer a pré-temporada com você, cara. Eu vou ter de fazer de novo?’ Ele falou: ‘é igual para todo mundo, garotinho, tem de treinar, tem de treinar’. Eu fiz outra pré-temporada. Em maio eu estava voando, joguei pra cacete, fiz quase todos os gols”.

A disciplina nos treinos sempre repercutiu muito para Casagrande, tanto para o sucesso quanto para o fracasso. A Copa de 1986 foi a primeira decepção causada pelo descontrole na preparação.

O preparador físico da Seleção Brasileira nas Copas de 1982 e 1986, Gilberto Tim, e Walter Casagrande (Foto:Sergio Barzaghi/Gazeta Press)

“Quando eu cheguei na Copa eu estava em declínio físico, estresse físico e tinha de parar e repousar por um mês e era a Copa do Mundo. Meu sonho era a Copa do Mundo, me prepararei para aquilo, só que passei do ponto. Eu não consegui dar limite para mim nos meus treinamentos”, reconheceu o então reserva de Careca e Müller.

“Outra coisa: eu não tive limite na Copa. Davam folga, eu saía e aparecia 10 da noite, sabe? Com Circo Voador, Alceu Valença… estava todo mundo lá. Eu estava em todas as festas. E eu errei nisso aí também, me expus muito nas folgas. Eu poderia fazer algo mais tranquilo, mas eu não era tranquilo. A minha vida era aquela. Eu não tenho orgulho daquele momento na Copa”.

A ausência de limites na vida pessoal, aliás, é outro ponto que Casagrande, ao olhar para a própria história, sente falta. A exceção do mergulho nas drogas, o hoje comentarista jamais se rebelou contra a postura combativa e firme, totalmente interligada com outros mundos que não apenas o do futebol, de sua juventude. A questão maior atinge os exageros.

“Eu mudaria uma coisa, que era meu estilo de vida, que era igual do Sócrates, que era o seguinte: a gente fazia tudo que a gente queria, em qualquer lugar, sem se preocupar com nada. Não tinha as redes sociais, não tinha isso. Mas a gente bebia no Bar da Torre, dentro do Corinthians, depois do treino. Ou íamos almoçar e o almoço acabava 10 horas da noite. Ficávamos tomando cerveja até 10 horas da noite. Qualquer um que chegava ali podia sentar e ficar batendo papo, era aberto. E eu acho que isso, olhando para trás, a gente poderia diminuir isso”, afirmou.

Casagrande e Serginho Chulapa estiveram juntos na Seleção Brasileira que disputou a Copa de 1982 (Foto: Sergio Barzaghi/Gazeta Press)

“Daria mais respeito com a gente. A gente não tinha condições, por esse estilo de vida, de dar um limite para alguém, porque nós abrimos o nosso. Eu e o Sócrates não conseguimos dar limite, até porque a gente nem queria dar mesmo. E eu mudaria isso há 30 anos, daria mais limite”.

Por coincidência do destino, enquanto externava seus arrependimentos, Casagrande se deparou com uma foto de seu arquivo na Gazeta Press em que aparece ao lado de Sócrates e mais amigos, todos sentados, com as garrafas de cerveja sobre a mesa. Casão não titubeou e interrompeu o próprio raciocínio.

Casagrande, Sócrates e amigos em conversa com jornalistas. Ex-atacante se arrepende dos excessos dos tempos de jogador (Foto:Sergio Barzaghi/Gazeta Press)

“Vê se havia necessidade de acontecer isso. Não podia ser evitado? Você não podia sentar e falar ‘não tem foto, não tem entrevista, não tem nada. Vocês preferem o que, ir embora ou ficar com a gente batendo papo?’ Todo mundo ia ficar. É uma cena muito bacana, muito legal, mas, descartável. Porque se você pega uma foto dessa e vai discutir com os jogadores e treinadores de hoje, eles vão falar: ‘nossa, que absurdo’.

A risada pela fotografia inesperada em suas mãos deu lugar a serenidade de Casagrande com a conclusão sobre o assunto.

“Uma vez, na época, me perguntaram numa entrevista e eu disse: eles podem me cobrar dentro do campo. O que eu faço fora é problema meu. Só que a nossa profissão não é assim. Eu diminuiria a minha exposição”.

Publicado em 29 de abril de 2019 12:00:31
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