Corrida Internacional de São Silvestre/Bastidores

Bicampeão da São Silvestre, José João da Silva relembra a carreira

Olga Bagatini, especial para a GE.net - São Paulo, SP - Brasil
01/12/2014 08:00:40

Em: Bastidores, Corrida Internacional de São Silvestre, Mais Esportes

“Acidente. Um baita acidente.” É assim que José João da Silva, bicampeão da São Silvestre, descreve o início de sua vida de atleta. O jovem nascido em Bezerros (PE) e recém-chegado à capital paulista estudava no colégio Assunção, na Alameda Lorena, e trabalhava na Cantina Nova Romeu, um restaurante próximo, onde fazia bico como entregador para ganhar um dinheiro extra.

Certa noite, a última do ano de 1973, José estava a caminho de uma entrega próximo à Avenida Paulista quando foi barrado por um policial. “Você não pode vir por aqui porque vai passar o pelotão de frente da São Silvestre”, ouviu. O menino nada sabia sobre a prova, mas voltou ao restaurante contando aos patrões, Radamés e Romeu Pelliciari, o motivo de sua demora. Os dois explicaram ao rapaz sobre a tradicional corrida idealizada pelo jornalista Cásper Líbero em 1925. Na época, José fazia tae-kwon-do e ficou fascinado pela ideia.

“Eu queria correr, fiquei apaixonado. Pedi ao Radamés para conhecer o percurso, e de tanto eu encher o saco, teve um domingo que, depois de fechar a cantina, fomos até a frente da Fundação Cásper Líbero [local onde se dava a largada da prova]. Ele foi na frente de carro e eu fui correndo atrás. Fiz o percurso todinho da prova, 9 km em pouco mais de 38 minutos”, afirmou o corredor em entrevista à Gazeta Esportiva.Net.

Foi quando o chefe percebeu que José tinha talento e o incentivou a procurar um treinador profissional. Um dia ele estava correndo no Ibirapuera e um transeunte o parou e deu o mesmo conselho – e acrescentou que fosse ao clube Pinheiros para conversar com o técnico Pedro Henrique Camargo de Toledo, o “Pedrão”, que posteriormente treinou o recordista mundial João do Pulo. Depois de tanta insistência, José resolveu pegar sua bicicleta e foi bater na porta do clube, mas como Pedrão era especialista em salto e velocidade, o indicou para o técnico Carlos, que orientou o a preparação do rapaz.

José João da Silva venceu a Corrida Internacional de São Silvestre duas vezes
José João da Silva venceu a Corrida Internacional de São Silvestre duas vezes – Credito: Sergio Barzaghi/Gazeta Press

Em 1976, ele disputou sua primeira São Silvestre e ficou na 89ª colocação. Ele conta como a disciplina e a dedicação o ajudaram a chegar ao topo.

“Era muito treinamento. Foi nessa época que comecei a ter o pensamento da corrida, do treino. São poucos os que treinam hoje. Quando o atleta começa a ganhar, geralmente dá bobeira. Além do talento, tem que ter disciplina total, estar com a cabeça lá. Se você chega ao topo e dá uma vacilada, pode despencar e não voltar nunca mais. Correr é uma arte, como escrever ou tocar. É preciso concentração, dedicação”, acrescentou.

“Quando o Pinheiros desmanchou a equipe principal e criaram outro clube, eu acabei indo para o São Paulo. Eu fui lá conhecer e gostei. Eu já era um dos melhores do Brasil e estava pronto para ir buscar recordes nacionais”, explicou José.

Em 1979, ele já estava participando de provas importantes no Brasil e teve o melhor desempenho na São Silvestre até então. “Eu liderei um bom pedaço do percurso e briguei muito na frente, mas cheguei em 15º lugar. Quem ganhou foi o americano Herb Lindsay”, relembrou o atleta. Mas foi no ano seguinte que a medalha de ouro finalmente veio.

“Era 1980. Uma vez por mês eu fazia uma avaliação no Ibirapuera e dava meu máximo. Eu sempre fazia um tempo normal. Teve uma vez que eu andei muito e fiz o melhor tempo do ano na época em um teste: 5 km em 14min08s. Então eles ligaram para a Federação para arrumar uma prova para mim, mas só tinha o Troféu dos Imigrantes, um torneio nacional em São Paulo, marcado para duas semanas depois. Eles me colocaram na prova e fizeram uma bateria para avaliar os corredores. Foi aí que eu apareci e fiz o melhor tempo do ano do mundo: 13min57s. Até hoje é difícil fazer esses números”, disse.

“Eu estava em primeiro, correndo na pista, e quando vi, tinha alguém na minha frente: estava dando chapéu no segundo colocado! Foi um bochicho, todo mundo aplaudindo, e foi quando me colocaram em uma competição na Argentina. Fui como convidado da Confederação Mundial. Disputei algumas etapas no exterior, voltei para o Brasil com várias medalhas e recordes. Quando desembarquei, já tinha imprensa me esperando no aeroporto”, contou o fundista.

A imprensa já achava que ele era um forte candidato ao título da São Silvestre. Ele já havia derrotado alguns dos melhores do mundo, como o francês Radhouane Bouster, campeão da prova em 1978. E a mídia acertou: em 80, José João da Silva se sagrou campeão da corrida mais tradicional do país. Em 1985, repetiu o feito e faturou o bicampeonato.

Apesar das duas medalhas de ouro, a edição da São Silvestre que mais o marcou foi a de 1984, quando foi vice-campeão ao ser superado pelo português Carlos Lopes. José João afirmou que perdeu a corrida, mas ganhou muito aprendizado.

“Aquele foi o melhor ano da minha vida. Não tinha perdido pra ninguém naquele ano e perdi em casa. Lopes me superou na subida, abriu 30m e eu não consegui buscar. Aquela corrida marcou, mas não de um jeito negativo, porque a derrota foi a maior vitória. Costumo dizer que a derrota é a mãe de todas as vitórias. Essa frase me dá uma energia legal. Quando você ganha, fica bem, mas a derrota bem perdida te derruba e faz você querer buscar o topo novamente, ser melhor. E no ano seguinte, fui bicampeão”, afirmou.

José disputou corridas por 15 anos. Se somar toda a minha quilometragem que já percorreu na carreira, o que nas suas contas dá pelo menos 353 mil quilômetros, ele está perto de alcançar a lua, cuja distância da Terra é de 384 403 quilômetros – marca à altura de um atleta que correu como um foguete.