A disciplina é um dos principais valores do rúgbi, mas as atletas da Seleção Brasileira feminina só descobriram o real significado da palavra quando o neozelandês Chris Neill assumiu a equipe. O ex-sargento impôs estilo militar a suas comandadas para organizar a até então amadora equipe nacional e deixá-la em condições de combate diante das principais forças do mundo nas Olimpíadas do Rio de Janeiro 2016.
Neill chegou ao País em 2013 por meio de um convênio entre a Confederação Brasileira de Rúgbi e o Canterbury Crusaders, equipe neozelandesa em que trabalhava, para ajudar na profissionalização da modalidade. Um dos esportes mais populares do mundo, mas incipiente no Brasil, voltará a fazer parte do programa dos Jogos Olímpicos depois de 92 anos, na versão com sete atletas para cada lado.
Ele é um dos 49 técnicos estrangeiros contratados pelo Comitê Olímpico do Brasil (COB) para tentar colocar o país-sede no top 10 do quadro de medalhas dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro 2016. Este é o sexto capítulo da série Made for Brasil, publicada às segundas-feiras, em que a Gazeta Esportiva apresenta perfis destes profissionais.
Os primeiros meses de trabalho foram difíceis. Para as jogadoras, até então pouco acostumadas à rigidez imposta pelo neozelandês. E para Neill, que demorou a compreender o estilo de vida praticamente ditado por São Paulo, cidade com 11 milhões de habitantes. Em Christchurch, onde vivia, são menos de 400 mil.
“Nós somos muito acostumados a estar no horário, ter uma programação doentia. E levei quase seis meses para perceber que precisaria ser muito mais flexível”, explica. “Você tem que se planejar muito mais, saber a hora certa de fazer as coisas é crucial”, completa.
Neste período de adaptação, Neill fez as atletas da Seleção sofrerem. Empolgadas com a chegada de um treinador do país mais vitorioso do rúgbi mundial, elas logo entenderam que a almejada profissionalização significava aumento de responsabilidade. O atraso de uma jogadora era punido com séries de exercícios de todo o grupo.
As atletas começaram a sentir a pressão. Fecharam-se individualmente antes de finalmente entenderem a proposta do neozelandês e passarem a agir de forma coletiva.
“A gente começou a se ajudar mais. Quando parecia que uma ia chegar atrasada, outra já ligava para descobrir o que aconteceu. Foi bem difícil no início, mas a gente passou a se cobrar mais e entendeu a importância da disciplina”, explica Angélica Gevaerd, a Binha.
Chris Neill também entendeu que precisaria se adaptar, mesmo sem morar em tempo integral no Brasil. Quando aceitou o cargo de treinador das Yaras, a condição era trabalhar dois meses em São Paulo e passar outro em casa, ao lado da esposa Emma e dos cinco filhos Tegan, Jori, Cru, Kye e Maddy.
O plano foi seguido até o fim de 2014, quando a proximidade das Olimpíadas deixou a programação de treinos e torneios mais apertada. Aí, o treinador começou a ter duas ou três semanas de descanso na Nova Zelândia a cada três meses de trabalho no País que comandará nos Jogos Olímpicos de 2016.
Seleção sofreu antes de começar a colher os frutos do trabalho com o técnico neozelandês (Foto: Fernando Dantas/Gazeta Press)
Os 25 anos no exército da Nova Zelândia ajudam Neill e a família a lidar com os longos períodos de afastamento, amenizados pela facilidade de comunicação gerada pela internet. Em 2015, os meses em São Paulo até parecem férias para o sargento que passou seis meses na Guerra da Bósnia há 20 anos.
À época, cada soldado tinha direito a uma ligação por mês, mas o custo do minuto era tão alto que quase toda a comunicação com a família era feita por cartas. Numeradas. Porque era impossível assegurar que a primeira enviada seria a primeira a chegar ao destino.
Em São Paulo, Neill, que também já esteve em missões no Afeganistão, tenta manter em sua vida pessoal a disciplina dos tempos de militar. Seis vezes por semana, sai de casa em Moema de carro e às 7h já está na Associação Atlética Banco do Brasil, no Campo Limpo. Lá faz exercícios na academia antes de começar a treinar a Seleção em um campo de futebol com gramado sintético.
Sua primeira ideia era fazer o trajeto correndo, mas acabou desistindo pelas características pouco amistosas de São Paulo a quem não opta pelo transporte motorizado. Dois períodos de treino depois, volta no meio da tarde para casa, onde cozinha o jantar, geralmente baseado em receitas neozelandesas que ganham complementos da culinária local.
Só não pode ser feijão. Um dos ingredientes mais populares do Brasil, a leguminosa não foi aprovada pelo sargento. “Uma pena porque é uma parte básica da dieta por aqui”, analisa. O churrasco aos fins de semana, no entanto, caiu no gosto de Neill. “Eu achava que o da Nova Zelândia era bom, mas o daqui é incrível”.
