A cor da fé

Azul era a cor do uniforme da Seleção na final da Copa de 1958. O mesmo tom do manto de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil. Destino ou sorte, com aquela roupa, eles subiram no lugar mais alto do pódio pela primeira vez.

Da Redação
São Paulo
01/15/2026 06:17:54

Não era superstição. O branco tinha sido tão ingrato com o Brasil em 1950, quando perdeu a final para o Uruguai em casa, que os jogadores se recusavam a vesti-lo novamente. Não queriam e não entrariam em campo com o segundo uniforme. A uma vitória de conquistar seu primeiro Mundial, na Copa do Mundo de 1958, os brasileiros souberam que o rival é quem usaria o tradicional amarelo. Eram os suecos. Em um sorteio pela cor da vestimenta no embate, os anfitriões levaram a melhor. E, se os liderados por Vicente Feola vestissem branco outra vez, tinham certeza de que seriam derrotados.

Depois de cinco partidas usando o amarelo canarinho em uma trajetória sem derrotas até a decisão, era preciso uma outra cor: amarelo não podia pela regra. Branco fora de cogitação, para remediar. Veio, então, o azul. “Foi aí que começou a nossa vitória”, lembra Pepe, jogador da Seleção naquele ano. Era véspera da final. Paulo Machado de Carvalho, chefe da delegação, chegou na concentração dos brasileiros e os avisou que eles não poderiam usar o uniforme número um. Mas a nova escolha veio com otimismo e emocionou até os mais durões dos selecionados.“Vamos jogar com a cor azul, que é a cor do manto de Nossa Senhora Aparecida. Ela vai nos proteger, vocês podem ter certeza disso”, declarou, também comovido, o comandante. Cerca de 28 anos antes, a Igreja Católica havia proclamado a santinha de barro como Padroeira do País. Ela era muito mais do que um símbolo da fé nacional: era a própria fé dos brasileiros.

Foi aí que começou a nossa vitória

“Nossa Senhora Aparecida vai nos proteger e nós vamos levar essa Copa”, relembra Pepe sobre o momento em que o anúncio da mudança de cor foi feito. “Poxa vida. Isso foi importante. O time era bom e, com essa confiança que o Paulo Machado passou para nós, sabíamos que podíamos ganhar da Suécia. Tínhamos quase a certeza que seríamos campeões”, recorda o senhor, hoje, aos 83 anos, sentado no sofá de sua casa em Santos.

Muito usado antes de a Seleção ser intitulada de “canarinho”, esta seria a primeira vez que o azul seria vestido em uma Copa do Mundo. “Na cidade de Boras, centro têxtil da Suécia, que ficava a 20 km da concentração brasileira, foram encontradas camisas azuis, um pouco mais escuras que o azul-anil da bandeira”, conta Max Gehringer, autor do livro "Almanaque dos Mundiais".

O problema é que as camisas compradas em Boras não tinham numeração. Era preciso descosturar os escudos da CBD e a numeração das camisetas amarelas para pregá-los nas azuis. O trabalho ficou para o roupeiro da Seleção, Francisco de Assis. “Treze camisas da marca Idrot e mais os números soltos, custou 35 dólares da época”, conta Gehringer.

Guarde e governe 

A fé era parte importante da preparação dos jogadores a cada partida. “Antes dos jogos, eu fazia muitas orações para eu não me machucar”, relembra Pelé, em entrevista exclusiva à Gazeta Esportiva. Ele não era o único a pedir intercessão divina pouco antes de entrar nas quatro linhas . “A gente ouvia a preleção e cada jogador fazia sua oração. Quando entrava no campo, a maioria se benzia, ou fazia ‘pelo sinal’, pelo menos”, conta Pepe, que emenda. “Todos rezavam pedindo para que tudo corresse bem e que ninguém se machucasse”. Às 15 horas (no horário local, 11h no Rio de Janeiro) do 29 de junho de 1958, começou a decisão, que tinha ingressos esgotados.

Antes dos jogos eu fazia muitas orações para eu não me machucar

Graças às orações, à sorte ou ao destino, o azul levou a melhor por 5 a 2, com gols de Pelé (dois), Vavá (dois) e Zagallo. A vitória naquele campo pesado e molhado da chuva da noite anterior, entretanto, não valia apenas o jogo. Era o auge dos brasileiros. O lugar mais alto do pódio diante das 52 mil pessoas que lotavam o estádio. Na voz de Arthur Drewy, presidente da Fifa, foi anunciado em inglês: “Neste momento, proclamo campeã mundial de futebol a representação do Brasil”. Foi, então, a primeira vez que um capitão, Bellini, tremendo, beijava a Taça Jules Rimet e a erguia - feito que se repetiria anos a fio.

Belini foi o primeiro a erguer e beijar a Taça (Foto: Acervo/Gazeta Press)

“O Brasil tinha aquele molejo que os outros não tinham. Os suecos eram fortes, marcavam bem, mas não tinham o talento, a categoria, a improvisação do futebol brasileiro”, avalia Pepe. Como nas demais partidas, por estar lesionado, ele acompanhou o triunfo das arquibancadas. “Sempre com uma pontinha de insegurança, mas com 99% de certeza que seríamos campeões e o Brasil estaria em festa”.

A grande lição foi provar que o futebol se ganha dentro do campo

“Era o nosso primeiro título de Copa e jogando com a seleção da casa. Foram muito difíceis os primeiros 20 minutos. Depois passou o nervosismo e a equipe jogou confiante”, destaca Pelé, dono de um gol emocionante no minuto final do embate. Ele ainda marcou outro, aos 10 minutos do segundo tempo, e contou com dois tentos de Vavá e um de Zagallo, para somar os 5 a 2 em cima dos liderados por George Raynor.

“Foi tudo muito emocionante. Foram momentos inesquecíveis que até hoje estão na minha memória. A grande lição foi provar que o futebol se ganha dentro do campo. Como a Seleção Brasileira era muito jovem e desconhecida, não acreditavam no Brasil”, conta Pelé, o mito que nascia, e mal sabia o que esperar quando voltasse para casa.

FICHA TÉCNICA
BRASIL 5 x 2 SUÉCIA

Local: Solna Fotbolistation, Estocolcomo (Suécia)
Data: 29 de junho de 1958
Horário: 15 horas, na Suécia (11 horas pelo fuso horário do Rio de Janeiro)
Árbitro: Maurice Guingue, da França
Assistentes: Albert Dusch (Alemanha) e Juan Gardeazabal (Espanha)
Gols: BRASIL: Vavá, aos 9 e 32 minutos. Pelé aos 55 e aos 90 e Zagallo, aos 68; SUÉCIA: Nils Liedholm aos 4 minutos e Agne Simonsson, aos 80.

BRASIL: Gilmar; Djalma Santos e Belini; Zito, Orlando e Nilton Santos; Garrincha, Didi, Vavá, Pelé e Zagalo
Técnico: Vicente Feola

SUÉCIA: Svensson; Begmark e Axbom; Borjesson, Gustavsson e Parling; Liedholm, Hamrin, Fren, Siminsson e Skoglung
Técnico: George Rayno