Quando Alkhas Lakerbai viajou ao Brasil em 1995, planejava ficar três meses de férias onde a mulher Valeria trabalhava temporariamente como técnica de ginástica. Aproveitou as primeiras semanas na praia, mas passou o restante do período dando aulas de esgrima em São Paulo, mesmo sem falar uma palavra em português. Gostou tanto que já está há mais de 20 anos no País e agora é técnico da Seleção Brasileira de sabre, que se prepara para disputar os Jogos Olímpicos de 2016 em casa.
Nascido durante o regime soviético na cidade de Vitebsk, atualmente território bielorrusso, Alkhas cresceu em Moscou, onde estudou, treinou esgrima e ainda tem família. A ponto de se considerar russo e ter a cidadania do país em que cresceu, não do que nasceu.
Ele é um dos 49 técnicos estrangeiros contratados pelo Comitê Olímpico do Brasil (COB) para tentar colocar o país-sede no top 10 do quadro de medalhas dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro 2016. Este é o quinto capítulo da série Made for Brasil, publicada às segundas-feiras, em que a Gazeta Esportiva apresenta perfis destes profissionais.
No Brasil, Alkhas ascendeu profissionalmente ao lado da mulher Valeria Lakerbai, agora técnica da Seleção Brasileira de ginástica artística, criou a filha Karina, atleta da equipe nacional de esgrima, comprou apartamento, uma casa na praia de Itanhaém e abriu uma academia para ensinar seu esporte.
Adaptou-se bem porque vê muitas semelhanças entre os dois países que ama, apesar dos quase 12 mil quilômetros que separam São Paulo de Moscou e da diferença de clima. Na capital russa, a temperatura máxima média no verão é de 24ºC. No inverno, costuma chegar a 10ºC negativos.
“O povo brasileiro é bem parecido com o povo russo. Não estranhei. Até coisas da vida são parecidas”, garante em um português carregado de sotaque. “Burocracia, tudo isso na Rússia também tem. Não é novo. O povo é alegre, bem parecido. Só a língua é diferente”, explica.
Alkhas começou ensinar esgrima no Ginásio do Ibirapuera antes mesmo de conseguir entender português. Para isso, preparava antecipadamente as aulas e buscava no dicionário as palavras mais importantes. O que não conseguia explicar tentando falar, demonstrava com a arma na mão ou por meio de gestos.
Depois de duas décadas, o técnico russo já consegue se comunicar sem problemas no idioma local e tem seu próprio negócio: a Academia Paulista de Esgrima, no centro de São Paulo. É lá que que orienta atletas da ascendente Seleção Brasileira e iniciantes que ainda dão os primeiros passos nas pistas de esgrima. Tudo em português e até com algumas marcas da oralidade brasileira. “Finalizou direitinho”, elogia ao observar uma aluna.
Quase tudo em português. Karina, filha de Alkhas e atleta da Seleção, recebe ensinamentos em russo, idioma falado na casa dos Lakerbai. Ela chegou ao Brasil em 1995 com o pai, que tinha três meses de férias acumuladas depois de três anos de trabalho sem pausa na já independente Bielorrússia, e ganhou uma nova nacionalidade.
Alkhas já se considera brasileiro depois de 20 anos morando no País (Foto: Djalma Vassão/Gazeta Press)
Como ainda era criança, teve mais facilidade do que os pais para aprender português e pôde frequentar normalmente a escola. Em casa, a família continuou falando russo para que Karina não se esquecesse. “Ela tem erros de russo, mas não de português”, garante Alkhas, satisfeito também por manter contato quase diário com a filha de 27 anos, formada em Ciências Sociais.
Medalha de ouro nos Jogos Sul-Americanos 2014, a mais jovem integrante do clã Lakerbai acredita ser favorecida pela ascendência, já que consegue se adaptar rapidamente em períodos de treinos na Ucrânia e na Rússia. Só vê um ponto negativo em seu treino ao lado do pai. “Ele tenta sempre ser justo. Quando jogo contra alguém e ele está arbitrando, todos os pontos que não são claros ele dá contra mim para não correr o risco de ter me favorecido”, diz.
A sala em que o técnico russo guia sua filha, atletas da Seleção Brasileira e iniciantes fica no Centro de São Paulo, a poucos metros de famosos pontos da cidade: o edifício Copan, projetado por Oscar Niemeyer, a Praça da República e a Love Story – A Casa de todas as Casas.
Alkhas buscava um espaço com pelo menos 16 metros de comprimento, já que a pista de esgrima tem 14m e ainda é necessário 1m de escape para cada lado, e pé-direito alto para que o sabre não batesse no teto durante as movimentações. Encontrou em um edifício garagem no segundo quarteirão da Rua Araújo, onde também está o Clube de Xadrez de São Paulo.
Pesaram na escolha a proximidade do Metrô República e do Terminal Anhangabaú, a presença constante de seguranças no prédio por causa da garagem, as câmeras de vigilância do hotel localizado em frente e, obviamente, o preço. Assim, foi decidido o terceiro endereço da Academia Paulista de Esgrima, que já ficou na Avenida dos Bandeirantes e na Rua Apiacás, em Perdizes. Na primeira sede, era apenas uma pista. Hoje são seis no empreendimento que tem os ex-alunos Serguei Kovaliov, também nascido na Bielorrússia, e Denise Fried, brasileira, como sócios.
