“Ela não joga absolutamente nada. Tá aqui porque o pai conseguiu. Tem caso com o treinador. Tudo porque é bonita, é a musa”, lembra Alline Calandrini, referindo-se aos comentários que ouvia das colegas de equipe ainda no início de sua carreira como jogadora de futebol. A atleta sabia: era preciso provar que tinha talento em campo para evitar a crítica. “Resolvi mostrar de fato para que eu vim, tive que mostrar duas vezes porque eu estava jogando”, afirma a atleta, que completa 30 anos nesta quinta-feira, justamente na data em que se celebra o Dia Internacional da Mulher.
Ex-Santos e atualmente no Corinthians, a atleta muitas vezes era lembrada não só pelo bom futebol, mas também por sua beleza.“Olhem pelo talento, pelo que tem para apresentar, pelo trabalho, o que se entrega diariamente”, destaca a jogadora, que se incomodou com o fato de, muitas vezes, abordarem o esporte em segundo plano quando passou a levar seu maior hobby, o futebol, a sério. “Ninguém me conhecia e eu não tinha muita confiança. Quando cheguei, todas meninas perceberam que eu era diferente”, recorda.
Ainda tem muito tabu para ser quebrado
Para a zagueira, é preciso um grande esforço para transformar a realidade do futebol feminino brasileiro. “Para mudar, precisa da mídia, da CBF, do clube, da população e principalmente de incentivo. De modo geral, tudo”, afirma a jogadora corintiana. “Ainda tem muito tabu para ser quebrado. Podemos jogar não só porque somos mulheres, mas sim porque somos capazes. Futebol é futebol”.
Estudante de jornalismo, Calandrini acredita que a imprensa tem um papel importante para a criação de uma nova mentalidade sobre a categoria. “A gente precisa da mídia para mostrar o quão bem a gente joga, porque, às vezes, o público tem a ideia de que a gente não joga bem”.
Calandrini defendeu o Santos por 9 anos e agora atua no Corinthians (Foto: Sergio Barzaghi/Gazeta Press)
Jogar é melhor que dançar
Na Copa do Mundo de 1994, Alline Calandrini tinha apenas seis anos, mas, apesar das pouca idade, as imagens ainda são vívidas em sua cabeça. As jogadas bem elaboradas de Bebeto e Romário, assistidas em sua casa, em Macapá, no Amapá, entravam pelos olhos, vidrados na televisão, e saiam pelos pés e braços, que reproduziam os movimentos dos ídolos. “Ver aquela Seleção na Copa foi o start necessário para eu entrar na modalidade”, lembra a jogadora, depois de acumular um currículo extenso de conquistas.
Em sua cidade natal, sabia que não queria dançar ‘É o Tchan’ com as primas ou brincar de boneca. Seu negócio era na rua, na calçada, ao lado do irmão e dos primos, que passavam horas jogando pelada. Apesar do apoio de seus pais, viu a avó mais relutante- “vem para cá, isso é coisa de menino”, gritava a matriarca da família.
Ver aquela Seleção na Copa foi start necessário para eu entrar na modalidade
“A maioria das meninas, para não falar todas, sempre começa com uma história idêntica: a gente novinha jogando no meio dos meninos”. Sem conhecer a modalidade feminina profissional, sua realidade no esporte só mudou quando veio para o Sudeste do País com seu pai. Fez as malas e, em 2005, começou a buscar testes no Rio de Janeiro. “Meu pai implorou para que eles me vissem”, lembra Alline, que logo em seguida foi para São Paulo defender o Juventus.
No cenário do Amapá, sabia que tinha talento, mas veio conhecer sua posição apenas jogando na Capital paulista “Quando a técnica falou que eu ia jogar de zagueira, fiquei putíssima. Zagueira só dá chutão”, lembra Alline de sua reação.
Em 2006, um divisor de águas: foi para o Santos, onde, no ano seguinte, viu o time alvinegro sagrar-se campeão paulista e da Liga Nacional. “Na nossa primeira conquista, vencemos na Liga em cima do Botucatu, que era o time a ser batido. Foi a partir dali que o Alvinegro praiano nos abriu as portas”, destaca, saudosa. “Aquela geração nossa foi surreal de conquistas”. Além das duas conquistas logo no início, foram outros dois Paulistas (2010 e 2011), duas Copas do Brasil (2008 e 2009) e uma Copa Paulista de Futebol Feminino (2009). O time soma também duas Libertadores (2009 e 2010). "Ganhamos tudo", afirma a zagueira.
Alline ficou na equipe alvinegra até 2012, quando o Santos deixou, temporariamente, de ter um time feminino. Foi para o Centro Olímpico, que defendeu até seu retorno para a Vila, três anos depois. “O que a gente viveu lá foi uma coisa muito linda. Foi o máximo da modalidade, em projeto, incentivo, financeiramente, tudo”.
Hora de recomeçar
“Eu sempre beijei o escudo do Santos e tive uma história com o clube. Mas entendi que o ciclo tinha se encerrado”, destaca Alline que defendeu o time por nove anos, em duas passagens. “Precisava de uma emoção diferente na carreira e um frio na barriga. E o Corinthians veio para mudar tudo”.
No Timão, ela vem com objetivo de repetir os feitos do Santos: conquistar títulos e a torcida. Apesar disso, sabe que deve enfrentar grandes desafios. O primeiro deles é lutar por uma posição e pela sua vontade de mostrar alto nível. “Eu preciso ter novamente o tesão de jogar futebol feminino, preciso desse amor”.
Precisava de uma emoção diferente na carreira e um frio na barriga. E o Corinthians veio para mudar tudo
Alline foi obrigada a reduzir o ritmo na modalidade após uma série de lesões. Em 2016 e 2017, quase não tocou na bola e realizou cirurgias nos dois anos para tratar o ligamento cruzado anterior do joelho direito. Na segunda vez, foi da alegria extrema para uma grande tristeza. Isso porque, dez dias depois de ser convocada para a Seleção, em janeiro do último ano, teve que realizar uma nova intervenção médica e ficou fora da lista da treinadora Emily Lima. “Acho que foi o momento mais difícil da minha carreira. Eu vinha de uma outra contusão, no mesmo joelho. Mas ainda bem que eu virei a chave e passei por cima disso”, lembra.
Depois de desistir da aposentadoria, após perder a chance de defender a Seleção, vestir outra vez a camiseta amarela deixou de ser seu foco principal, porque acredita que não seria bem aproveitada defendendo o Brasil. “Agora, quero ser campeã no Corinthians, fazer história aqui e mirar em uma carreira jornalística”, explica Calandrini. Com a chance de novos desafios e resgatar a vontade de mostrar bom futebol, Alline não pensa em deixar as chuteiras tão cedo. “Precisava de novo desse tesão, dessa rotina. Ao mesmo tempo, estou aberta a outras coisas. Mas me deixo aqui, 100% disposta ao Corinthians”.