Gazeta Esportiva

Seleção do Irã é sacudida por onda de protestos no país às vésperas da Copa do Mundo

AFP - São Paulo,SP

28/09/22 | 15:48

A onda de protestos que acontece no Irã pode afetar o desempenho da seleção de futebol do país na Copa do Mundo, no Catar, com rumores de rachas no elenco, publicações nas redes sociais que desaparecem e ídolos mostrando seu apoio às manifestações.

O time iraniano se prepara para uma batalha no Grupo B do Mundial, tão competitivo quanto politicamente tenso, no qual terá que superar Estados Unidos, Inglaterra e País de Gales para avançar pela primeira vez às oitavas de final do torneio.

Mas os protestos que sacodem o Irã desde a morte da jovem de 22 anos Mahsa Amini, depois de sua prisão pela polícia da moral, fizeram surgir perguntas incômodas para a seleção de futebol, que tem enorme influência num país apaixonado pelo esporte.

O atacante Sardar Azmoun, astro da equipe e jogador do Bayer Leverkusen, está sob enorme pressão. A princípio, ele pareceu respeitar uma ordem de silêncio imposta à seleção para que os atletas não falassem a respeito da brutal repressão das autoridades do país, mas depois voltou atrás e se posicionou.

Enquanto isso, um dos jogadores mais importantes da história do futebol iraniano, o já aposentado Ali Karimi, se tornou um herói para muitos no país ao apoiar abertamente os protestos.

Os ecos das manifestações chegaram na última terça-feira ao amistoso entre Irã e Senegal, disputado na Áustria, como parte da preparação das equipes para a Copa do Mundo. Manifestantes do lado de fora do estádio cantaram palavras de ordem contra as autoridades de Teerã e os nomes de Karimi e Azmoun.

"Estamos aqui para suplicar (à seleção): por favor, apoiem-nos ao invés de estarem contra nós", disse Mehran Mostaed, um dos organizadores do protesto.

Publicação apagada

Azmoun começou o jogo no banco, alimentando os rumores de que pode ele ter sido isolado no elenco. No entanto, entrou no segundo tempo e marcou um gol de cabeça, para a satisfação do técnico da equipe, o português Carlos Queiroz.

Blogueiros iranianos divulgaram nos últimos dias capturas de tela de uma postagem no Instagram de Azmoun dizendo que devido a "normas restritivas (...) não pude dizer nada".

Mas o jogador acrescentou que não poderia ficar em silêncio diante da repressão contra os protestos que, segundo os ativistas, provocou a morte de 75 pessoas.

"Isso nunca será apagado de suas consciências! Que vergonha!", escreveu. A publicação foi apagada e todo o conteúdo de seu Instagram, seguido por cerca de cinco milhões de pessoas, desapareceu durante dias.

Mas depois do jogo contra Senegal, a conta de Azmoun reapareceu e o jogador pediu perdão por sua publicação anterior.

"Não estava sob pressão para escrever ou apagar o 'storie' do Instagram", disse, acrescentando que "não há racha na equipe".

Ídolos apoiam os protestos

O jogador aposentado Ali Karimi publicou reiteradamente no Instagram e no Twitter seu apoio aos protestos, dizendo que nem sequer a água sagrada poderia "limpar esta desgraça".

"Como pessoa comum da minha terra, não estou procurando um cargo ou uma posição", disse. "Só procuro a paz, o conforto e o bem-estar do povo".

Estas publicações levaram a agência de notícias iraniana Fars a publicar um artigo no qual pedia a prisão do ex-jogador, sugerindo que suas propriedades no Irã poderiam ser apreendidas.

Outras lendas apoiaram a postura de Karimi em publicações no Instagram.

Mehdi Mahdavikia, que jogou durante quatro anos na Alemanha, acusou as autoridades de "ignorar as pessoas", enquanto Ali Daei, lendário atacante e estrela da seleção na Copa do Mundo de 1998, disse que o regime teria que "resolver os problemas dos iranianos ao invés de usar a repressão, a violência e as prisões".

Hosseini publica mensagem contra repressão no país 

O zagueiro da seleção do Irã Majid Hosseini publicou nesta quarta-feira em sua conta no Instagram uma mensagem denunciando a repressão que provocou dezenas de mortes no país.

No desenho compartilhado nos 'stories' pelo jogador, que atua no Kayserispor da Turquia, uma mulher retira o capacete de um policial.

"Veja, sou sua compatriota", diz a mulher.

"Largue sua arma", repete ela ao homem por três vezes, segundo o texto em persa que acompanha a imagem.

"Se deus deu a vida, porque você deve tirá-la?", continua a mulher, segundo a mensagem compartilhada por Hosseini, que conta com mais de 400 mil seguidores no Instagram.

Segundo um último levantamento feito na terça-feira pela agência de notícias iraniana Fars, "cerca de 60 pessoas foram assassinadas" no país desde 16 de setembro.

A ONG Human Human Rights, com sede em Oslo (Noruega), estima que a repressão às manifestações deixou "pelo menos 76 mortos".

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