O idioma continua a ser uma barreira entre as atletas da Seleção Brasileira feminina de rúgbi de sete e o técnico. Ele desistiu das aulas de português depois de faltar algumas vezes por causa de viagens. Como mora sozinho, não costuma praticar fora do ambiente de trabalho.
Para ensinar suas jogadoras, Neill as divide em grupos. Em cada um de seus regimentos, há pelo menos uma atleta que fala inglês e se torna responsável por explicar e traduzir as palavras do sargento. Como o jogo é arbitrado em inglês, ele passou a incentivar que suas atletas compreendessem o idioma depois de vê-las cometendo faltas por não entenderem o que o juiz falava.
“No jogo temos só dois minutos de comunicação no intervalo. Acho melhor falar em inglês, passar o que quero, e alguém traduzir do que falar português enrolado e elas ficarem confusas”, acrescenta.
Neill, primeiro à esquerda, serviu 25 anos no exército da Nova Zelândia (Foto: Acervo Pessoal)
Ao que parece, a tática do sargento Chris Neill tem dado certo. Mesmo sem tradição, a modalidade tem crescido no Brasil, impulsionada pelos bons resultados alcançados por suas comandadas. Na edição de 2015 do Circuito Mundial, a Seleção conseguiu avançar às quartas de final de duas etapas, fato inédito até então. A primeira vez que isso ocorreu foi no torneio de São Paulo, com apoio da torcida. A segunda, já no evento seguinte, em Atlanta. O País encerrou a temporada na décima colocação.
O resultado encheu de moral a tropa das Yaras, que tem outros estrangeiros na linha de comando. O preparador físico é um italiano, que já trabalhou na Nova Zelândia e nos Estados Unidos. O coordenador, Youssef Driss, um francês casado com uma brasileira e que aprendeu a falar português para poder participar de projetos sociais no País. Com visões diferentes sobre o rúgbi, eles contribuem para criar a identidade do time brasileiro.
"Há 127 nações jogando rúgbi de sete feminino e no ano passado ficamos em décimo. É algo incrível para nosso tamanho e para quão jovem o esporte é aqui. Mas subir outro degrau é muito difícil, são países que estão jogando há 60 ou 100 anos e têm milhares de jogadoras. É natural para eles. É um esporte de colisão e muitas pessoas aqui ainda estranham”, analisa o sargento.
O exército multicultural da Seleção será testado contra as principais forças estrangeiras nos Jogos Olímpicos de 2016. A missão primária é conseguir um lugar nas trincheiras das quartas de final do torneio, aproveitando a chance de combater perto de casa. Medalha, no pescoço e não na farda, ainda é tratada como sonho.
“Quando você está nas quartas de final, são os oito melhores do mundo. Tudo pode acontecer”, diz Neill, ressaltando que até a vaga nas quartas de final pode depender do sorteio das chaves. “Se cairmos no grupo de Nova Zelândia, Inglaterra e Canadá, vai ser difícil”.
A participação nos Jogos Olímpicos será novidade para todos os atletas do rúgbi, que não figura no programa de competições desde Paris 1924. Mas a Seleção se vangloria de ter tido experiência parecida em menor escala nos Jogos Pan-Americanos de Toronto 2015, em que ficou com o bronze. Em 2014, também esteve nos Jogos Sul-Americanos e foi ouro.
Outro ponto a favor é jogar em casa. E não de forma inédita. São Paulo sediou nos três últimos anos uma etapa do Circuito Mundial. Na primeira vez, jogadoras e comissão técnica se deixaram levar pelo clima de festa criado por famílias e torcida, e o Brasil perdeu todos os jogos. Na segunda, aprendeu com os erros do passado para alcançar as quartas de final.
Experiência jogando em casa é ponto a favor da Seleção no Rio 2016 (Foto: Fernando Dantas/Gazeta Press)
“Não nos ouvíamos por causa do barulho do público, então vamos usar sinais de mão para nos comunicar. Essas coisas vamos levar para as Olimpíadas”, explica Neill. “As meninas vão crescer por estar em casa. Vão jogar apaixonadas, fortes. Só precisamos controlar essa animação”, completa.
O próprio comandante sabe que precisará tentar manter o controle emocional, sobretudo se o Brasil cruzar com a Nova Zelândia, favorita a conquistar o ouro no Rio de Janeiro. Ainda sem saber se terá que armar um esquadrão para enfrentar seu país natal, espera poder contar com parte de sua família nas arquibancadas.
Já comprou ingressos para os jogos de rúgbi e agora monitora com cuidado os preços dos hotéis na Cidade Maravilhosa para descobrir quantos conseguirá alojar em sua nova casa.
“A acomodação é difícil e os custos vão aumentar. Só consegui ingressos do rúgbi por enquanto, ainda não de outros esportes, e vou ver se arranjo um lugar para eles ficarem”.