Para chegar à República, mesma palavra que utiliza para se referir à União Soviética, Alkhas Lakerbai se espreme em meio a tantos outros brasileiros no transporte público. Caminha 50 metros do prédio em que mora, pega um ônibus na Avenida Santo Amaro, desce no meio do caminho e vai em outro até o Terminal Bandeira, de onde precisa caminhar dez minutos.
Técnico (bielo)russo montou academia no Centro de São Paulo (Foto: Djalma Vassão/Gazeta Press)
Isso quando está disposto. Em dias de preguiça, opta pelo 669A-10 Terminal Princesa Isabel, que cruza a Avenida Paulista e o deixa quase em frente à Igreja da Consolação, a duas quadras do trabalho. São aproximadamente 30 minutos no trajeto. Se tirasse o carro da garagem, calcula que levaria, pelo menos, 50.
Alkhas também gosta da localização de sua academia porque só precisa andar 100 metros para pegar um ônibus que o leva até o Aeroporto Internacional de Guarulhos. De lá costuma viajar para acompanhar a Seleção Brasileira em competições internacionais e estágios de treinamento pelo mundo.
Isso ficou mais comum depois que o Rio de Janeiro foi escolhido como sede das Olimpíadas de 2016, o que auxiliou a Confederação Brasileira de Esgrima a obter patrocínio da Petrobras. Até então amadores, os atletas passaram a receber salário e viraram profissionais.
Um dos destaques nacionais da modalidade é Renzo Agresta, que participou das últimas três edições dos Jogos Olímpicos. Ele treinou com Alkhas antes de ir a Atenas 2004 e entre 2012 e 2014. No início de 2015, resolveu voltar a morar na Itália, onde trabalha sob orientação de Alessandro Di Agostino, técnico da seleção italiana. Em competições e estágios de treinamento com o Brasil, reencontra o treinador russo, com quem traça estratégias de jogo e faz preparação psicológica.
“Cada país tem uma escola de esgrima. Preciso entender a lógica de raciocínio de cada uma para tirar melhor proveito. O Alkhas me passa muitas coisas boas da escola russa”, afirma o esgrimista. “Treinando com ele já fui campeão pan-americano, ganhei os Jogos Sul-Americanos. Dá muito certo.”
Em outubro, Renzo conquistou o inédito ouro individual do sabre nos Jogos Mundiais Militares. Em casa em 2016, a luta será para conseguir o primeiro pódio da esgrima brasileira na história das Olimpíadas. “Se o dia for bom, ele jogar no máximo e tiver sorte, pode conquistar uma medalha”, projeta o técnico.
O sonho é alimentado pela recente evolução da esgrima nacional. Nos Jogos Sul-Americanos de Santiago 2014, o Brasil foi líder do quadro de medalhas da modalidade pela primeira vez na história. A equipe voltou do Chile com quatro ouros, três pratas e um bronze, superando a forte Venezuela, que teve atletas no pódio em todas as dez provas, mas apenas três vezes no lugar mais alto. Em Medellín 2010, os venezuelanos levaram oito dos dez ouros disponíveis. O Brasil, os outros dois.
Renzo Agresta, à direita, é uma das principais esperanças do Brasil nos Jogos do Rio 2016 (Foto: Divulgação)
Quando não está trabalhando, Alkhas tenta relaxar como muitos dos outros habitantes da capital paulista. Se não há competições, viaja à praia. Se fica em São Paulo, gosta de caminhar no Parque do Ibirapuera acompanhado das cachorras Maya e Pethka. São elas que sofrem com a rotina de viagem dos três integrantes da família Lakerbai, constantemente hospedadas em hotéis caninos.
Alkhas visita de férias a Rússia uma vez a cada três anos, mas vai ao país anualmente para o Grande Prêmio de Moscou de sabre. Quando a equipe retorna ao Brasil, ele ainda aproveita alguns dias de folga ao lado de amigos e familiares. Nestas oportunidades, pode se inteirar da parte da política local que não consegue acompanhar de sua nova casa.
“O mundo hoje é muito politizado. Parece que voltou a Guerra Fria. Coisa feia agora, como na Síria. O Brasil é bom por isso, se tirar escândalos políticos. Pelo menos não corre risco de entrar na guerra. Na Europa ou no Oriente Médio, a situação é bem mais perigosa. Qualquer dia pode começar uma guerra”, avalia.
Para Alkhas deixar o Brasil, apenas de férias ou em compromissos profissionais esporádicos. O futuro dos Lakerbai, assegura, é no País em que todos os membros da família aguardam ansiosamente os Jogos Olímpicos do Rio. “Já tive propostas de trabalhar em outros países, mas não quero. Quero ficar aqui no Brasil. Em São Paulo. Com a mesma academia. Com os mesmos alunos. Tudo isso”.